Feminização das migrações: o protagonismo social das mulheres migrantes

A sociedade contemporânea apresenta uma complexidade política internacional (terrorismo, recrudescimento da intolerância, ascensão da extrema direita, …) que impacta, de alguma maneira, na economia e na rotina de várias comunidades, de várias nações. Uma das consequências mais relevantes é a existência de fluxos internacionais de pessoas, incluindo os refugiados, para todas as partes do mundo, inclusive para o Brasil.

De acordo com a Organização das Nações Unidas – ONU, em 2017 havia, no mundo, mais de 68 milhões de pessoas que saíram de seus países devido a conflitos e perseguições. Uma em cada 113 pessoas no mundo estão nesta situação, configurando a maior crise humanitária desde a Segunda Grande Guerra.

Até algumas décadas atrás, os estudos sobre a questão da mobilidade humana, incluindo as diásporas forçadas, não levavam em consideração a questão do gênero. Sob uma perspectiva tradicional e patriarcal, havia, de forma preponderante, a prevalência da representação do “homem migrante”, privilegiando o poder masculino na perspectiva socioeconômico e relacional.

O papel feminino nos processos migratórios só passou a ser considerado a partir da década de 1980, onde, com o reconhecimento da obsolescência da representação patriarcal, a questão da igualdade de gênero passou a fazer parte das pesquisas acadêmicas. Alguns fatores podem ser apontados como causadores desta mudança de paradigma, dentre eles: os movimentos sociais que promovem a igualdade de gênero, a participação cada vez mais significativa da mulher no mercado de trabalho e o aumento das migrações femininas. Sobre o último fator, de acordo com dados da ONU, as mulheres representam 48% das migrações internacionais, deixando evidente, e de maneira inquestionável, o protagonismo feminino na questão dos fluxos migratórios.

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Maha Mamo (foto) e sua irmã, primeiras apátridas reconhecidas pelo Brasil, tiveram sua cidadania reconhecida pelo Estado em outubro de 2018. Luta por direitos. Foto: ACNUR/Gabo Morales

O perfil estereotipado da mulher migrante é outro fator que deve ser considerado quando se fala da feminização das migrações. Antes do reconhecimento do seu protagonismo, ela era representada como frágil, passiva e dependente, economicamente e afetivamente. Se considerarmos as representações sociais como expressões da realidade, podemos aludir que este estereótipo correspondia à autoimagem dessas mulheres.

Se antes era comum que as mulheres da família acompanhassem os homens que migravam para o exterior, hoje é comum que elas possuam projetos migratórios próprios. Este novo perfil é consequência da conquista da emancipação feminina ocorrida nas últimas décadas e de projetos migratórios individuais, como forma de buscar e consolidar esta emancipação. No caso do Brasil, 28% dos refugiados são do sexo feminino. No Rio de Janeiro, o número é expressivamente maior: 48%.

Essa atuação protagonista pode ser compreendida a partir do desempenho do seu papel nos espaços reprodutivo, produtivo e público. Os cuidados com a família, a educação e a formação moral dos filhos – atividades próprias do espaço reprodutivo – historicamente (e socialmente representado), sempre estiveram à cargo da mulher. Diante de uma situação de ameaça, ao participar de forma ativa na decisão de migrar e para onde migrar, continua prevalecendo, de forma geral, a busca pela segurança e bem-estar da família.

No que se refere ao espaço produtivo, a mulher migrante-refugiada, já na sociedade de acolhimento, e vivenciando o processo da integração e vinculação a essa nova sociedade, contribui de maneira significativa com a economia familiar. Em muitos casos, ainda contribuem com a economia do país de origem, por meio de remessas, pois em muitas situações, não há a possibilidade de se trazer todos os membros da família. Contribuem, ainda, com a economia do país de acolhimento, ao ocuparem postos de trabalho ou atuarem como empreendedoras.

É também na vivência do processo de integração e vinculação que se dá a atuação no espaço público. Ao participar de forma ativa no cenário socioeconômico da sociedade de acolhimento, esta mulher reivindica sua condição de cidadã, em todos os seus aspectos.

Nos três espaços: reprodutivo, produtivo e público, emerge sua capacidade de atuar de maneira decisiva, no intuito de garantir melhores condições de vida para si e para todos os membros da família. Como consequência, há a produção de novas e ressignificadas identidades e representações, que produzem e reproduzem, continuamente, novos sentidos.

Esta mulher vive, de maneira concomitante, uma situação de sujeição e subjetivação, onde, dia após dia, negocia e reivindica uma condição que é sua por direito, sua cidadania. Mesmo diante de situações de adversidade e vulnerabilidade, a migração é uma oportunidade de emancipação e protagonismo e, porque não dizer, da concretização de sonhos.

 

Texto originalmente publicado pelo Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo (LACON)

Conceição Souza, doutoranda em comunicação na UERJ, associada ao Diaspotics/UFRJ e LACON/UERJ



Categorias:análises, imigrantes

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