Trabalho imigrante (4): mão de obra qualificada.

Na quarta e última reportagem desta série, o repórter Eduardo Tramarim apresenta o outro lado da nova imigração. Mão de obra qualificada tem sido atraída ao Brasil pela crise lá fora e pelo crescimento econômico que o país apresentou nos últimos anos.

Estatísticas do governo indicam que os setores da economia brasileira que precisam de mão de obra qualificada utilizam cada vez mais o trabalho de estrangeiros.

Executivos, trabalhadores do setor petroquímico e profissionais técnicos estão entre esses estrangeiros que vêm ganhar a vida no Brasil. Era uma vez aquele tempo em que uma geração de brasileiros ia buscar oportunidades no exterior e colaborar com o crescimento de outros países.

Agora, a ideia que circula o mundo é a de que o Brasil se transformou em terra de oportunidades e assim tem despertado o interesse de estrangeiros que desejam buscar a sorte no mercado de trabalho brasileiro. Neste momento, o mercado de trabalho do Brasil acolhe profissionais qualificados em vários setores da economia, diz o promotor Cássio Casagrande, do Ministério Público do Rio de Janeiro.

“Há falta de empregados qualificados para algumas funções em razão, inclusive, do crescimento acelerado que o país teve. O quadro da educação não permitiu acompanhar essa evolução.”

O país recebeu 66 mil técnicos especializados estrangeiros para trabalhar no Brasil em 2011. Esse interesse de estrangeiros em disputar vagas de trabalho no país faz com que sites de empresas brasileiras contratantes de mão de obra no exterior recebam uma enxurrada de currículos. Nos últimos três anos, a empresa GNext vem sendo um exemplo dessa forte procura, como explica a diretora Denise Barreto.

“Num primeiro momento, aqueles que mais nos procuravam eram portugueses. Quando a crise começou a apertar na Europa, uma das nacionalidades que mais aumentou (a procura) foi a espanhola.”

Esses profissionais são recrutados pela empresa entre as principais universidades mundiais como a de Harvard. Aqui no Brasil, eles prestam consultoria nas áreas de estratégia e planejamento financeiro. O salário pago a esses profissionais varia de R$ 250 mil a R$ 500 mil por ano. Segundo a diretora Denise Barreto, o desejo desses profissionais é permanecer no Brasil.

“Eles vêm com objetivo de fixar residência. Trazem família, toda uma estrutura para permanecer um bom tempo. Nenhum deles vem com objetivo de voltar. Como é um movimento muito novo, é difícil dizer quanto tempo eles ficam. Por enquanto, eles estão todos aqui.”

O promotor Cassio Casagrande diz que a legislação trabalhista brasileira protege esses trabalhadores estrangeiros.

“A própria Constituição estabelece uma igualdade de direitos entre os brasileiros e aqueles estrangeiros que vivem legalmente no país. Portanto, um estrangeiro documentado vai ter a proteção que todo o trabalhador brasileiro tem, inclusive direito previdenciário e fundo de garantia.”

Também a área esportiva contrata profissionais de alto nível de conhecimento para aprimorar o desenvolvimento técnico de atletas brasileiros. Klayler Mourthe, supervisor de relações olímpicas da Confederação Brasileira de Ginástica, diz que é preciso aprimorar a formação técnica dos atletas.

“Falta o conhecimento final de lapidação para construção permanente de campeões olímpicos e em nível internacional. Essa contribuição dos treinadores estrangeiros é fundamental para o aprimoramento e sedimentação em relação à ginástica de alto rendimento no Brasil.”

Em sua estadia no Brasil, os técnicos recebem benefícios como moradia e plano de saúde. Mas o salário, ao contrário do que pode se imaginar, difere muito do que é pago a profissionais de esportes de massa, como o futebol. Ele varia entre R$ 4 mil e R$ 15 mil. É um salário competitivo em nível mundial, diz Klayler. Segundo ele, o maior interesse desses treinadores é em relação ao trabalho que possam desempenhar.

