Imigrantes no Youtube: entrevista com Vicky Marquez

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Durante uma hora em transmissão ao vivo pela página do oestrangeiro.org no Facebook, conversamos com Vicky Márquez, venezuelana que reside no Brasil há quase 4 anos e criou um canal no Youtube contando sobre suas experiências no país de imigração. 

Vicky foi uma das 473 pessoas a conseguirem status de refúgio no Brasil entre as 33.866 solicitações de 2017 (menos de 4% das solicitações foram avaliadas no ano), número que cresceu para 58,8 mil em 2019 e vem batendo recorde ano a ano. Recentemente, o portal G1 confirmou com o Comitê Nacional para Refugiados (Conare) que o Brasil tem hoje cerca de 43 mil refugiados regularizados, sendo que 88% deles são venezuelanos.

A entrevistada chegou ao Brasil em outubro de 2016 após receber o visto de turista e só teve seu refúgio regularizado no ano seguinte. O atual deslocamento da população venezuelana é um dos principais do mundo e colocou uma lente de aumento do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) sobre a América do Sul depois da situação do país ter se tornado crítica pelas seriadas crises político-econômicas e graves denúncias contra os direitos humanos.

Como a maior parte dos venezuelanos, a trajetória de Vicky iniciou por Roraima, principal fronteira terrestre entre os países. Durante quase dois anos e meio permaneceu em Boa Vista, capital do estado, até decidir se mudar para o outro extremo do país, em São José dos Pinhais, na região metropolitana de Curitiba, no Paraná. 

Em Boa Vista, Vicky conseguiu sua documentação, matriculou o filho na escola e por 1 ano e 8 meses e trabalhou como babá. Ao pesquisar e sentir que no Paraná haveria mais oportunidades, comprou passagens de avião e desembarcou no aeroporto Afonso Pena no início de 2019. Em fevereiro, ela completou um ano na cidade e está adaptada, exceto pelo frio curitibano que ainda incomoda a antiga moradora da Ilha de Margarita.

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Vicky Marquez/Reprodução Youtube

A youtuber não precisou descrever como foi esta viagem, pois ela fez mais do que isso. Quem acessar seu canal encontrará dois vídeos cheios de descrições detalhadas das três escalas de voo, nostalgia e expectativas sobre a nova vida. (Viaje de Boa Vista a Curitiba e Llegue a Curitiba (Parte 2)). Este recomeço também demarcava a separação de seu pai e irmão, que foram para Belo Horizonte amparados pelo programa de interiorização do Governo Federal, com apoio de instituições humanitárias.

Atuação no universo audiovisual

Seu vídeo de estreia, ainda nos meses iniciais no país, comentava sobre as diferenças das tomadas do Brasil. Vicky afirma que os primeiros vídeos eram voltados para a sua família, pois mesmo estando em um estado brasileiro fronteiriço a realidade era discrepante. Depois, percebeu que seria necessário ampliar seu público: “Com tanta desinformação sobre o Brasil eu quero tentar ajudar as pessoas que estão fugindo da Venezuela”. E continua: “A pessoa chega na fronteira e muda tudo. Chega com uma quantidade de dinheiro que não dá pra comprar [quase nada] e muitas pessoas não sabem disso. Não sabem da documentação, não sabem do tempo para chegar de Pacaraima a Boa Vista, dos aluguéis […] e eu já havia passado por isso”.

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Vicky Marquez/Reprodução Youtube

Sobre os vídeos mais importantes do canal, Vicky destaca as comparações do Brasil com a Venezuela (embora ressalte que a referência de Roraima seja diferente da experiência no Paraná) e outros vídeos nos quais comenta sobre o que pode ser comprado no país com o dinheiro venezuelano, bastante desvalorizado pela alta inflação econômica dos últimos anos. Quanto assuntos a se evitar, ela afirma que se abstém de debates políticos. “Vocês que conhecem sobre sua política”, pondera sem se comprometer.

Coronavírus e preconceito

A crise imposta pelo novo coronavírus também foi lembrada na entrevista. Uma recente pesquisa diagnosticou o prejuízo financeiro que imigrantes venezuelanos têm tido com a pandemia. Campanha de venezuelanos para arrecadações às famílias mais necessitadas são potencializadas pelo trabalho de informação que iniciativas como a de Vicky Marquez propõem realizar. Em alguns dos seus recentes conteúdos, a venezuelana conversa sobre a situação no Brasil e esclarece sobre alguns benefícios oferecidos pelo governo.

