“Ser parte de um relacionamento intercultural é uma decisão para valentes”. Assim define a argentina Brenda, 30, que namora o chileno Patrício, 34. Brenda e Patrício se conheceram em agosto de 2018, quando ele, natural de Santiago, estava em viagem de trabalho a Buenos Aires, cidade natal dela. Em um churrasco de amigos em comum, conversaram pela primeira vez, e a partir daí desenvolveram uma relação itinerante que cruzava a Cordilheira dos Andes: às vezes ela ia ao Chile, em outras ele voltava para a Argentina. O relacionamento foi marcado pelos deslocamentos frequentes até dezembro do mesmo ano, quando Brenda decidiu migrar para viver com seu amor estrangeiro.

Na primeira ida de Brenda ao Chile, quando cruzou a Cordilheira dos Andes para encontrar Patrício

Na primeira ida de Brenda ao Chile, quando cruzou a Cordilheira dos Andes para encontrar Patrício. Acervo pessoal

Foi muito bem recebida pela família e amigos do namorado. Engenheira agrônoma e fundadora de uma marca de produtos biocosméticos veganos, morou por 1 mês e meio em Santiago, até conseguir emprego em La Serena, que fica a 470 quilômetros da capital. Por ironia do destino, dentro do Chile voltava a estar condenada ao relacionamento a distância. A adaptação a uma nova realidade também não foi fácil: “No Chile as jornadas laborais são muito longas, a verdade é que estava todo o tempo trabalhando e não tinha muito espaço para minhas atividades sociais”.

Após 6 meses vivendo sozinha na cidade costeira, Patrício, engenheiro de construção, conseguiu um trabalho em La Serena. O casal voltou a estar junto. Eles ficaram lá até março de 2020, quando com o início da pandemia decidiram ir para Buenos Aires. Diferente de outros casais interculturais, que viveram o drama da separação forçada sem previsão de término, eles puderam estar próximos durante a pandemia, o que consolidou a relação dos dois.  

Com a reabertura das fronteiras, optaram por retornar ao Chile. Brenda, que viveu no país por mais de um ano, aterrissaria no aeroporto Arturo Benitez como turista. Seu visto de residência venceu ao longo da pandemia, e ela não conseguiu renová-lo. “Os escritórios oficiais estavam fechados e era muito difícil realizar o processo de renovação de visto de forma virtual, já que os sites do governo constantemente estavam fora do ar”. 

O Estado chileno determinou que a partir de abril todos os passageiros, ao chegarem ao país, deveriam fazer quarentena em um hotel sanitário. Cidadãos chilenos e estrangeiros residentes não pagariam a hospedagem, mas estrangeiros não residentes deveriam desembolsar pelos 5 dias de hotel 234 mil pesos chilenos, cerca de R$ 1.700 na cotação atual. 

O processo de designação dos hotéis para os estrangeiros foi muito confuso. Enquanto para os chilenos essa definição ocorria de forma rápida e automática, para os não residentes era algo extremamente cansativo. Brenda fez o pagamento da hospedagem com o representante do Ministério da Saúde, passou pela polícia de migração e foi colocada numa sala junto aos demais viajantes forasteiros. Em um ambiente pequeno, cerca de 20 pessoas ficaram 6 horas aglomeradas esperando a definição dos hotéis e a chegada da van que os levaria aos seus destinos. Não havia comida e bebida disponíveis, nem local onde fosse possível comprar algo. Para piorar, Patrício foi designado para um hotel diferente. A argentina teria que cumprir os 5 dias de quarentena sozinha.

Chegando ao hotel, para sua surpresa foi informada pelo recepcionista de que o local não estava recebendo viajantes que deveriam cumprir quarentena e que o Ministério da Saúde não havia entrado em contato para efetuar a reserva. “Depois de todo o cansaço da viagem e da espera no aeroporto, eu não podia acreditar no que estava acontecendo. Não sabia o que fazer”. A única alternativa oferecida foi um quarto, que deveria ser pago. Mas ela não tinha dinheiro para custear uma segunda hospedagem. Não conseguiu se comunicar com os órgãos oficiais chilenos, mas falou com a mãe do Patrício. Já passava das 21 horas, vigorava o toque de recolher decretado pelo governo desde o início da pandemia, e Brenda deveria dar um jeito de ir para a casa dos sogros. “No hotel a única coisa que queriam era que eu fosse embora. De repente me encontrei sozinha na rua, com a mala e minhas coisas, totalmente exposta”.

O casal em La Serena, Chile, onde pela primeira vez tiveram uma casa só para eles. Acervo pessoal

Viu um carro estacionado na entrada do hotel. Abordou o motorista para explicar a situação, era um Uber. Pagou a corrida de cerca de 20 km até a residência da família do namorado, o novo destino de quarentena. Assim que chegou, ligou para a polícia. Depois de dois dias, apareceu um carabinero na casa para levá-la para um hotel a fim de completar o período de isolamento. O valor desembolsado por Brenda na chegada à Santiago está sendo devolvido paulatinamente.

Com o agravamento da pandemia e a suspensão dos voos entre o Chile e a Argentina, Brenda segue em Santiago com o Patrício. Espera a reabertura das fronteiras para poder ver a família em Buenos Aires. Os planos do casal para o pós-pandemia ainda são incertos: eles aguardam o fim da epidemia para viajar pelo mundo e definir um novo local para morar. A única certeza é que não pretendem viver no Chile, nem na Argentina. “O Chile foi uma linda experiência, fui muito bem recebida, mas é outra vida, outra coisa em relação à Argentina”. Brenda vê um futuro diferente do hoje e do ontem. Deseja algo novo.

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Sidney Dupeyrat de Santana
Jornalista, mestrando no EICOS/UFRJ e membro do Diaspotics.