Tudo começou em 1927, quando um grupo de cinco finlandeses decidiram abandonar o frio nórdico e aportar na cidade do Rio de Janeiro. Quando chegaram, instalaram-se em um local de recepção de alemães. Como o líder do grupo dominava o idioma germâncico, buscou ajuda nos círculos alemães, em especial na Associação Alemã, para se situar na nova cidade. Logo no primeiro dia, eles foram ao Instituto Berlitz, para ter aulas de português e circularam pela cidade para conhecerem melhor os hábitos do país.

Como estavam à procura de uma fazenda para comprar, visando fundar um novo assentamento finlandês nos trópicos, ficaram em torno de um mês no Rio. Procuraram também o apoio da representação finlandesa no Brasil, porém, a opinião das autoridades era de que os nórdicos não se adaptariam ao nosso clima.

A Finlândia sempre foi um país de emigrantes, devido às difíceis condições de sua geografia. O clima frio, a terra pobre e sem grandes riquezas minerais fez com que seu povo sempre tivesse a necessidade de buscar outras terras para viver. A história da emigração finlandesa para a América teve início no século XVII, com uma corrente migratória vinda da Suécia incluindo finlandeses. A partir do final do século XIX e início do XX, com a dominação Russa na Finlândia, houve uma forte corrente migratória de cunho político e ideológico, muitas pessoas fugiam das políticas repressivas da Rússia.

Foi um período em que a emigração em massa passou a ser vista como algo negativo para o país, pois promovia a fuga de pessoas capacitadas para o trabalho. A Finlândia, durante o período de maior movimentação migratória, no século XIX, era um país basicamente agrícola e de extrativismo florestal, além de contar com atividades ligadas à pesca.

Dentre a natureza migratória dos finlandeses, devemos destacar a peculiaridade de grupos de migrantes que almejavam uma transformação mais profunda das sociedades e, para isso, criaram as chamadas Colônias Utópicas Finlandesas. Até chegarem ao Brasil, tiveram experiências em diversos lugares como África, Rússia, Canadá e, na América do Sul, dirigiram-se à Argentina. Todas elas marcaram a busca dos finlandeses por novos ideais, com o objetivo de uma nova vida fora da Europa. O socialismo utópico era a base dessa nova sociedade, aplicada nas colônias.

Uma nova leva de emigração, que ocorreu nos anos 1920, foi chamada de “febre tropical”, pois ia especialmente de encontro com a ideia de lugares voltados para a natureza, com ideais de vida vegetariana e, portanto, situados em locais tropicais. Novas colônias utópicas foram criadas, dentro de um enfoque baseado nesses princípios vegetarianos. Os ideais variavam de socialismo, nacionalismo, cristianismo, teosofia e vegetarianismo e havia também quem buscasse novas chances de trabalho.

Foi nesse contexto que se deu a imigração finlandesa para o Brasil. Ao contrário das imigrações dos povos ibéricos, os finlandeses não vieram “fazer” o Brasil, nem buscavam riquezas materiais.  Estavam à procura de uma vida mais simples em contato com a natureza. Trajando vestes mais leves – ou até mesmo nenhum vestuário – aproveitavam os benefícios dos raios solares, se alimentavam de uma dieta vegetariana e pregavam a abstenção de bebidas alcoólicas, chá, leite e café. De raízes protestante-luteranas, eram em sua maioria técnicos agrícolas, construtores, ginastas, lavradores, massagistas, técnicos em desenho de arquitetura ou professores.

Toivo Uuskallio, líder do grupo fundador de Penedo, era uma pessoa altamente mística e visionária. Diz ter recebido um chamado de forma misteriosa, à noite, para deixar sua terra natal e emigrar para o Sul longínquo.  Estudioso do solo e das plantas, encantava-se com a beleza da natureza. Ele, sua esposa, Liisa, e outros três rapazes, Frans Fagerlund, Enok Nyberg e Eino Kajander, compartilhavam os mesmos ideais.

