O HAITI ESTÁ AQUI

Compartilhando a mesma visão da mídia brasileira que trata os imigrantes – principalmente os ilegais – como “invasores” ou “exilados”, pobres que trazem mais problemas do que soluções, o governo brasileiro decidiu fechar a sua fronteira, adotando medidas controladoras.

O Haiti, primeira república liderada por negros no mundo, sofreu um devastador terremoto no dia 12 de janeiro de 2010. Desde então, o país vêm enfrentando dificuldades em sua reconstrução. Uma crise humanitária se instalou após esse trágico episódio que matou mais de 300 mil pessoas e foi seguido por uma epidemia de cólera, uma passagem de furacão e uma instabilidade política deflagrada por uma eleição presidencial e legislativa caótica.

Numa população de quase dez milhões de habitantes, mais de oito milhões vivem sem energia elétrica e, na falta de uma política habitacional abrangente, meio milhão de haitianos ainda estão em abrigos ou acampamentos. O desemprego atingiu 60% da força de trabalho num país onde cinco milhões de pessoas são analfabetas e 80% da população vive abaixo da linha de pobreza.

Esses dados alarmantes revelam a insustentável situação de vida dos haitianos. Em busca de melhores condições de vida, muitos deles abandonam o país. No Brasil, calcula-se que, nestes dois anos, cerca de quatro mil haitianos tenham cruzado a fronteira de países vizinhos e alcançado municípios dos estados do Acre e do Amazonas. Compartilhando a mesma visão da mídia brasileira que trata os imigrantes – principalmente os ilegais – como “invasores” ou “exilados”, pobres que trazem mais problemas do que soluções, o governo brasileiro decidiu fechar a sua fronteira, adotando medidas controladoras.

Desde janeiro, o Conselho Nacional de Imigração estuda propostas de lei para limitar a concessão de vistos. Hoje, aqueles que desejam trabalhar no Brasil devem solicitar autorização na Embaixada de Porto Príncipe, enquanto aqueles que chegarem ilegalmente deverão assumir o risco de deportação. O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, depois de uma reunião com a presidente Dilma Rousseff, e os ministros das Relações Exteriores, do Desenvolvimento Social e da Casa Civil, anunciou que emitiria vistos com permanência de cinco anos, assim como autorizaria carteira para atividade de trabalho regular.

O governo também decidiu que os haitianos não poderão entrar no país na condição de refugiados políticos, por decisão do Conselho Nacional para os Refugiados (Conare), que havia negado os pedidos de entrada no país nessa condição. “O Conare entendeu que não é caso de refúgio político e sim de vulnerabilidade econômica”, disse o ministro Cardozo. Essa é a primeira vez, desde a Segunda Guerra Mundial, que uma nacionalidade específica é impedida de solicitar a proteção do refúgio.

Por trás da seletividade migratória de órgãos oficiais e semioficiais, acompanhados pela cobertura midiática brasileira, encontra-se um verdade que é escondida. Muitos desses migrantes econômicos possuem sólida formação educacional, com curso secundário, técnico ou mesmo superior, dispostos a dar o melhor de si para enviar recursos a suas famílias no Haiti. Atualmente há profissionais haitianos contribuindo efetivamente para a consolidação da economia brasileira e atuando no ensino e na pesquisa. Verdades omitidas pelo discurso oficial que quebram a tradição de terra hospitaleira. Estigma e preconceito, só porque vieram do país mais pobre do continente americano.

Guilherme Ramalho



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