O governador do Acre, Tião Viana, descreve como “tragédia humanitária” o que seu estado está vivendo com a chegada de imigrantes em situação ilegal do Haiti e de outros países – entre eles Senegal, Nigéria e República Dominicana.

O governo federal enviou para a cidade de Brasiléia uma força-tarefa para acelerar a regularização desses imigrantes, dar a eles atendimento básico de saúde e garantir a segurança do local.

Viana, porém, defende que também é preciso uma ação para conter as redes internacionais que segundo ele estariam se formando para lucrar ajudando imigrantes ilegais a entrar no Brasil. “Uma rota internacional está instalada”, diz.

As declarações alarmistas e pouco fundamentadas foram feitas numa entrevista concedida à BBC.

Numa entrevista concedida à BBC, o governador qualificou a situação no Acre de “tragédia humanitária”. Segundo ele, mais de 5.500 imigrantes passaram pela fronteira do Acre com o Peru. Eles vieram sobretudo do Haiti, mas também de outros países como a República Dominicana, Senegal, Nigéria, Marrocos, Líbia e Bangladesh.

O mais grave, na análise de Viana, é a estrutura do Acre não oferece condições para acolher e dar o encaminhamento para esses casos. “Nós dependemos dos governos federais do Brasil, Peru, Equador e do próprio Haiti e desses outros países. Mas, à exceção do Brasil, eles não têm tratado a questão com a devida importância”.

“Assumimos como virtuosa a atitude humanitária de acolher e dar as condições mínimas para que essas pessoas não se imaginem rejeitadas e hostilizadas por nós. Mas ao mesmo tempo precisamos da estrutura do Estado nacional para encontrar uma saída”.

O melhor caminho, segundo ele, é que o governo peruano estabeleça a regra de acolher essas pessoas pedindo visto de entrada para evitar a ação de “coiotes”. E que o governo do Peru e do Equador peçam vistos de entrada para essas pessoas, organizem a entrada delas, dialoguem com o governo brasileiro e garantam alguma previsibilidade para esses fluxos humanos. O que não se pode é ter um fluxo de pessoas desregrado, desorganizado e sem previsibilidade.

Ainda segundo o governador, uma rota internacional estaria se instalando. Imigrantes ilegais do Senegal, que é um país em guerra (sic!), nos disseram: “nosso país sabe dessa rota”. Outros imigrantes em situação ilegal da Nigéria já falam isso há mais de dois anos – que conhecem essa rota. E um terceiro grupo de imigrantes de Bangladesh e da República Dominicana também. Antes esse era um problema restrito basicamente ao Haiti.

“Será que teremos uma situação de imigração “na base da pressão”, assim como o México e os Estados Unidos? Ou precisamos de uma ação multilateral – principalmente do governo brasileiro com o peruano – para uma solução ordenada desse processo de imigração ilegal?” Indaga o governador.

Viana destaca, por outro lado, a falta de instituições humanitárias internacionais para mediar a chegada desses imigrantes. Enquanto, segundo ele, os serviços de inteligência do país teriam detectado a presença de “coiotes” que ganham muito dinheiro com a situação. “Será que no meio disso não há um tráfico ilegal de pessoas?” acrescenta ele.

Perguntado sobre o que ele sabe sobre o suposto trabalho desses coiotes, quanto são, de onde vêm e quanto dinheiro estariam ganhando com esse negócio, Viana voltou a firmar que as informações são dos serviços de inteligência da Polícia Federal do Brasil. Eles apontam apenas a presença de muitos coiotes, de muitos intermediários fazendo isso – algo que os imigrantes também confirmam. Mas não há detalhes sobre quanto estão ganhando por essa transferência de pessoas. Seriam todos estrangeiros (não haveria brasileiros nessas redes). Muitos imigrantes chegam por avião ao Equador, vão para o Peru e depois para o Brasil. Os coiotes estariam no Equador, no território peruano e também no território brasileiro.

O governador explica, ainda, que alguns supostos coiotes foram identificados e entrevistados, mas não existem provas que receberam algum pagamento. Muitos deles também são imigrantes em situação ilegal.

“Não podemos imaginar que o Brasil vai resolver os problemas do mundo e da África. O Brasil, pelo trabalho humanitário no Haiti mediado pela ONU, tem o dever de ser solidário com esse povo. E tem o dever de ser solidário com seus irmãos africanos. Mas não abrindo suas portas de uma maneira desordenada” concluiu.

(14/04/2013)
Leia a íntegra da entrevista no site da BBC Brasil