Javier Enrique Godoy Carceres é um paraguaio plenamente adaptado à vida no Brasil, casado e pai de quatro filhos – todos brasileiros. Apesar da estabilidade financeira e emocional de hoje, sua imigração não foi um mar de rosas. Javier precisou lidar com as dificuldades ao desvendar um novo idioma e legalizar sua situação no novo país.

Javier saiu de Coronel Oviedo – 132km da capital, “Asunción” – para trabalhar em uma empresa do interior de São Paulo, em Bauru, no ramo de montagem elétrica e automação. Esse novo trabalho exigia que estivesse viajando constantemente para outros estados e, inclusive, para a Bolívia, onde permaneceu por seis meses.

Sua mudança para o Mato Grosso, onde reside atualmente, se deu em 1995, quando a empresa na qual trabalhava em Bauru – CIMEL – teve seus serviços terceirizados pela Usinas Itamarati, indústria do setor sucroenergético do interior do Mato Grosso. Mais tarde, em 1998, Javier foi convidado para ser contratado pela própria Itamarati, onde está há 14 anos.

Vindo de um país menor, Javier viu no Brasil um país próspero e com maiores oportunidades que o Paraguai, tendo, portanto, profunda admiração pelo povo brasileiro, que acredita ser feito de trabalhadores e vitoriosos. Apesar disso, Javier observou que, com uma população muito grande, ainda falta espaço para que todos consigam crescer profissionalmente.

Uma significativa distinção entre o Brasil e o Paraguai, segundo Javier, é que a menor quantidade de pessoas no Paraguai resulta em maior oportunidade de crescimento à maioria. Além disso, a pobreza nos campos é minimizada pelo fato de que pode-se cultivar o próprio alimento mais facilmente e evitar a fome através de um sistema de subsistência.

A língua portuguesa representou um obstáculo para a adaptação de Javier ao Brasil, pois mesmo sendo semelhante ao espanhol, apresenta um vocabulário extenso e com palavras necessárias ao dia-a-dia muito diferentes daquelas do seu idioma de origem. O sabonete daqui lá é “jabón” e a escova de dentes que compramos no Brasil, no Paraguai se chama “cepillo”. Javier teve muita ajuda dos brasileiros, que lhe auxiliaram no aprendizado da nova língua, não o envolveram em nenhuma situação preconceituosa e o receberam sempre com generosidade.

Foi no Brasil, também, que Javier constituiu família, com quatro filhos frutos de dois casamentos – dois do primeiro e dois do atual – e reuniu um novo círculo de amigos e inéditas experiências de vida, em um território inteiramente novo. Seus parentes permanecem no Paraguai, para onde Javier vai com a família nas férias. Seus filhos estão acostumados com o espanhol, mas o Guarani – outra língua paraguaia – ainda é mais incomum para eles.

A cultura do seu país de origem não abandonou Javier. Datas especiais, como o Dia das Mães e Dia dos Pais, são comemoradas por ele segundo o calendário paraguaio e não o brasileiro. Porém, a saudade bate ao falar da culinária típica de seu país: a sopa paraguaia, chipa, bori bori, caldo de carne, chipa guazú e tantas outras delícias que sua mãe prepara e não estão presentes no cardápio brasileiro.

Javier quase não é mais reconhecido como estrangeiro e, segundo ele, recebe vários elogios refentes à sua fluência com o português, praticamente não apresentando sotaque. Sente-se, portanto, muitíssimo bem tratado, querido e pretende continuar no Brasil, orgulhoso de tudo que construiu desde que aqui chegou. Seu orgulho pelo Paraguai jamais será deixado de lado, mesmo que não volte a morar lá.

Gabriela Xavier