Deportações, prisões de coiotes e imigrantes atravessando a fronteira escondidos em porta-malas ou barcos. Cenas comuns nos limites dos Estados Unidos estão sendo registradas em um dos principais pontos de fronteira do Brasil, na região Sul.
Uruguaiana, cidade gaúcha grudada no Uruguai e separada por um rio da Argentina, vive uma onda de imigração ilegal.
Nos últimos meses, a Polícia Federal prendeu na região suspeitos de manter um esquema de recepção, acomodação e compra de passagens voltado a estrangeiros sem documentos para permanecer no país.
Senegaleses, nigerianos, chineses e haitianos já foram encontrados ilegalmente neste ano na cidade. A PF também vem barrando estrangeiros que tentam entrar de maneira legal, mas sem “condições mínimas para a sobrevivência” no país.
Com 125 mil habitantes, a cidade gaúcha, a 650 km de Buenos Aires, é o principal entroncamento rodoviário entre os dois países.
Uma hipótese é que a localidade sirva como entreposto entre a capital argentina e centros brasileiros, como São Paulo.
Esse caminho, no entanto, não é usado só para chegar ao Brasil. Segundo a PF, há casos de imigrantes “sacoleiros”, sem documentação, que viajam entre as duas cidades.
Também há suspeitas de que os estrangeiros venham ao país para se juntar a grupos criminosos.
Barcos e táxis
A travessia para o Brasil em pequenos barcos ocorre em áreas de menor fiscalização. Taxistas também já foram usados para esconder clandestinos em veículos.
Em junho, um brasileiro e um argentino foram presos cruzando o rio de barco e levando um africano sem documentação. Segundo a investigação, cobra-se pela travessia a partir de US$ 100.
O caso mais misterioso ocorreu há duas semanas. Dois chineses foram presos em flagrante na cidade levando 12 conterrâneos sem documentação para ficar no Brasil. A maioria era jovem.
O destino e a motivação deles ainda são desconhecidos. Um dos líderes tinha residência fixa em São Paulo, segundo os policiais. O outro levava dez espelhos de carteiras de habilitação, de acordo com a PF. Os chineses guiados disseram ser turistas.
Na mesma semana, mais quatro suspeitos de serem coiotes -três brasileiros e um argentino- foram detidos na cidade. Os nomes deles não foram divulgados.
Imagem atual
O crime de introduzir ou ocultar estrangeiro clandestino tem pena prevista de até três anos de prisão.
Para a Polícia Federal, o fenômeno pode ter relação com a imagem atual do Brasil no exterior. “O movimento migratório tem muito a ver com economia, demandas de mão de obra e oportunidades de trabalho. Imigrantes podem achar que terão oportunidades aqui”, diz a delegada Paula Dora, uma das responsáveis pelas investigações.
Brechas no posto de controle
Moradores da fronteira dizem que é comum encontrar asiáticos e africanos, tanto no lado brasileiro quanto no argentino.
Imigrantes de outros países sul-americanos também costumam tentar entrar via Uruguaiana.
Neste ano, uma família de colombianos foi barrada por não ter meios de se manter no Brasil.
“Já teve dia em que chegaram uns 15 africanos em um só ônibus”, conta o taxista Ramon Sosa, de Paso de Los Libres, cidade do lado argentino.
Em março, foi preso um brasileiro que abrigava oito senegaleses em casa, dois deles clandestinos.
Só em Uruguaiana, são 90 km de rio separando os dois países. Nas duas margens, quase todo morador possui um pequeno barco.
No controle migratório, há brechas –o trâmite não costuma ser feito, por exemplo, quando o veículo tem placas de Uruguaiana.
Albergues
A secretária de Assistência Social da cidade, Elisabeth Felice, diz que há imigrantes clandestinos que têm algum recurso e contratam ajuda ilegal e outros que chegam em situação de pobreza extrema.
Eles acabam recorrendo a um albergue público do município.
Se estão no país sem autorização, policiais costumam ser avisados, e os clandestinos correm risco de deportação.
“Eles sempre dizem que foram assaltados e perderam os documentos”, diz. Felice afirma que a situação já aconteceu com bolivianos e peruanos recentemente.
A Folha procurou representantes da polícia argentina na fronteira para comentar o assunto, mas os policiais afirmaram que não tinham autorização para entrevistas e que só o Judiciário local poderia falar sobre o caso, mas ninguém foi localizado.
Números
Migrantes notificados para deixar o país por falta de documentação ou barrados na fronteira de Uruguaiana em 2012:
Colombianos: 14
Senegaleses: 07
Equatorianos: 05
Haitianos: 04
Aregntinos: 02
Nigeriano: 01
Sul-africanos: 01
Chinês: 01
Peruano: 01
Australiano: 01
Mexicano: 01
Felipe Bächtold
(Folha de SP – 30/07/2012)