Depois de passarem por Itatiaia e visitarem fazendas em São Paulo, Espírito Santo e Rio de Janeiro, o que realmente lhes apeteceu foi a Fazenda Penedo, parte do município de Resende, no Vale do Paraíba. O terreno, com plantações de café e criações de gado, era recortado por ribeirões e cercado por florestas e montanhas, propiciando a cultura de plantas tropicais e europeias. O local era ideal para o estabelecimento dos ideais dos recém-chegados de fundar uma colônia vegetariana, naturista e ecológica que preservasse a natureza. Os finlandeses buscavam um estilo de vida sem as preocupações próprias de uma sociedade de consumo e longe dosco nflitos militares, em que cada família pudesse cultivar e produzir tudo o que precisasse para sua subsistência.

Encantados com o lugar, logo se estabeleceram. Ajudados pelo pastor Pennanen e por Mikko Airila, em 28 de janeiro de 1929, compraram a Fazenda Penedo. Então, vieram mais finlandeses. Entre o dia 1º de setembro de 1927 e 16 de outubro de 1940, 296 finlandeses atravessaram o mar do Norte, singraram o Atlântico e aportaram nos mares do sul. O ano de 1929 foi o período de maior fluxo, quando chegaram 122 colonos. Foi também o ano de reconhecimento das relações diplomáticas entre os dois países. Até que, em 1935, quase todos já tinham suas casas próprias, construídas por eles mesmos, todas idênticas umas às outras – afinal, buscava-se uma sociedade igualitária.

Antes da construção das casas, hospedavam-se em comunidade na Casa Grande, com refeitório e cozinha comuns. O salão do andar térreo ficou sendo a república dos homens e uma sala do sobrado serviu de dormitório para as mulheres. Era necessário preparar a terra para as plantações, construir estradas e começar a edificar as casas. As tarefas eram rigidamente divididas por gênero: mulheres revezavam-se na cozinha, na lavanderia e na horta; enquanto aos homens cabia cuidar da terra, do plantio, das construções e das compras necessárias em Resende.

A base alimentar da colônia residia na agricultura de subsistência, e a principal fonte de renda provinha do cultivo de viveiros de mudas de laranja. Não havia, contudo, mercado para os produtos da colônia e as pragas destruíram as safras. Os imigrantes, de origem de classe média, tampouco tinham experiência na agricultura.

Decepcionados com as duras condições de trabalho, muitos retornaram à Finlândia ainda nos primeiros anos. Outros obtiveram de volta o dinheiro que haviam investido e procuraram terras diferentes. Com a queda da indústria da laranja na Baixada Fluminense, o mercado cessou, e os finlandeses saíram em busca de alternativas. Tentaram o cultivo de tomate, mas as dificuldades de fazer chegar a produção ao mercado fizeram com que alguns se dedicassem à criação de galinhas. Inicialmente vegetarianos puros – hoje conhecidos como vegans –, tiveram que voltar a criar aves e suínos, pois enfrentaram dificuldades na plantação em função do solo pobre. O naturalismo também foi deixado de lado por causa de mosquitos e do sol que queimava a pele.

Recanto de paz

Inundada por problemas financeiros, a Fazenda Penedo foi vendida para uma indústria farmacêutica suíça em 1942, ficando, nos dez anos seguintes, sob sua posse. Foi nesse período que teve início a indústria hoteleira. O turismo receptivo, tal qual conhecemos hoje, surgiu com a Casa Grande, supervisionada por Liisa Uuskallio.

Em busca de paz, natureza, águas claras, tortas tradicionais e bolos e pães caseiros, os frequentadores encontravam uma alimentação sadia, bailes, danças e sauna relaxante. Aliás, sauna é a única palavra de origem finlandesa no dicionário brasileiro. Em finlandês, significa banho milenar e foi disseminada pelos finlandeses de Penedo, com o uso do eucalipto, para ativar a circulação do sangue e limpar a pele. A árvore se tornou uma marca registrada não só das saunas como do próprio conceito de higiene, do cheiro de limpeza. No momento do banho, na Finlândia, era comum que se aquecessem em saunas, batendo suavemente nas costas e no pescoço com um maço de ramos de eucalipto.