“Teoricamente, essas pessoas dos esportes amadores não estão interessadas apenas em dinheiro. Mas sim do que eles podem fazer. Levar a seleção a uma final. Formar medalhistas em um país que não tem essa tradição. Existe o orgulho e a satisfação de mostrar seu conhecimento para o mundo.”

Os técnicos estrangeiros passam por uma avaliação de rendimento logo após o desempenho dos atletas brasileiros nos Jogos Olímpicos de Londres. A expectativa é de que o trabalho continue até os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

Nos Jogos de Londres, a equipe feminina teve o maior fracasso desde os Jogos de Atlanta em 96. Por outro lado, a equipe masculina de ginástica artística superou todas as expectativas com a medalha de ouro obtida pelo ginasta Arthur Zanetti no exercício com argolas.

Apesar do interesse do Brasil pelo trabalho de técnicos qualificados, há também outra vertente de estrangeiros que são empreendedores. Muitos deles jovens, sentem-se atraídos pelo país e aqui vem trabalhar em pequenos “bicos” no setorde bares, hotel e lazer. Como o salário pago nessas atividades no país é bem inferior ao pago no exterior, alguns deles acabam investindo na montagem de pequenos negócios.

Esses trabalhadores nem sempre ocupam vagas ou empreendem nas regiões Sul e Sudeste como na maior parte das imigrações do passado, diz o professor especialista em demografia pela UFMG, Duval Magalhães.

“Tem muitos europeus que vêm ao Brasil como pequenos investidores. Estão no Nordeste, estão na abertura de pequenos restaurantes e pousadas.”

Nem todos dão sorte. Há casos de tragédia, como a do bancário italiano Tomasso Lotto, de 26 anos, que pretendia viver e montar um negócio no Brasil. No dia seguinte a sua chegada ao país, foi morto por assaltantes na Zona Sul de São Paulo. Mas existem as histórias de quem deu certo, de estrangeiros empreendedores que chegaram ao país em busca de uma oportunidade e hoje já estão expandindo seus negócios.

Uma dessas estórias é do vietnamita Thai Quanghian. Sua história é daquelas épicas e exemplares, de quem entrou quase clandestino e hoje é um pequeno empresário de sucesso. Ele fugiu do então sistema comunista do Vietnã e foi resgatado em águas brasileiras por um navio da Petrobras em 1978.

Entrou no país como refugiado e morou na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, e depois nas ruas do centro de São Paulo. Aprendeu a falar português por meio de um dicionário bilíngue português-vietnamita que adquiriu num sebo.Thai fala com orgulho de sua trajetória de vida.

“Morei junto com mendigos na rua. Durante o dia, procurava emprego e estudo. Um ano depois, consegui emprego no banco. Em 1980, comecei meu trabalho com registro e tudo.”

Casou com brasileira e se naturalizou. Fez cursinho de graça, prestou vestibular em 1983 e se tornou aluno da Universidade de São Paulo. Por essa época, começou a fazer bolsas com uma amiga numa empresa de fundo de quintal. Em 2003, fez uma viagem de volta ao mundo. Voltou ao Vietnã, agora capitalista. Lá descobriu um produto diferenciado que passou a produzir e comercializar no Brasil.

“O vietnamita não tem bota. Usa a própria sandália para a luta dentro do mato. Achei genial e trouxe para cá.”

A produção de sandálias feitas de material reciclado, a partir de câmara de pneu usado, prosperou. Hoje Thai dirige uma pequena empresa em São Paulo comandando 16 funcionários. Mas ele é uma exceção.

Dos 66 mil estrangeiros que vieram ao Brasil trabalhar em 2011, o Ministério do Trabalho estima que apenas 2.500 acabem solicitando o visto de permanência no país após quatro anos. Mesmo que não fiquem por aqui, essa presença temporária de profissionais qualificados no país é importante porque eles agregam experiência, diz Paulo Sergio de Almeida, presidente do Conselho Nacional de Imigração.

“São pessoas que geralmente trazem novos conhecimentos.”

Conhecimentos profissionais que os brasileiros precisam aprender no convívio com o imigrante, para depois aplicar esses conhecimentos no cotidiano de seu trabalho.

Eduardo Tramarim

(Rádio Câmara – 28/08/2012)