Nascido em uma fazenda cafeeira em Ibagué, capital do departamento de Tolima, Colômbia, César Augusto Cely Lizcano sempre sonhou em ser médico. Porém, não sabia o quão longe esse sonho poderia levá-lo.
Quando completou o Ensino Médio, logo aos 16 anos, prestou seu primeiro vestibular e teve o resultado negativo. O sonho da universidade pública parecia distante em todos os sentidos; a seis horas de distância de casa, na capital Bogotá, e com uma concorrência de 200 candidatos por vaga.
Uma segunda tentativa não trouxe resultado diferente, porém, com a terceira, junto com a aprovação, começaria a sua história como imigrante.
Um amigo havia lhe contado que ser aprovado para a faculdade de medicina no Equador era mais fácil do que na Colômbia, uma vez que existiam “apenas” 50 candidatos para cada vaga. Sem hesitar, César foi prestar vestibular para a Universidade Central do Equador, dona do temido time de futebol, LDU. Munido com dois anos de preparação, foi aprovado. Seu primeiro passo para ser médico foi dado.
Aos 18 anos, mudou-se para Quito, onde cursou os 6 anos da faculdade de medicina. No Equador, para formar-se médico, além do tempo de faculdade, é necessário ainda, um ano de residência e mais outro, que eles chamam de ano rural – um período no qual o formando vai para uma cidade, possivelmente no interior, que tem dificuldades em assistência médica. Completos, então os 6 primeiros anos, César decidiu retornar a Colômbia para concluir os dois últimos que faltavam, voltando primeiro para Ibagué, mas em seguida indo morar em Bogotá.
Concluído o ano rural, o médico precisava de uma especialização. É nesse ponto da história que o Brasil entra em seu caminho.
Seu amigo Jimeno tinha um irmão que estava finalizando seus estudos no Rio de Janeiro e logo viria para cá seguir seus passos. Ciente do desejo de César de continuar a sua formação, convidou-o para acompanhá-lo. Chegando ao Brasil primeiro, Jimeno pediu a um amigo médico que escrevesse dizendo que a especialização de César já estava acertada. E foi com a ajuda dessa meia verdade que foi concedido o visto de estudante.
Já com uma primeira experiência como imigrante, sempre sendo apoiado pela família, ele veio continuar seu sonho. Chegando em Niterói em Janeiro de 1994, foi morar em um pensionato. Acostumado com as baixas temperaturas de Bogotá, que fica a 2.650 metros de altitude, sofreu com o calor que fazia naquele verão. De camisa social, suava, literalmente, para conseguir uma oportunidade em algum hospital.
Em janeiro todas as provas para especialização já haviam sido feitas, com exceção da UFF, que neste ano havia atrasado o calendário. Naquela época, existia uma vaga exclusiva na especialização de oftalmologia para um estudante estrangeiro que logo foi preenchida pelo colombiano. Uma vez que no Equador estuda-se por um período maior para formar-se médico, seu diploma foi logo validado para atuar no Brasil.
Durante o tempo de curso, seis meses antes do visto como estudante expirar, César recebeu uma carta da Polícia Federal dizendo que passado aquele período, ele teria que voltar para a Colômbia. Pra conseguir um visto permanente, e assim continuar no Brasil, existiam três possibilidades; conseguir um emprego que fosse reconhecido pela polícia, ter um filho, ou casar.
Quando recebeu a carta, César Augusto já namorava uma brasileira e, como não tinha outro jeito, conta ele brincando, decidiu se casar. Voltou a Colômbia, apresentou a noiva aos pais através de uma fotografia, e em menos de seis meses estava casado com a sua atual esposa com quem tem uma filha de 8 anos.
Para lembrar-se de suas raízes da época da fazenda em Ibagué, César se reúne com grupos de amigos também colombianos para fazer pratos típicos como Bandeja Paisa, Tomales ou Aijaco.
Hoje Dr. César Augusto Cely Lizcano é mestre pela UFRJ e atende no Hospital de Olhos de Niterói.
Beatriz Sá