Outros finlandeses logo prepararam suas casas como pensões e começaram a abrir suas portas para receber turistas do Rio de Janeiro. Pouco a pouco, a atividade foi se desenvolvendo.  Naquela época, havia o hábito de se passar as férias anuais, geralmente de duas semanas, em hotéis-fazenda com regime de pensão completa.

As reservas eram feitas por carta, pois o telefone ainda não tinha sido introduzido na região. Inaugurada em 1951, a rodovia Presidente Dutra, que liga o Rio a São Paulo, permitiu o acesso aos automóveis, impulsionando o turismo de fim de semana. As antigas pensões foram ampliadas e se transformaram nos atuais hotéis e pousadas. Em 1970, chegou a iluminação elétrica e, em 1980, o telefone. Aí se deu, então, o auge da hotelaria e da economia local.

Ponto de encontro

Com o objetivo de acolher festas e reuniões, o Clube Finlândia foi inaugurado em 1943 e foi, por muitos anos, administrado com dedicação por Aksel Lehtola. Hoje, é presidido por Otavio Santos. Trata-se de uma entidade cultural sem fins lucrativos, com o objetivo de preservar a cultura e as tradições finlandesas, incluindo as músicas e danças típicas – polkas, jenkas, mazurkas e iancas. Às 21 horas, seja no primeiro sábado do mês ou em feriados e datas especiais, acontece o baile finlandês.

A tradição do clube vai além da apresentação de 30 minutos de danças folclóricas: é uma oportunidade de confraternização entre a comunidade finlandesa, turistas e moradores, em um ambiente familiar de alegria contagiante. O grupo de danças típicas finlandesas Penedon Kansantanssin Ystävät, conhecido como PKY – que, traduzindo, quer dizer “Amigos da Dança Folclórica de Penedo” –, também se apresenta regulamente no Clube até hoje com trajes típicos, que não são mais usados no dia a dia, uma vez que a população camponesa praticamente já não existe.

Desde 1982, o Museu Finlandês Eva Hildén, ao lado do Clube Finlândia, exibe uma coleção particular aberta para o público. A cultura e a memória dos finlandeses são preservados em meio a uma mostra de artesanato, fotografias, livros, revistas, tapeçarias e outros utensílios antigos e modernos. Em maio de 1993, o local foi doado para o Clube Finlândia, sendo administrado desde então por descendentes. O clube também foi o responsável pela idealização e realização da Feira da Colônia Finlandesa, que preserva a cultura por meio da exposição e venda de produtos artesanais e de delícias da culinária como pullas, korvappusti, piparkakku, chutneys, geleias, tortas e  bolos.

O artesanato começou com tapetes e tapeçarias, tecidos nos teares manuais das primeiras imigrantes finlandesas. Elas descreviam a sua vida e a história de sua família em seus bordados. Na Carélia, província do leste da Finlândia, os bordados foram desenvolvidos ao ponto de serem considerados uma forma de arte junto com a poesia e a música. Os desenhos eram passados de mãe para filha através de diversas gerações.

Mais tarde, aumentaram os trabalhos em bucha vegetal, pedra, cerâmica e madeira, além da pintura em tecidos e velas – essa última, por passar sensação de calor e conforto, é muito apreciada na Finlândia. Por isso, em vez dos modernos pisca-piscas, as luzes da árvore de natal tipicamente finlandesa é substituída por pequenas velas colocadas nas pontas dos ramos.

Papai Noel

Hoje, o perfume exalado de plantas frutíferas e a beleza do brilho das plantas ornamentais, aliados à generosa Mata Atlântica da serra da Mantiqueira, tornam Penedo um refúgio de paz e de tranquilidade. O ar puro e o canto dos pássaros em um clima ameno fazem da região um oásis, bem ao gosto de quem procura fugir da agitação dos grandes centros urbanos. Baseado na herança cultural finlandesa, o turismo de final de semana se tornou um fator de manutenção de identidade na única colônia finlandesa do Brasil. A cidade possui uma variada rede hoteleira, gastronomia de alta qualidade, lojas de artesanato e um comércio local bem diversificado.

