Às 5 horas de uma tarde de sexta-feira, após alguns lances de escada, o peruano Sergio Valdeos abre a porta de seu aconchegante apartamento em Laranjeiras. Vestido com uma calça jeans e uma blusa longa vermelha, ele estende o braço em um gesto gentil para entrar em sua casa e me direciona para o ambiente em que a gente ia conversar.
Ainda na sala, ele me apresenta a um rapazinho com sorriso encantador, brincando de cozinhar. É seu filho, Martín, fruto de sua união com sua esposa brasileira. O menino será o autor do fundo musical – com as suas brincadeiras pela casa – de toda a nossa conversa.
Sérgio me conduz, então, para um ambiente repleto de livros, violões e computadores. Um minuto foi suficiente para ele desligar os monitores dos computadores, que estampavam em suas telas partituras musicais, e começarmos a conversa. Ele estava trabalhando antes de chegarmos. A música ocupa um lugar de destaque em sua vida.
Sergio Valdeos é peruano, nascido em Lima em 1969, de sorriso tímido no rosto. Com gestos delicados me guia para o seu mundo de viagens, música, amor e sucesso. Desde dos 17 anos, ele já se dizia músico. Confessa, que em determinado momento de sua vida resolveu parar com a música para tentar fazer “alguma coisa séria”. Mas a música falou mais alto.
Correu atrás de uma faculdade nesta área. Argentina, Brasil e Estados Unidos eram os lugares possíveis. Naquela época no Peru, não havia graduação em música em nenhuma faculdade do país. Hoje faculdades, como a Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Peru, oferecem formação profissional nesta área. O desejo por um ambiente na América Latina o fez excluir os Estados Unidos de suas pretensões. Entre Argentina e Brasil, Sergio optou pelo Brasil. Tinha uma amiga que poderia recebê-lo em sua casa.
Aos 22 anos ele desembarcou em território brasileiro. O Rio de Janeiro foi a cidade escolhida, por ser a primeira que vinha em sua mente ao falar em Brasil. Antes de vir para a cidade ele fez um curso de língua portuguesa em Lima oferecido por uma Instituição vinculada à embaixada brasileira no Peru. No curso ele também aprendeu um pouco da cultura brasileira. “Eu já adorava a música brasileira, de repente comecei a conhecer as letras (de música), conhecer o jeito dos brasileiros pelas letras (de música) e comecei a amar a música, a cultura brasileira”.
Sérgio estudou música na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e completou a faculdade no “tempo certinho”, em quatro anos. Ele vê o Brasil como uma grande potência musical. “Tem muito músico bom aqui!”. O jeito informal dos cariocas chamou bastante sua atenção. Ao chegar à sala de aula e ver um aluno vestindo short e usando chinelo e com os pés em cima de mesa ou de cadeira, foi tomado por uma doce estranheza.
Ele vê está informalidade carioca como um algo que deixa as pessoas muito mais à vontade. “Então foi muito mais fácil para eu ficar adaptado”. O famoso “eu te ligo, vamos marcar de sair!” carioca também foi um dos aspectos desta informalidade, lembrado por Sérgio a risadas. “Você fica amiguíssimo de alguém em um bar, pega telefone, marcar de sair no final de semana, a pessoa diz: eu vou te ligar com certeza! E não acontece nada. Impressionante!”.
Esse peruano de jeitinho carioca não teve muitos problemas para se adaptar à cidade. A língua, os hábitos e os costumes não foram empecilhos para ele se ajustar a típica vida dos moradores da cidade. “Era um garoto de praia”, diz ele em tom de brincadeira.
No entanto, ele lembra que o dinheiro foi um problema em alguns momentos, pois não queria ficar pedindo para os seus pais, queria ser independente. Tratou, então, de arrumar pequenos bicos. Neste momento, ele tocou em vários lugares: “em hotéis, na hora do chá, em bares… por todos os lados”.
Ele ficou por aqui por mais alguns anos. Fora os estudos e trabalho, ainda formou um quarteto de violões chamado Quarteto Maogani, que tocava diversos ritmos de música, como a salsa, por exemplo. Mas não era o que queria fazer neste momento. Ele queria mais. E em 1999 voltou ao Peru.
A vontade de tocar música peruana foi o motivo que o levou a retornar ao seu país. Em sua opinião, a cidade carioca é pouco aberta para novos tipos de música. E o sucesso veio ao seu encontro. Sergio conheceu uma cantora peruana, que viajava o mundo todo em turnê, e começou a trabalhar junto com ela. Ele vivia a metade do ano dentro de um avião, viajando pelo o mundo todo.
