Até daqui a pouco

Ser responsável por receber e, de alguma maneira, retransmitir o relato de experiências de outra pessoa não é tarefa fácil. Exige atenção à escuta, delicadeza nas perguntas, acolhimento do sofrimento do outro. Quando se trata de uma imigrante venezuelana que passou por experiências traumáticas tanto em seu país, quanto aqui no Brasil, tal tarefa se impõe como uma responsabilidade imensa. 

E é a partir desse convite de escuta que Halimed* vai desnudando seu caminho, angústias e esperanças de seu projeto migratório para o Brasil, país com o qual já tinha vínculos fortes, por viagens anteriores, amigos aqui encontrados e amores hoje distantes. Sua família permanece no longínquo interior da Venezuela, a muitas léguas da fronteira com Pacaraima, lugar pelo qual entrou no Brasil pela última vez. Mas sua história começa há alguns anos, com a urgência sentida de ficar mais perto da mãe, depois de estudar e trabalhar fora da Venezuela.

Não era mais o mesmo país para o qual voltou. Conta que depois de alguns meses instalada próxima à fronteira da Colômbia, encontrou-se em uma cidade cheia de balas, fogo e medo. Estudantes sendo mortos, pessoas evacuando para fugir do local que agora já não tinha mais comércio ou terminal de ônibus funcionando. O pânico só se fez crescente e olhar para trás não parecia mais uma opção. A responsabilidade que carregava pela companheira brasileira em meio ao caos foi combustível para os três dias de viagem em um ônibus superlotado sem banheiro, comida ou água. O celular escondido para não ser roubado ou confiscado pela polícia, junto com três malas de roupas e itens básicos, era tudo o que carregavam. Sem poderem dizer onde estavam, chegaram à Santa Elena de Uairén, fronteira com Pacaraima. 

Por um tempo Santa Elena inspirou segurança, mas logo entenderam que mesmo permanecendo de cabeça abaixada e sem argumentar, a guarda nacional poderia bater na porta, entrar, levar o que ou quem quisesse no meio da noite. Assim, o Brasil se tornou a única alternativa possível. Mas ainda não havia chegado a hora de ter tanto medo por si mesma que voltar ao seu país parecesse algo impossível, então a vida continuava no zigue-zague da fronteira ainda aberta, com a casa no Brasil e o trabalho na Venezuela, sem documentos brasileiros, mas com travessia garantida a pé ou de carro. 

A situação no interior do país foi aos poucos se deteriorando, a família sem comida e remédios. Como pelo correio não se podia enviar nenhum item dessas categorias, somente algo de higiene, um plano foi crescendo dentro de si, numa espécie de compreensão de que alguns caminhos se colocam como inevitáveis, apesar de não desejados. E assim foi o alistamento voluntário no serviço militar como grupo de apoio para a guarda nacional. “Eu me torno uno de ellos, y ellos deben respecto”, pensou compreendendo que poderia pegar um ônibus e percorrer muitos quilômetros com comida e remédios para entregar à família. 

Cleo Robertson. Reprodução/Pixabay

Eles pareciam ter entendido que ela era um deles, mas talvez tivessem sempre desconfiado – só um pouco, mas já era o bastante – de que ela não concordava com tudo que era feito. Não enfrentava, calava. Apesar disso, a violência que presenciou escalava todos os dias – até que não foi mais possível e teve que partir. Levou apenas a boina que havia comprado, o restante do uniforme ficou com a guarda, que deixou também ameaças. E a fronteira fechada atrás de si, de seu país, da sua pátria. Não sou eu a traidora, me disse. São eles, aqueles que deveriam estar protegendo, mas ao invés disso conta que matam, abusam, destroem. Se tento voltar, sou presa ou morta. Por telefone não consigo ver, mas sinto sua dor ao contar. 

Com o aumento do número de venezuelanos entrando, mesmo com as fronteiras fechadas, fez dessa ponte seu trabalho e ajuda. Até que a violência em Pacaraima também a alcançou. Mais uma vez. E, então, fez do abrigo sua casa. Mas é uma casa que não é um lar. Tudo se torna difícil, custoso, barulhento, em suspenso. A bolsa com documentos e o laptop dentro dela vira parte do seu corpo na fila do banho, da comida, envolta pelo travesseiro. A saúde reclama, a esperança se esvai mais um pouco.

Porém, a violência não para aí. E, sim, se voltasse no tempo, ela não teria ficado por lá por tantos anos, teria tentado vir direto para o sudeste. Porém, as coisas não foram assim e num momento de muito sofrimento, surgiu a possibilidade de subir no avião da FAB e voar de lá, para bem longe, para o sudeste do Brasil. De abrigo em abrigo, foi assim, com ajuda do ACNUR, OIM, entre outros. E sua maior decepção foi nunca ter conseguido percorrer os 3 mil quilômetros de ônibus com os remédios e comida para a mãe.

Mas antes, Boa Vista. O processo de interiorização pareceu maravilhoso: promessa de um abrigo melhor, com trabalho garantido, sem se preocupar com papelada. Você se vê com sorriso de orelha a orelha. 

A realidade ao chegar no novo estado, nova cidade, novo abrigo… primeiro um lugar lindo, um abrigo com cara de casa. Contudo, a realidade deu um tapa na cara. Nada do que foi prometido aconteceu. Era gente xingando, chutando porta, gritando, dizendo que ninguém ali era nada, que podia esquecer o diploma. Um nível de humilhação de escandalizar qualquer um, empurrando a ideia de que as mulheres deveriam era mesmo se prostituir, se não arrumassem outro trabalho. Punindo a falta de limpeza de algum lugar com falta de talher para comer. Depois, melhorou um pouco. No entanto, não tinha trabalho garantido, nem dinheiro suficiente para ir atrás de emprego, tampouco a piscina de uma foto que mostraram em Boa Vista. Mais do que isso, os maus tratos psicológicos, a incompreensão de quem passou por fome, frio, desespero. Não à toa, o apelido da casa era Casita dos Horrores

Pintou um mundo bonito à mãe, disse que estava bem, mas bem rapidamente, para não chorar. Apesar de tudo, da perda do contato com a família, do medo pulando no peito por tanto tempo, da falta de dinheiro, ela resiste, olha de frente e sabe que pode reconstruir sua vida aqui, ainda com força para ajudar os outros, aberta a novos amigos. Como me disse, continua de pé. 

*Nome fictício escolhido por ela para preservar sua identidade. 

Gabriela Azevedo de Aguiar
Psicóloga, professora da Faculdade de Psicologia da UNESA e doutoranda do Programa Eicos / UFRJ.



Categorias:imigrantes, refugiados, testemunhos

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