Mesmo com a longa distância geográfica entre os dois países, o legado e as tradições finlandesas dos pioneiros são preservados pelos descendentes, mantendo as raízes da colônia. Há quase 600 finlandeses morando permanentemente no Brasil, a maioria no Sul e Sudeste.  Penedo já teve uma escola que ensinava finlandês, mas, por ser uma língua considerada difícil, a procura era pequena e as aulas acabaram – hoje, só existem duas escolas paulistas que ensinam finlandês no Brasil. Já que os próprios descendentes não falam o idioma, a aproximação cultural é feita por meio da dança, da arte e das tradições, impulsionadas pelo fator comercial.

“Porque vou fazer uma torta se eu não vou vender? A partir do momento em que aquilo reporta a imagem finlandesa, e o turista chega lá buscando alguma coisa finlandesa, então eu vou fazer a torta, porque vai vender. Eu faço biscoito típico, eu me visto com uma roupa tradicional e vou fazer a dança”, contou Sérgio Fagerlund, arquiteto e descendente direto dos primeiros imigrantes finlandeses.

No início de 1993, preocupados com a preservação da cultura finlandesa em Penedo, um grupo de empresários resolveu investir em algo que viesse a proporcionar uma mostra da Finlândia. Depois de estudos, pesquisas e viagens para que tudo saísse com requintes de fidelidade, foi criado o parque temático Pequena Finlândia (Pikku-Suomi), cuja principal atração é a residência oficial de verão do Papai Noel no Hemisfério Sul.

Rodeado de sobrados típicos, pintados em cores variadas, está o anfiteatro, onde são realizadas apresentações de danças folclóricas, corais, bandas e grupos de teatro de rua. As lojas expõem peças artesanais, as placas das ruas são bilíngues e as cercas rústicas de madeira completam o cenário mágico.

Atualmente, o imigrante vem para o Brasil para trabalhar em empresas finlandesas ou em negócios de suas próprias famílias. Os investimentos finlandeses no Brasil cresceram significativamente nos últimos anos. A Nokia, por exemplo, abriu sua fábrica de celulares em Manaus em 1998 e tornou-se rapidamente uma das maiores empresas exportadoras, empregando cerca de 3 mil funcionários.

O desenvolvimento do transporte e da comunicação facilitou a migração e as trocas culturais. “Em relação à comunicação”, exemplificou Sérgio, “o computador é mais usado, hoje em dia. Uma prima, que faleceu esse ano, era jornalista, se aposentou e veio morar em Penedo e usava o computador, de forma que passou 10 anos no Brasil sem falar português. Não conseguia aprender. Ela conseguia viver na colônia, se comunicando com a Finlandia pelo computador”. Com o surgimento de pacotes turísticos para as praias nordestinas, o turismo da Finlândia para o Brasil também tem crescido fortemente nos últimos anos, com quase 4 mil viagens por ano.

Hoje, Penedo cresceu muito e continua sendo uma referência para turistas e imigrantes finlandeses. Segundo Sérgio Fagerlund, “os finlandeses gostam muito de ir para Penedo, vem muita gente para passear, observar a natureza. Eles gostam de lugar pequeno, isolado. Meu pai dizia assim ‘finlandês só busca lugar onde se tem dois já é multidão’”.

Embora Finlândia e Brasil sejam países muito diferentes tanto em tamanho quanto em cultura, muitas famílias se estabeleceram em Penedo, viram seus filhos nascerem e crescerem, construíram seus lares, plantaram árvores e criaram jardins. O grande sonho de Uuskallio não se concretizou, mas com certeza os finlandeses deixaram marcas definitivas no novo lar que escolheram.

Guilherme Ramalho