Vicky não planeja voltar para a Venezuela, ao menos neste momento. Sobre ficar no Paraná, ela diz que pretende conhecer outros estados, como já fez com Santa Catarina. Já Minas Gerais, onde mora sua família, e João Pessoa (capital da Paraíba), são lugares que ela destaca como preferência. “Eu não estou acostumada com o frio ainda”, brinca. 

Vestindo uma camisa que representa o gênero feminino com os punhos negros cerrados, Vicky manifestou seu apoio aos movimentos contra o racismo e a luta pela igualdade entre homens e mulheres. Quando perguntada se sua condição de mulher ajudou ou atrapalhou seu processo migratório, disse que não, exceto quando em uma entrevista de emprego o “tema se desviou”. 

A solidariedade com grupos minoritários passa a ser uma pauta próxima a indivíduos que se veem minoritários no processo de imigração, sobretudo quando sua cultura/etnia não faz parte do arcabouço hegemônico eurocêntrico.

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Vicky Marquez/Reprodução Youtube

Em relação às críticas ao canal, a youtuber disse haver poucas, exceto quando acampamentos venezuelanos foram destruídos violentamente pela população: “As pessoas vinham e descarregavam, deixavam toda a raiva e descontentamento comigo e eu não sabia. Eu não consegui levar essa situação e me afastei do Youtube. Não queria entrar no Youtube, não queria mais ler comentários e não responder pra ninguém”.

Com quase 10 mil seguidores na plataforma de vídeo, a venezuelana não pretende parar e diz que a forma de fazer seus vídeos tem mudado. Cada vez mais adaptada à plataforma e aos processos de produção, ela ainda acredita que sua vida se mantém igual, mesmo que implique ligar a câmera no meio do supermercado e comentar sobre os produtos brasileiros. Amizades também já foram potencializadas pela exposição midiática, mas nada muito próximo ou pessoal.

Os brasileiros e venezuelanos são os que mais acessam seu canal, afirma. Mas cubanos, argentinos, peruanos também aparecem por lá. Com o crescimento de visualizações, ela diz ser a mesma pessoa do primeiro vídeo e irá tratar a todos com respeito. “Eu sempre fui lutadora, trabalhadora, uma boa mãe e quero ser um exemplo para outras pessoas”, afirma.

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Vicky Marquez/Reprodução Youtube

Além do Youtube, a venezuelana também marca presença no Facebook e no Instagram. Ambos com bem menos seguidores comparados à plataforma de vídeos onde a tônica está no tipo vlog, ou seja, um diário audiovisual. Ela afirma que o Facebook é alimentado com conteúdos mais informativos, enquanto o Instagram pretende ser uma mistura de ambos. Recentemente, Vicky tem feito uma nova migração digital, comum entre os usuários mais antenados das redes digitais. É o TikTok, aplicativo de pequenos vídeos de entretenimento que tem ganhado milhões de adeptos pelo país. Na entrevista, não havíamos comentado com ela sobre esse ingresso, mas em seus stories do Instagram ela publicou vídeos produzidos no app chinês e perguntou: “quem está no TikTok?” A grande maioria negou, mas certamente esse número mudará tendo em vista que o app chegou aos 500 milhões de usuário ativos em 2019.

Por fim, deixou um recado agradecendo às dezenas de imigrantes que acompanhavam a live: “Nessa pandemia que estamos passando agora, é muito importante manter a fé e a esperança. Tem muita coisa acontecendo no mundo todo, mas temos que ficar tranquilos, é algo que vai passar. E a gente sempre fica compartilhando informações para que não haja desinformação. Precisamos chegar aqui e seguir em frente. Sei que é difícil como imigrante adaptar-se à vida e ao idioma, mas temos que tentar”. 

Quer assistir a entrevista toda? Acesse aqui.

 

Otávio Ávila
Pesquisador de doutorado do Diaspotics/UFRJ e editor do estrangeiro.org



Categorias:imigrantes, refugiados, testemunhos

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