O estado do Rio de Janeiro é o segundo maior destino de imigrantes estrangeiros no Brasil, de acordo com números do Ministério da Justiça. Somente nos últimos três anos, chegaram 34.284
O som do sanjuanito (música típica do Equador) e os trajes indígenas são uma boa mostra da cultura equatoriana para quem visita pontos turísticos do Centro do Rio. A quadras dali, o libanês Alam Kamal Kaloun negocia com a freguesia as roupas de sua confecção, enquanto, na outra esquina, a chinesa Mimi prepara pastel e caldo de cana. Segundo o Ministério da Justiça, o Rio é o segundo maior destino de imigrantes estrangeiros no Brasil, ficando atrás apenas de São Paulo.
São 314.224 “cauriocas” (como eles se identificam), que vieram de várias partes do mundo para fincar raízes no Rio. Destes, 34.284 chegaram nos últimos três anos. O cálculo leva em conta apenas os estrangeiros em situação regular.
— Todos os que vivem aqui são imigrantes ou descendentes de imigrantes — garante Kamal, cuja família chegou ao Brasil em 1890. — Eles pensavam que aqui era a América. Quando descobriram que não era, já estavam em Nilópolis. Então começaram a mascatear, comprando produtos no Centro para revender de porta em porta. Daí a fama de que somos bons negociantes.
Hoje, o perfil de imigrantes está mudando. Até os anos 60, os estrangeiros chegavam para trabalhar em atividades mais simples, seguindo os passos de seus patrícios. Agora, muitos são mão de obra qualificada. Kamal, que nasceu em Trípoli e veio para o Brasil na infância, seguindo a família, hoje é dono de uma loja de confecções na Saara, que já tem 50 anos.
— Aqui havia uma colônia maravilhosa. Muitos libaneses moravam em cima de suas lojas e, nos fins de semana, havia muito movimento.
Cerca de 70% das lojas ainda pertencem a descendentes árabes. No entanto, uma outra nação — a China — está conquistando o local. Das 1.200 lojas, 108 são de chineses.
— Chinês faz pastel porque é muito “bulo”, né? Não sabe fazer mais nada — brinca a chinesa Mimi Maria, para depois explicar que muitos, como ela, são oriundos de canaviais.
Falando português com dificuldade, ela conta que trabalha duro o dia inteiro e, nos fins de semana, cuida da casa.
— Praia? Não conheço — diz Mimi. — Domingo, lavo roupa.
Já os equatorianos Yan Campo, Zuli Nayarid e Samay Brices conhecem bem a praia e outros cartões-postais da cidade. Quando chegaram ao Rio, em 2009, mal se conheciam, mas aqui se uniram e formaram uma banda:
— Nós nos juntamos para tocar sanjuanito e fazer artesanato, que vendemos para complementar a renda. Esta semana, vamos fazer um show em Minas — contou Yan.
Entre as influências culturais trazidas pelos imigrantes, está a técnica japonesa de produção agrícola.
— Chegamos ao Brasil antes da Segunda Guerra. Na época, havia dificuldade de emprego no Japão, e o governo brasileiro precisava de gente para trabalhar em plantações. Nós temos vocação para a agricultura — explica Jorge Masao Uesu, filho de imigrantes e fundador do Esporte Clube Agrícola de Papucaia, entidade que tem como finalidade preservar as raízes nipônicas e transmitir tecnologias agrícolas.
Segundo ele, a maioria dos imigrantes veio para trabalhar em São Paulo.
— Depois de um tempo trabalhando lá, meu pai foi chamado por um primo para morar no Rio. Aqui em Papucaia (distrito de Cachoeiras de Macacu, na Serra), eles perceberam que o lugar era ideal para a produção de goiabas, e resolveram introduzir a técnica que usamos para o plantio do pêssego.
A fazenda modelo de Uesu tem sido laboratório para universidades.
Elenilce Bottari
(Globo – 05/08/2012)
