Quem passa por Tanguá, uma cidade pequena localizada há cerca de 40 minutos da capital fluminense, não imagina a quantidade de médicos estrangeiros que ali trabalham. Entre eles tem o Dr. Eddy Rojas, um simpático ginecologista de quarenta e poucos anos, só entrega sua nacionalidade em certos fonemas.
Nascido na cidade de Cochabamba, diz que sempre se sentiu ligado ao Brasil “tinha impressões maravilhosas, um lugar maravilhoso”. Muitos familiares já moravam no Brasil, vieram para estudar e se especializar em suas respectivas profissões. Com ele não foi diferente.
Ainda quando morava na Bolívia estudava medicina, ao ser indagado “Por que Medicina”, Eddy logo responde: “A medicina é como um sacerdócio, não existe uma profissão igual a esta. Ela envolve o bem-estar do próximo, quem está ai do outro lado da mesa, é dar atenção, carinho… o doente é carente. A medicina é uma condição”.
Lembra que existem médicos que são “canalhas” e pouco se importam com o paciente. Ao chegar ao Brasil, não conseguiu se matricular no curso de pós- graduação porque a UFF não reconhecia o curso de graduação em que se formou na Bolívia. Então teve que refazer a faculdade de medicina, conta que os brasileiros tem o costume de vangloriar as famílias tradicionais no ramo, de certa forma dificulta a inserção de outros novos no mercado de trabalho.
Ao falar sobre possíveis dificuldades ao chegar ao Brasil, citou as barreiras que existem quando qualquer pessoa sai do lugar que morou por toda a vida e vai para outro com características diferentes. Disse ainda que todos somos preconceituosos, “principalmente o pobre, preto e no Brasil tem ainda os nordestinos.” Considera ser uma pessoa livre de preconceitos, além das circunstâncias da sua vida ter permitido ser mais esclarecido quanto a isso, diz que aos poucos uma carcaça, uma barreira se forma e te deixa imune a certas atitudes.
Para Eddy os brasileiros tem uma necessidade de exaltar a nacionalidade no intuito de diminuir a capacidade do estrangeiro que vem para o Brasil ocupar o mesmo lugar que ele, e me põem a prova ao perguntar: “Você é brasileira?”, respondo logo que: “Sim” então imediatamente ele diz: “Você é brasileira, então você sabe cantar o hino nacional… Sabe então quem é o autor da letra?” e então cai a ficha: recordo exatamente das aulas de história na escola, mas não me lembro de nenhum nome que me remeta ao autor do hino nacional.
Ele nota minha falta de resposta e emenda: “como a maioria dos brasileiros sei o que significa as cores e os símbolos da bandeira do país, gosto de estudar história, geografia. Me interesso pelos assuntos do dia a dia da nação, corre o risco d’eu saber mais que muitos brasileiros por ai”. Confessa que usa tais conhecimentos para quebrar com o preconceito latente em certas pessoas que tentam diminuir sua capacidade por não ter nascido em solos verde e amarelo.
Sente que já criou raízes no Brasil, possui nacionalidade brasileira, e o tem como segunda pátria. “Hoje me sinto confortável em relação ao Brasil, já adquiri meu espaço.”
Ainda relata que por ser tão envolvido com sua profissão e com a família que construiu aqui – Eddy tem cinco filhos, apenas um nasceu na Bolívia- raramente viaja para visitar os poucos parentes que ainda vivem por lá, não porque não quer voltar e sim porque com o ritmo de vida que leva, um ano passa, daí vem outro e outro e uma hora percebe que fazem vinte quatro anos que vive direto no Brasil, sem qualquer viagem à sua terra natal, nem cogita voltar a morar lá. “Ora isso é mais da metade da minha vida”. Ainda ponderou sobre um mundo ideal sem as fronteiras e as barreiras culturais que existem entre as nações.
Ruana Corrêa
