“Ao emigrar, a pessoa perde suas raízes, diferente de quando se nasce e morre no seu país de origem. Para as pessoas que não tiveram essa experiência de migrar, é muito difícil entender”
Em 1939, a Segunda Grande Guerra se abateu sobre o mundo. Foi a guerra de maior abrangência e maior número de mortos da História. Os países diretamente envolvidos se coligaram em dois grupos: Aliados e Eixo. A Hungria se juntou à Alemanha, do lado do Eixo, com o objetivo principal de tentar reaver os territórios que havia perdido. Com a derrocada do Eixo, a Hungria se transformou em um campo de batalha, dominada pela União Soviética, devastando o país e toda a sua população.
Em meio a esse cenário, nasceu Eva Julianna Medveczky Meszlenyi, em 1942, na cidade de Budapeste, Hungria. A avó de Eva era dançarina e já estava na América do Sul, a trabalho, desde 1938. Trabalhou durante três anos em Buenos Aires, em seguida foi contratada em Montevidéu e, só então, veio para o Brasil, trabalhar no Cassino da Urca, no Rio de Janeiro. Como já havia estourado a Guerra, ela decidiu permanecer aqui.
Toda a comunicação da avó de Eva com a família na Hungria se dava por carta, porém, durante o período da Segunda Guerra Mundial, não era possível ter notícias de seu país de origem. A avó de Eva se ofereceu, então, como enfermeira voluntária da Cruz Vermelha, para trabalhar no Rio. “Através da Cruz Vermelha é que minha avó conseguiu ter notícias nossas”. Budapeste havia sido bombardeada e uma parte da casa da família também. “Nossa família sofreu, como toda a Europa, danos físicos e muitos danos materiais”, relembra Eva. Segundo ela, sua família viveu um longo período em abrigos (bunkers), durante a Guerra.
Nessa ocasião, sua avó cogitou a possibilidade de a família emigrar para o Brasil, porque o pós-guerra estava muito difícil. “Meu pai perdeu a padaria que ele tinha e meu tio, irmão da minha mãe, ficou cinco anos em Campo de Concentração, como prisioneiro de Guerra, por causa da derrota da Alemanha, de quem a Hungria era aliada. Estava tudo caótico”. O marido de sua avó era judeu e tinha um comércio na Rua da Alfândega. Ele tinha muitos recursos e pôde financiar a vinda de toda a família, para o Brasil. “Tanto que nós não saímos fugidos. Saímos na última leva que conseguiu sair legalmente, com passaporte”.
Vieram Eva, seus pais, seus tios e seus dois primos. “Vendemos a casa de Budapeste e nos desfizemos de todos os nossos bens, porque não podíamos sair com nada além de algumas mudas de roupa e uma quantidade limitada de dinheiro. Não podíamos trazer jóias, por exemplo”. Eva lembra que foi muito difícil conseguir todos os documentos legalmente, porque, nessa época, os russos já tinham tomado a Hungria.
Conseguiram sair em março de 1949 e foram direto para Paris. Lá, o visto para o Brasil foi negado, então, tiveram que ficar morando na cidade por dois meses. “Minha avó tinha um conhecido em Paris que nos ajudou com essa parte burocrática da Embaixada”. Quando, enfim, embarcaram na viagem de navio para o Brasil, como esta durava 15 dias, fizeram uma escala em Dakar, na África, para depois chegarem ao porto do Rio de Janeiro. “Minha avó havia comprado uma propriedade rural em Ipiabas, Barra do Piraí, então, a família que emigrou foi toda, direto, para essa propriedade”.
Ipiabas, até hoje, é um local de muitos sítios e fazendas. Distrito de Barra do Piraí, no estado do Rio de Janeiro, ainda tem estradas de chão e muitas propriedades rurais. No ano de 1949, certamente as condições eram muito piores. Eva mora nesse sítio até hoje, com uma de suas duas filhas. Segundo ela, “naquela época, isso aqui era uma selva. Quando chovia, não se passava, ou então, tínhamos que ir a cavalo. Mais tarde, minha avó comprou uma charrete, para podermos estudar na escola pública do centro de Ipiabas”. O único transporte coletivo da época era o trem da Viação Minério, não passava carro de passeio, só caminhões e jipes, luz elétrica também não tinha chegado ainda.
Quanto à adaptação, o começo foi pelo idioma. Todos tiveram que ser novamente alfabetizados por uma professora particular brasileira, que foi contratada por sua avó. “Me lembro que a professora colocava a mão em uma cadeira e dizia ‘cadeira’ e todo mundo repetia. Ia até a janela e dizia ‘janela’ ou ‘abre janela’ e todos falavam igual”. As crianças aprenderam em seis meses, segundo Eva. Porém, até dominar de vez a língua portuguesa, ela conta que era discriminada pelos colegas de escola, “como eu sempre fui muito loirinha e falava tudo errado, com sotaque, me chamavam de gringa”. Outra diferença, que chamava a atenção de Eva para a diversidade entre as duas culturas, era a liberdade que ela tinha em sua estrutura familiar e que não via na criação de suas amigas. “Eu, por exemplo, numa cidade do interior, como Barra do Piraí, podia jogar tênis, ou praticar esqui aquático, enquanto nenhuma das minhas amigas podia, porque não podiam colocar short, nem entrar em um barco com uma pessoa desconhecida. Eu achava muito repressora essa cultura”.
Mesmo com a necessidade de se adaptarem ao novo lar, a família não deixou os costumes húngaros de lado. Perto de onde estavam morando, um casal de imigrantes húngaros tinha um hotel, chamado Hotel Veraneio, onde reuniam as outras quatro famílias húngaras da redondeza, além da família, recém-chegada, de Eva. Segundo ela, o grupo se encontrava para “falar das saudades, para comer a comida típica, às vezes, faziam-se festas”, “se dançava muito na minha casa”, completa Eva. Até hoje, ela fala húngaro e se comunica, pela Internet, com uma parte da família que ainda está lá, alguns primos distantes.
Após o fim do seu primeiro casamento com um brasileiro com o qual teve suas duas filhas, Eva se casou com um húngaro e foram morar na Suíça, onde tem uma grande colônia de húngaros, a qual frequentavam. Sua avó, enquanto morava no Rio de Janeiro, também participava de uma comunidade de húngaros, judeus. Eva e o marido, durante o período que moraram na Europa, iam duas vezes ao ano para a Hungria. Sua filha mais nova, Mônica, está na Suíça até hoje, mas Eva voltou ao Brasil, depois de se divorciar. A última vez que foi à Hungria, faz cinco anos. Através de seu pai, que morava em São Paulo e tinha muito contato com os húngaros de lá – maior colônia húngara no Brasil -, Eva participou dos bailes anuais, promovidos pela associação húngara, em homenagem à Santa Catalina.
De todo seu processo migratório, Eva diz que “quando você sai de seu país de origem e vai morar em outro, sente-se estrangeiro em qualquer lugar. Quando eu voltei ao Brasil, depois de 13 anos morando na Suíça, eu me senti de novo uma estrangeira e isso eu também senti quando eu fui à Hungria”. E conclui: “Ao emigrar, a pessoa perde suas raízes, diferente de quando se nasce e morre no seu país de origem. Para as pessoas que não tiveram essa experiência de migrar, é muito difícil entender”.
Luana Balthazar
