Carta de uma migrante ao seu doutorado

Enquanto membro do grupo Diaspotics me encontro em outro lugar do mundo assim como outros colegas vivendo realidades distantes mas também de algum modo parecidas. Todos nós nos comprometemos em escrever, de maneira rotativa, alguma matéria em torno do tema das migrações. Ainda no meio de uma pandemia chegando novamente a minha vez me deparo como uma certa falta de inspiração. Há tanto pra se dizer e muito pra se olhar tomada pela realidade que vivo, agora em Minneapolis. Há menos de um ano do brutal assassinato do George Floyd outros aconteceram. A cada morte o peso e medidas seguem lógicas distintas. Para alguns elas são perversas e para outras clamam justiça e empatia. Mais uma mãe perdeu seu filho, são tantos seus nomes. No domingo dia 11 de abril foi Daunte Wright

Trago esse relato para falar do efeito que a discriminação e o racismo podem ter na autoimagem e no projeto de sujeito que podemos desejar para nós. Práticas que visam a manter as pessoas no lugar social a elas atribuídas na mesma logica das castas. Quando se ousa sair delas produz-se um estranhamento mortífero para tantos corpos pretos.

Quando criança, aos seis anos, parti de meu país para morar em Roma com minha irmã e minha mãe. Ela solteira e sozinha com duas meninas para criar num país estrangeiro. Nós, duas meninas subtraídas de um presente tortuoso e lançadas nesse porvir incerto. Curiosas e  cheias de sonhos fomo-nos integrando nesse novo território que se tornava um pouco nosso. Tratava-se de uma Itália ainda se reconstruindo após a guerra. Um país que se debatia com a herança deixada pelo regime fascista e que lutava para firmar sua jovem democracia, no qual espaços de debates sobre a diversidade não eram comuns. 

Mesmo circulando em espaços nos quais não faltavam referências de pessoas negras bem sucedidas nas quais pudéssemos nos espelhar para sonhar alto, como a minha mãe, algo naquela sociedade nos convencia do contrário. Aos poucos os sonhos nunca sonhados foram sendo esquecidos e assim como outros migrantes fomos tomados pelas urgências do dia a dia e buscamos aquilo que estava ao alcance. Éramos as únicas crianças negras da escola e tivemos que responder sozinhas, mas assim como tantas como nós as curiosidades doídas de colegas e adultos.

Não sei bem quando mas sei que aprendi a seguir caminhando e o desejo de dar mais passos me fizeram percorrer um caminho longo que a posteriori descubro as belezas. Desconfiada emprestei de outra a confiança que depositava em mim, naquela altura e por muito tempo foi mais fácil acreditar na verdade do outro. Foi assim que me tornei psicóloga e encontrei a psicanálise.

Ainda incrédula pela travessia, olho para o caminho percorrido e percebo après coup lições importantes. Percebo certa resiliência na maneira como fui estudante em diferentes países. Primeiro na Itália, no Brasil e finalmente nos Estados Unidos. Aprendi aos poucos a navegar por territórios desconhecidos quase como uma exploradora de culturas, signos, símbolos e entrelinhas. Encontrei minha voz e minha letra para fazer escrita e me contar de um jeito que nunca largou a poesia e fez na academia certa morada. 

Depois de três anos de trabalho incerto finalmente chegou o dia da defesa do Doutorado. Fui dormir cedo porque para esse dia tinha feito planos. Acordar cedo, me exercitar, meditar, assar meu pão e fazer mais uma repetição do que iria apresentar. Por uma semana me preservei das notícias do mundo ciente que ele continuava girando com todas suas contradições e injustiça. Reconhecia nessa escolha meu privilégio de me preservar e as coisas foram tomando o rumo que elas sempre tomam na vida. Nem tudo sai como planejamos mas o importante é apontar a direção. 

