Mulheres refugiadas que produzem cultura no Brasil e uma abordagem em profundidade: conheça trabalho o de Júlia Motta, mestranda da UFF

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Aluna do mestrado em Cultura e Territorialidades do Instituto de Arte e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense (UFF), Júlia Motta foi uma das convidadas da última quinta-feira (07/11) para o encontro semanal do Estrangeiro com migrantes ou pesquisadores e associações que atuam em temas ligados às migrações para o Brasil. O outro convidado do dia foi Mauro Band, presidente da Associação Scholem Aleichem de Cultura e Recreação (ASA), que discutiu as migrações de judeus para o Brasil.

Lembrando que os encontros ocorrem toda semana, na disciplina “As migrações transnacionais entre teoria e mundo da vida: a perspectiva dos pesquisadores e pesquisados”, ministrada pelo Prof. Dr. Mohammed ElHajji na Escola de Comunicação da UFRJ.

Formada em Comunicação Social – Jornalismo pela PUC-Rio, Júlia também tem mestrado em Gestão da Indústria Cinematográfica pela Universidade Carlos III de Madri (Espanha) e especialização em roteiro pela Escuela Internacional de Cine y Televisión (Cuba). Já tendo atuado em diferentes áreas da Comunicação, Motta exerceu atividades em redações de jornal impresso e revista, produção de conteúdo para programas de TV e cinema, e atuando como produtora executiva de mostras, festivais e filmes. Também é uma das fundadoras da Rede de Cinemas Itinerantes da América Latina, que é composta por 14 países.

Seu percurso na pesquisa de mestrado “Quando nos deslocamos, perdemos o chão. Nunca nossas raízes. Narrativas de mulheres fazedoras de cultura em situação de refúgio no Rio de Janeiro” na UFF tem sido muito interessante. Tendo como objetivo estudar as narrativas de mulheres fazedoras de cultura em situação de refúgio, no Rio de Janeiro, não foram poucas as vezes em que Júlia se surpreendeu.

Depois de gravar a peça de uma atriz congolesa refugiada, seu celular foi roubado e, consequentemente, todo o registro do espetáculo perdido. Tentando durante semanas combinar um horário comum para realizar uma entrevista com ela, Júlia decidiu que iria encontrá-la pessoalmente onde a jovem estivesse. A partir desse primeiro dia que passaram juntas enquanto a congolesa trançava o cabelo no Mercadão de Madureira, a pesquisadora se deu conta de que a imersão no campo seria primordial para o seu trabalho.

Já assídua aos eventos sobre migrações, como a Feira Chega Junto, onde migrantes, refugiados e brasileiros vendem seus produtos, Júlia Motta percebeu a importância de se envolver pessoalmente e estabelecer relações mais profundas com as mulheres participantes de sua pesquisa. Inicialmente, parecia difícil ultrapassar o limiar entre as pessoas contarem algo pronto ou realmente relatarem suas narrativas identitárias.

“Comecei a me questionar como poderia ter um contato mais profundo, para além da narrativa já pronta delas dadas a alguns pesquisadores, para os jornalistas, para a mídia”. A solução encontrada foi começar a frequentar os mesmos espaços dessas pessoas, deixando-se envolver com elas, estabelecendo uma relação de confiança e de amizade. Ao se aproximar, presenciou e começou a fazer parte do bloco Terremoto Clandestino, iniciativa agregadora de refugiados, migrantes e brasileiros. Os participantes do projeto se reúnem semanalmente para ensaiar, desde janeiro de 2019, e em um desses encontros conheceu uma refugiada gambiana que também aceitou contribuir com a pesquisa.

A metodologia de Motta recorre à literatura de mulheres africanas, de autoras como Scholastique Mukasonga, Yaa Gyasi e Chimamanda Ngozi Adichie para traçar reflexões que têm as mulheres como ponto de partida e centro da narrativa. E, para tentar compreender como, mesmo com o trauma do refúgio, de serem obrigadas a sair de seus países natais, de terem sido testemunhas de violência, do machismo na sociedade, essas mulheres refugiadas no Brasil, ainda assim, fazem cultura. Ao mesmo tempo, a pesquisadora quer saber quais são as narrativas construídas por pessoas que são atravessadas por todos esses fatores.

Utilizando-se de um método colaborativo, Motta vem construindo, com essas mulheres, uma maneira diferente de fazer emergir seus relatos. A partir do uso de símbolos, de fotografias, histórias e de jogos jogados entre as duas partes, Júlia evoca a memória afetiva dessas mulheres refugiadas que fazem cultura aqui no Brasil. “Eu percebi que se eu não me abrisse, do meu lado, elas não se abririam também”.

O trabalho desenvolvido por Júlia Motta, além de ser um exemplo do quão imprevisível pode ser uma pesquisa de campo, com acontecimentos fora do alcance do pesquisador, também reforça a visão de que não é possível estar em contato com comunidades específicas enquanto um sujeito distanciado do seu “objeto” de estudo.

João Paulo Rossini

 



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