Em uma dessas viagens ele conheceu a sua esposa brasileira, Graziella, que ele chama carinhosamente por Grazi. A cidade de encontro foi Lisboa, capital de Portugal. Ele estava em turnê e ela estava realizando uma pesquisa. Eles tinham um grande amigo em comum, que anos antes também tinha integrado o Quarteto Maogani. Após uma viagem, o amigo viu um cartaz na saída do aeroporto informando sobre um show em que Sergio participaria. Ele foi à sua apresentação e o convidou para uma visita a sua casa, onde Graziella estava hospedada.
Sérgio foi até a casa de seu amigo e a conheceu. Saíram, conversaram, trocaram emails e marcaram de se encontrar. Por causa das suas viagens inesperadas – um telefonema podia tocar a qualquer momento informando-o sobre uma viagem a trabalho – as promessas de um encontro eram marcadas ao estilo carioca, ou seja, quase nunca aconteciam. “Eu dizia que ia para o Rio encontrar com ela, mas acabava que não ia, até que eu vim e começamos a namorar”.
Em 2008, um ano após o início do namoro, Sergio se mudou de vez para o Brasil. A escolha pela cidade na qual morar foi fácil, em sua opinião. Graziela já morava no Rio, tinha sua rede de contatos laborais por aqui, plano de saúde e uma casa mobiliada. Sem contar, que ele tinha gostado bastante da sua experiência anterior por aqui.
A incerteza foi um fator que causou certo receio no início. Ele tinha uma vida profissional bastante apreciável no Peru. Realizava um trabalho com música tradicional peruana e estava escrevendo um livro. Vir para uma cidade em que ele percebia certa ausência de abertura para novos tipos de música o deixou um pouco apreensivo. “(o Rio de Janeiro) não tem uma tendência a ser uma cidade cosmopolita, é muito fechado para o samba, para o choro, para o funk. Talvez nisso São Paulo seja um pouco mais aberto. É uma cidade maior também”, afirma em um tom hesitante. Agora ele teria que “inventar trabalho”. Não ia ter mais aquela vida de acordar e escolher o que não fazer, pois não teria tempo.
Neste momento ele teve que fazer a sua escolha. Ponderar o que seria melhor. E fala sobre a sua decisão com um grande sorriso no rosto. Afinal, fora todos os motivos que o trariam para o Brasil, ainda havia um muito especial. Sérgio seria pai. Ele teve muitos amigos que, devido às inúmeras viagens e compromissos, só conheceram seus filhos um ou dois meses após seu nascimento. Sérgio não queria isso para ele. Dessa vez não foi a música que falou mais alto. Mas o amor. A sua família.
Já no Brasil, Sérgio criou um grupo de música e vive escrevendo sobre este assunto. A internet é uma grande aliada nesse momento. “É muito mais fácil! Eu gravo aqui em casa. O pessoal me manda: olha, isso aqui dá para você gravar? Tem tudo aqui em casa. Microfone, aparelhos… tudo. Eu espero a noite, gravo e mando.” Os contatos adquiridos ao longo de sua vida também o ajudam bastante. Tudo isso o auxilia a não fazer uma carreira tão fechada no Rio de Janeiro. Ele ressalta que são poucas as pessoas que trabalham com música peruana. Para não restringir a sua carreira, abriu seu leque às músicas latinoamericanas. No Rio ele também toca choro.
Para Sergio, a língua é um elemento bastante importante no processo de adaptação em uma nova cidade. É por meio dela que podemos nos aproximar da cultura deste lugar. “O idioma é uma coisa muito forte. Quando você tem um idioma muito forte, a cultura vem junto.”
Em seu caso, o idioma nacional – a língua portuguesa – foi completamente internalizado. “Isso é uma das dificuldades em falar espanhol com o Martín, por exemplo. Para eu falar o português já é muito natural. Na faculdade só tinha brasileiros, o meu circulo de amigos era de brasileiros, não tinha nenhum peruano ou latino americano. Apenas um panamenho. Em geral, sempre falei português. A minha relação com a Grazi foi em português.”
A naturalização do idioma pelo peruano o ajudou a ter uma relação de extrema proximidade com os hábitos e costumes da cidade. E ainda despertou nele um sentimento de completa adaptação e identificação com a cultura e o “jeito de ser carioca”. Sergio gosta de ir à praia, do calor da cidade, de jogar conversa fora com uma cerveja gelada do lado e enche a boca para falar de como o “Rio de Janeiro é uma cidade linda!”. Fazer um jantar sexta-feira em sua casa para reunir os amigos também é uma preferência sua com grandes traços cariocas. No entanto, há um detalhe muito especial nessa reunião: o prato principal é sempre o ceviche, uma comida tradicional peruana.
Iamê Barata
