Antiga Hospedaria de Imigrantes em ilha de São Gonçalo vira museu a céu aberto.

Um pedaço não muito conhecido de São Gonçalo foi a porta de entrada de estrangeiros que ajudaram a construir o Rio e o Brasil. Por quase um século, a Ilha das Flores foi o lar temporário de centenas de pessoas que deixaram a terra natal para ganhar a vida nos trópicos. As histórias da Hospedaria dos Imigrantes, a primeira e maior do país, instalada em 1879 e extinta em 1966, agora constituem acervo de museu.

Em parceria com a Marinha do Brasil, a Uerj e a Fundação de Amparo à Pesquisa do estado (Faperj), foi inaugurado dia 13 de novembro o Centro de Memória da Imigração da Ilha das Flores. “Sempre soubemos do valor histórico do local e, em 2011, surgiu a oportunidade de criar o Museu a Céu Aberto para visitantes”, explicou o almirante Paulo Zuccaro, descendente de italianos, de 53 anos, há dois à frente da Tropa de Reforço do Corpo de Fuzileiros Navais, que hoje ocupa a ilha. “Todos são bem-vindos.”

Repleta de histórias, a ilha chegou a receber cerca de 70 mil imigrantes por ano, que vinham trabalhar em fazendas de café, em São Paulo e no Sul do país, logo após a abolição, quando o Brasil viveu crise de mão de obra. “O Império fazia propaganda no exterior e oferecia a hospedagem, que era pública, onde eles ficavam por cerca de 10 dias até ir para as fazendas” explicou o professor de História e integrante do projeto Thiago Rodrigues.

Ilha recebeu Elke Maravilha. Nascida na Rússia, Elke Maravilha foi acolhida com a família na hospedaria, aos 6 anos. O pai era prisioneiro político na Sibéria e encontrou refúgio no Brasil. “Éramos muito pobres e não tenho muitas lembranças, mas foi onde o Brasil nos recebeu e relembrar isso é reviver a história do país”, recorda Elke.

Amores de Carnaval e de fé. Entre uma embarcação e outra, muitas histórias se desenrolaram, como os recém-casados fugitivos da Iugoslávia que chegaram em pleno Carnaval. O marido, encantado com as mulatas, deixou a esposa na hospedaria e foi curtir a farra. Na volta, foi perdoado. Tiveram três filhos.

O visitante que passar pela capela de Sta. Therezinha vai descobrir que a construção é fruto da promessa de uma mineira que pediu emprego para o marido, médico. A graça foi recebida, e o marido tornou-se diretor da hospedaria. Em agradecimento, a capela foi erguida em 1944.

D. Zuleika Brasil, que nasceu e viveu na ilha até os 17 anos, é doadora da maior parte do acervo de fotos exposto. “Minha família viveu lá desde o meu avô. Cresci cercada de estrangeiros e idiomas. Foram os melhores anos da minha vida”, relembra.

O museu recebe visitantes e escolas às terças e quintas, das 14h às 17h, e aos sábados, das 9h às 12h. A visita é guiada, com duração de 40 minutos, e deve ser agendada pelo telefone 3707-9506 ou no site da hospedaria-museu. A entrada é franca.

(O Dia – 24/12/2012)