Uma historiadora mapeou a nossa imigração galega

Certamente você já ouviu alguém ser chamado de galego. Mas você sabe sobre a Galícia? Ou melhor, Galiza, se considerarmos a língua falada nesta região autônoma da Espanha? Este é o trabalho “raiz” da historiadora Érica Sarmiento, que coordena estudos sobre imigração na UERJ e na Universidade Salgado de Oliveira e lançou em 2017 o livro Galegos nos trópicos: presença e invisibilidade da imigração galega no Rio de Janeiro (1880-1930), publicado pela EdiPUCRS.

Na última quinta-feira (14), Sarmiento participou da disciplina “As migrações transnacionais entre teoria e mundo da vida: a perspectiva dos pesquisadores e pesquisados”, organizada pelo grupo coordenado pelo Prof. Dr. Mohammed ElHajji, na UFRJ, e explicou sobre a presença marcante de galegos na imigração ao Rio de Janeiro, tema que se dedica há pelo menos 20 anos.

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Érica Sarmiento na UFRJ. Foto: Otávio Ávila/oestrangeiro.org

Sarmiento realizou uma vasta pesquisa por documentos históricos a fim de mapear as nuances de uma imigração que deixou marcas na cidade, especialmente na construção do comércio hoteleiro. Terceira nacionalidade a chegar ao Rio depois de portugueses e italianos, Sarmiento afirmou que 80% dos espanhóis eram de origem galega que, em grande parte, vinham ao Brasil não subvencionados pelo Estado. Ou seja, era a própria “rede familiar” de apoio que ajudava na imigração de homens entre 14 e 35 anos. A explicação de ser considerados homens tão cedo era de que precisariam de muitos anos para se incorporar ao novo mercado.

Um dos pontos mais instigantes da sua fala estava ligado ao fato microssocial da migração. A Galícia é uma região genuinamente migratória (talvez a principal da Europa junto à Irlanda, sugere a pesquisadora) e a saída dos homens alterava o tecido social, especialmente o comportamento das mulheres, que passavam a vida aguardando o retorno dos maridos. Assim, o alto número de mães solteiras em uma região campesina e tradicionalmente católica ainda no século XIX poderia causar algum tipo de repulsa comunitária, fato negado pela historiadora. A justificativa era de que aquelas mulheres não eram deixadas por seus maridos, mas elas mesmas eram parte daquele complexo processo migratório que envolvia toda a família e configurava à esposa um novo papel na comunidade.

Entre as províncias que mais enviaram galegos, Pontevedra ocupa o primeiro lugar, com 52% dos emigrados, seguida por Ourense, com 31%, ambas regiões fronteiriças a Portugal. O foco isolado se dava com a pequena Santa Comba, localizada na província de Corunha e que ainda hoje mantém vínculos formais de amizade com a capital fluminense. mapa-galiza

Sarmiento contou que boa parte desses imigrantes passavam antes por Portugal, cujo território mais ao norte é bastante influenciado pela cultura galega. Mas foi no Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador que muitos deles deram um novo passo em seu processo migratório, e de forma definitiva. No Rio, ocuparam, sobretudo, a hotelaria, cujas redes de apoio continuavam a agir no novo território fazendo com que algumas ruas do centro, como a do Lavradio e, especialmente, a antiga Rua da Ajuda concretizassem essa presença estrangeira. Mas ainda não será uma “hotelaria” como imaginamos hoje com a Windsor Hotéis, guiada por um galego na cidade que recebe o maior número de turistas no país. No início do século XX eram os pequenos quartos alugados ao proletariado da zona portuária para suas relações amorosas, fato que demonstra uma rápida adaptação mercantil daqueles que vinham com o objetivo último de ganhar dinheiro e o mais rapidamente possível.

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Entre muitas histórias, Sarmiento finalizou sua fala alertando ao tema da invisibilidade galega. Mesmo sendo uma expressão comum, a historiadora explicou que a presença de imigrantes galegos em Portugal gerou um tipo de estigma entre os trabalhadores por lá. Chegando a um Brasil já ocupado majoritariamente por imigrantes portugueses, o trabalhador braçal ou menos remunerado recém-iniciado era apelidado de “galego”.

A rica história dessa região autônoma espanhola é um traço dessa multiplicidade de “Brasis” dentro do nosso país. Carregados de um nacionalismo e uma tradição aos seus costumes mais genuínos, para muitos galegos, mesmo no Brasil, a “Galícia é a pátria” e continuará sendo.

Gostou do tema? Sugerimos dois textos da autora:

SARMIENTO, Érica. Aproximações da emigração galega no Rio de Janeiro e Buenos Aires por meio do estudo comparado.  Historiografia e associativismo étnico na Grande Imigração. Revista do Instituto Histórico e Geográfico brasileiro, vol.479, pp. 107-129. Acesse.

SARMIENTO, Érica; André Azevedo. CIDADE E IMIGRAÇÃO: A FREGUESIA DE SANTO ANTONIO E O COTIDIANO DOS GALEGOS NOS LOGRADOUROS CARIOCAS (1880-1930). Revista Historia (PUC-SÃO PAULO). , v.35, p.1 – 19, 2016. Acesse.

Otávio Ávila



Categorias:análises, imigrantes

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