A Igreja maronita, tradicional no Líbano, é uma igreja cristã de rito oriental, que reconhece a autoridade do Papa e prevê a realização de seus ritos em aramaico – segundo os fieis, língua falada por Jesus Cristo. A Igreja Maronita Nossa Senhora do Líbano, na Tijuca, Rio de Janeiro, desde sua construção, em 1960, tem como função fundamental a reunião da comunidade libanesa no Rio e, especialmente, dos cristãos maronitas.

Nami Hanna, 46 anos, é libanês da região de Monte Líbano e residia em Beirute, onde se formou na Faculdade Libanesa de Ciências Políticas e Administrativas. Trabalhou, durante um período, com contabilidade e política, ao mesmo tempo. Em 2000, ele migrou para a Bulgária para trabalhar com uns amigos libaneses que já estavam lá e, em 2001, recebeu um convite do tio de sua esposa, Carmen, para trabalhar no Rio de Janeiro. Logo após, foi convidado para trabalhar na Igreja Nossa Senhora do Líbano, onde desenvolve muitos projetos até hoje, sendo um deles, dar aulas de árabe. “Vim com visto de turista, normal, mas a parte política também pesou. Eu cheguei a dar entrada no pedido de refúgio político, na Cáritas, mas logo depois veio a anistia aos imigrantes e eu não precisei”, lembra Nami.

Ele só trouxe a esposa e seus dois filhos – todos libaneses -, para o Brasil, em 2003. Não conheciam nada da cultura brasileira, a não ser o que passava na televisão. “A mídia participa muito da formação da educação das pessoas, e a mídia do Brasil quer transformar tudo que é errado em certo. Para mim, o maior inimigo dos brasileiros é a Globo”, diz ele. Nami chegou na época do carnaval e disse que se chocou muito com o que ele chamou de “educação social” dos brasileiros, e diz que ele e a esposa se chocam até hoje. “Eu fui criado na rua. Não sou tão ligado à família, como a Carmen. Ela é de família tradicional do Líbano, ligada à montanha, e eu sempre gostei de ser livre. E mesmo assim eu me choco. Imagina ela”.

Quanto à adaptação, Nami não falava nada em português. “No início, eu tive problemas, porque não queria aprender. Por um ano, eu queria sair daqui”, confessa Nami. Com o tio de sua esposa, só falava árabe, mas foi ele que deu dicas preciosas para Nami começar a entender o idioma. “Eu já falava inglês e francês, então não foi muito difícil. O tio da Carmen me disse que, quando eu olhasse para a palavra, todas as letras deveriam ser lidas, que não era como no francês, que tem combinações de letras para formar o som”. Além disso, ele conta que assistia programas em português, com legenda no mesmo idioma, e tentava ler jornais brasileiros.

Nami ainda tenta manter costumes libaneses no Brasil, porém, diz que é muito difícil, dada a diferença entre as culturas. “Nossos costumes são muito diferentes, principalmente, no que diz respeito à família. No Líbano, toda a família fica junta, participa das alegrias e tristezas todos juntos. Isso não acontece na maioria das famílias brasileiras. Aqui, fecham a porta e ninguém sabe o que está acontecendo”. Porém, completa: “Meus filhos chegaram aqui com três e cinco anos e estão crescendo com uma mentalidade carioca, então, se eu for pensar só como libanês, eles vão se sentir diferentes e eu quero que eles se sintam brasileiros, porque estamos morando aqui, mas sem esquecer as origens libanesas”. Os filhos de Nami aprenderam árabe e se comunicam com a família no Líbano, através da Internet, com freqüência, além de freqüentarem a missa maronita, em árabe, com os pais, aos domingos.

Em 2012, nasceu o terceiro filho do casal. “Esse é carioca”, diz Nami. Segundo ele, pela ligação de sua esposa com a família, que ficou no Líbano, ela gostaria de poder voltar e criar seu caçula no país de onde vieram. Mesmo sem impedimentos legais ou pressão política, Nami não pretende voltar para ainda trabalhar lá. No entanto, diz: “No dia em que eu me aposentar, quero voltar para o Líbano. Eu me considero libanês. Eu consegui me adaptar, mas as coisas brasileiras não superaram as coisas libanesas que eu tenho”.

Luana Balthazar