Redescoberta

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Praia do Flamengo. Crédito: Gabriela Azevedo de Aguiar

A primeira a chegar foi a preocupação com a sobrevivência – como ser camelô que vive do turismo no calçadão da praia de Copacabana em meio à pandemia? Afinal de contas, somos 3, somos 4, somos muitos. Como fazer para acessar a ajuda do governo brasileiro? Mas eu não entendo muito bem os trâmites brasileiros, como imigrante eu posso ou não ter esse auxílio?

Onde pedir ajuda, já que minha rede de contatos, de apoio, é limitada? Mas sempre tem alguém que me estende a mão, que caminha pelas ruelas da burocracia, que empresta a internet e o celular, já que o meu precisa dar conta de coisas tão diferentes e angustiantes quanto tentar vender minhas peças de roupa pelo Facebook, receber o dever das crianças que a escola insiste em mandar pedindo para que eu imprima (como?!), checar notícias da situação com minha família no Equador – as notícias que chegam parecem muito, muito ruins – ou no Peru ou no Congo.

As crianças sem aula – sim, desde que chegamos as crianças vão para a escola. É um direito delas, como imigrantes e, agora, moradoras dessa terra. Mesmo que eu não conseguisse ter trazido os documentos da escola, eles poderiam ir. Mas não puderam aceitar que meu filho ficasse no ano correto, já que a CRE não quis a ajuda voluntária de um intérprete de quéchua. Então, foi assim, meu menino fez a prova em português e perguntaram por camelos. Ele entende de muitas coisas, mas não muito sobre camelos – na época, menos ainda em português. Então, ficou dois anos abaixo. Ele entendeu o que aconteceu, imagino que tenha sido difícil. Será que mais difícil do que é agora ficar em casa sem ter o que fazer? Quer dizer, o começo da quarentena teve muita televisão e angústia.

Mas aos poucos, a gente foi vendo que não tinha muito jeito. Então, ajeitado está – será assim o ditado por aqui? E as tarefas da escola? Não era muito possível fazê-las, vieram pelo celular, em pdf. Tinha que imprimir, mas isso não era viável. Tinha que arrumar mais cadernos para desenhar, para escrever. Isso também só foi viável com doações. E a família se viu junta, o dia inteiro em contato, cozinhando, fazendo massinha, brincando. Antes isso não era possível por causa da correria de levar para escola, dar comida, ir trabalhar, muitas horas fora de casa. À noite ajudar com o dever – em português. Isso foi muito difícil, muitas vezes seguidas. Durante a quarentena, impossível.

Mas agora todos se aglomeram ao redor da mesa para conversar, comer e brincar. A sobrevivência foi comendo o dinheiro guardado para a viagem que estava sendo ansiosamente planejada… já não mais. Não será mais possível ver a família no ano que vem. Mas aqueles que aqui estão – olho para eles fortalecidos, apesar da falta da escola, das saudades dos amigos, daqueles que estão perto e longe.

E da tristeza de ver os planos de reencontro com a terra natal irem escorrendo pelos dias, foi nascendo algo novo, crescendo um contato com as crianças que riem tranquilas. Conforme a quarentena foi afrouxando, os passeios foram surgindo. Agora percorremos um Rio de Janeiro com olhos de quem passa a conhecer um pouco mais a cidade que chamamos de casa.

 

Essa seria uma conversa possível com uma das mães imigrantes latino-americanas que vivem e trabalham na cidade do Rio de Janeiro. Reconto inspirado nas experiências trazidas em segunda mão pela Dra. Adriana Assumpção, voluntária que promove atividades com as crianças imigrantes e filhas de imigrantes. E recontadas em terceira mão por Gabriela Azevedo de Aguiar.



Categorias:análises, imigrantes, refugiados

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