Acordei cedo, porém cansada. Numa ordem nem tanto improvisada mas, de acordo com o tempo, escolhi assar o pão primeiro. Ele não cresceu como de costume, mas estava gostoso. Me preparei lentamente e sem que sobrasse tempo pra me exercitar resolvi dar uma caminhada. Naquele dia ar gelado da manhã com -15 não queimava como de costume. 

Coloquei uma playlist que tocou uma sequência de músicas que falava pra mim, dizia dessa caminhada, dos desafios e do dia que estava prestes a viver cujo sentido só ficou claro quando o sol já se punha. I wonder (Protossov), Seven Nation Army (The Dynamics), Rockets (feat Jonny Tarr), Didn’t I (Darondo), The end (Llorca), Warm my soul (Blundetto), Rolling Stone (Red Astaire), Letter to the Editor, This land is your land (Sharon Jones & The Dap-Kings), Let me go (Erik Truffaz), Mista President (The Souljazz), Whole Lotta Love (The Dynamics)… 3km depois estava eu de volta em casa. 

Uma repetição pela metade, um chá quente, sem tempo para o almoço ainda coube uma meditação. Havia chegado a hora de suportar escutar o que meu trabalho havia suscitado. Fiz a apresentação como planejado, “esqueci de mim”, voltei ao meu roteiro e me apresentei. Falei por 40 minutos. Foram muitas contribuições palavras generosas de quem me leu e viu neste trabalho um alcance para além do que eu esperava. 

A defesa aconteceu de forma remota. Agendei um Zoom call, no qual foi possível juntar ao mesmo tempo pessoas de diferentes lugares do mundo. Na banca estiveram uma professora cabo-verdiana em Lisboa, outro argentino em Barcelona, uma brasileira nos EUA, um marroquino e outras duas docentes no Rio de Janeiro. Meus amigos estavam lá, minha família, meus colegas compareceram numerosos: italianos, sudaneses, somali, cabo-verdianos, brasileiros, americanos, liberiana quiseram testemunhar o momento e dar aquela força. 

Banca de doutorado de Suzana. Registro de tela/Arquivo pessoal.

Nele, escrevi sobre o trabalho de terapeutas que atendem migrantes forçados. Buscava saber como eles navegam entre as diferenças culturais para poder oferecer uma escuta ética. Aquela que responde ao desejo do sujeito e não as exigências institucionais. Descrevi esta clínica transfronteiriça na qual convergem narrativas individuais dos efeitos coletivos que expõe questões éticas, sociais e políticas. Nela, terapeutas carregam uma responsabilidade não negociável perante aquele a quem escutam. Seu atendimento que se dá num território terapêutico à fronteira entre o familiar e o estrangeiro tem como horizonte acolher o outro. Portanto adquire o valor de um ato político na medida em que tenta restabelecer um laço com o outro e a confiança no humano. Laço este que fora rompido em decorrência da violência sofrida. Esta é também minha clínica e a direção que atribuo a minha escuta dentro de um projeto de sociedade que seja efetivamente transformador e inclusivo.

>> A tese completa está disponível em nossa biblioteca.

Nesse dia e na minha caminhada as coisas não saíram como esperava, saíram melhor ainda porque não esperei, segui. O trabalho continua e as urgências não cessam. Sigo mulher, feminista, psicanalista, mãe, migrante e agora doutora em Psicossociologia com a responsabilidade que meu lugar de fala remete. Relembro que chegar até aqui não foi só mérito meu, mas de todes aqueles que antes de mim perderam suas vidas e se sacrificaram, que me exortaram a seguir e acreditaram. Hoje eu devo o mesmo a outres, para que possam resistir e insistir para que saibam que há que sonhar para seguir. Eu acredito.  

Gratidão a Todes que fizeram parte desta jornada.

Suzana Duarte Santos Mallard
Doutora em Psicossociologia de Comunidades e Ecologia Social pela UFRJ e membra do Diaspotics.



Categorias:análises, estudantes, imigrantes, testemunhos

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