A história da imigração italiana no Brasil teve início no ano de 1836. Foi nesse ano que as autoridades brasileiras registraram pela primeira vez a entrada de migrantes italianos em território nacional. No entanto, nessa data, apenas 180 italianos desembarcaram no país.

O boom da imigração para o Brasil só teve início por volta do ano de 1880. Estima-se que, desse período até 1920, tenham entrado aproximadamente 1,5 milhão de italianos no país. Esse número expressivo é facilmente compreendido quando voltamos um pouco no tempo, para entender o contexto da Itália na época.

No início do século XIX, não era possível chamar a região que conhecemoshoje como Itália de país. Dividida em inúmeros e independentes reinos e grandu-cados, e com regiões sob o domínio do Império Austro-húngaro, a península se encontrava distante da ideia de prosperidade e união. Mesmo após a sua unificação tardia, em 1861, o país não parecia ter à frente um futuro promissor.

A “criação” da Itália foi, claramente, resultado do esforço político de um parlamento formado pelos ricos e poderosos da região. Os moderados, grupo político formado por importantes burgueses e nobres, ficaram à frente da unificação.

Dessa forma, uma enorme parte da população, que incluía os artesãos, camponeses e pequenos burgueses, ficou alheia a todas as atividades e decisões políticas. Para piorar a situação, esse segmento da sociedade italiana também não tinha direito ao voto.

O historiador José Arthur Rios descreveu essa situação em sua fala sobre as correntes imigratórias italianas para o Brasil. “A aldeia constituía o único horizonte desses camponeses”, explicou, durante o Seminário Brasil Itália, em março de 2012.

“Viviam de agricultura de subsistência e só tinham notícias do poder central através dos cobradores de impostos. Seus assuntos se limitavam ao tempo e a brigas e fofocas de vizinhos.”

A precariedade também era característica da industrialização italiana, que estava muito atrás de outros países europeus, principalmente os do Norte. O atraso é explicado pela unificação tardia do país. Além disso, a Itália também passou por graves problemas de saúde pública. Malária e Cólera matavam milhares de pessoas e as condições de higiene eram terrivelmente precárias.

Todos esses fatores contribuíram para fazer da população italiana um povo insatisfeito, maltratado e reprimido. Torna-se fácil, portanto, compreender os motivos que despertaram em tantos italianos o desejo de emigrar. A posição do Brasil perante o movimento imigratório também era um atrativo. Pressionado pela Inglaterra a acabar com o comércio de escravos, o país passava por um período abolicionista.

Leis como a Lei Eusébio de Queirós (1850), que proibia o tráfico negreiro, a Lei do Ventre Livre (1871) e a Lei dos Sexagenários (1885), deixavam claro o enfraquecimento do escravismo e anunciavam a proximidade de seu fim. Enquanto isso, as plantações de café em São Paulo cresciam e prosperavam cada vez mais. Era necessário, portanto, a exploração de uma nova fonte de mão de obra.

A imigração europeia, por isso, foi bastante estimulada nesse período. Italianos chegam aos montes no Brasil. De 1864 em diante, o contingente cresceu cada vez mais, chegando a constituir, em certo momento, metade do número total de estrangeiros no país. Nem mesmo o ministro italiano Prinetti, que em 1902 proibiu a vinda de italianos, conseguiu deter essa forte corrente.

Gaúchos e paulistas

A imigração italiana para o Brasil foi um movimento de grande magnitude e importância. No entanto, devido à extensão do território brasileiro, alguns locais do país receberam pouquíssimos italianos, que deram preferência para destinos específicos, em especial as regiões Sul e Sudeste. Destacam-se dois estados: o Rio Grande do Sul e São Paulo. Em cada um deles, porém, o objetivo dos imigrantes era distinto.

A ocupação do sul do Brasil pelos italianos se deu a partir de uma política do governo brasileiro que visava estimular a habitação daquelas terras por trabalhadores livres, para que fossem criados lá núcleos agrícolas consistentes. A maior parte dos imigrantes da região era de famílias provenientes do Norte da Itália, em geral encabeçadas pela figura do pai, branco e agricultor. Foi a partir desse tipo de imigrante que se formaram as tantas colônias italianas existentes no sul brasileiro.

O Rio Grande do Sul foi o estado que recebeu a maior quantidade. O número de italianos em Santa Catarina também foi expressivo, embora muitos deles tenham passado por problemas de adaptação por conta da competição que travavam com os imigrantes alemães, já presentes ali. É importante ressaltar ainda que boa parte desses italianos não eram camponeses miseráveis, mas sim pequenos proprietários e arrendatários, com condições razoáveis de vida. Sua atividade principal era, e permanece sendo até os dias de hoje, a vinicultura.

São Paulo, por sua vez, foi o estado brasileiro que mais recebeu italianos na época das grandes correntes. Estima-se que 70% do total desses imigrantes tenham ido para o território paulista. O motivo para esse enorme contingente foram as fazendas de café alocadas na região. O café paulista era um produto de muito sucesso e exportado para todo o mundo. O negócio gerava muito capital, crescendo cada vez mais e, assim, necessitava de mais mão-de-obra.

“O café era São Paulo e São Paulo era o café. Por isso, esse estado absorvia a maior parte da imigração italiana”, explicou Rios. “As estatísticas oficiais registram a entrada de 1,5 milhão de italianos na época das grandes correntes. A alta percentagem de ruralidade tem enorme importância na explicação do comportamento social e político do imigrante italiano.

”Não havia muita discrepância entre os números de italianos do sul e do norte, entre os que vinham para São Paulo: o estado recebia imigrantes de todas as partes da Itália. A diferença se dava, no entanto, na área de atuação. Enquanto os nortistas preferiam as atividades rurais, era comum que os sulistas escolhessem a cidade, para desempenhar trabalhos urbanos, em geral ligados ao comércio.

A imigração de italianos para o Rio de Janeiro, por sua vez, foi menos expressiva na época, o estado não estava entre os destinos mais visados. Inicialmente, Dom Pedro II desencorajava o desembarque de imigrantes na capital. Segundo relatos, o motivo era segregatório, ou seja, o imperador acreditava que misturar os imigrantes, que chamava de “negros de pele branca”, depreciaria o local. Foi apenas depois de seu casamento com Dona Teresa Cristina, italiana, que seu comportamento mudou.

Apesar disso, o contingente de italianos no Rio não pode ser considerado pequeno. Isso porque muitos que chegavam a outras regiões do país, após vivenciarem experiências nesses locais, eram atraídos para a então capital do Brasil, especialmente devido às oportunidades de trabalho. A atração foi tanta que, atualmente, 4% da população fluminense é constituída por italianos e descendentes.

No Rio, assim como em São Paulo, a origem regional dos imigrantes eram as mais diversas. Outra semelhança é o fato de muitos desempenharem funções comerciais. Era muito comum vê-los nos ofícios de jornaleiro, vendedor de pescados, sapateiro e joalheiro, entre outros.

Vestígios cotidianos

A vinda de tantos italianos para o Brasil não foi simplesmente um fato corriqueiro, mas um movimento migratório de notável importância. Dessa maneira, trocas culturais não poderiam ter deixado de acontecer. Tanto os imigrantes italianos sofreram fortes influências da cultura brasileira, quanto os brasileiros foram apresentados a novos aspectos culturais que permanecem em nossa sociedade até hoje. Tal influência ocorreu de maneira massiva e em diversos âmbitos.

A começar pela religião. O catolicismo, principal religião praticada na Itália, foi enraizado em território brasileiro com ajuda de seus imigrantes, que trouxeram ao país diversos hábitos religiosos que aqui não existiam, entre eles, a comemoração de diversas festas e a devoção aos santos.

Até no futebol, esporte de maior prestígio e visibilidade no Brasil atualmente, os italianos deixaram sua marca, criando seu próprio time. Foi em 1914 que italianos de São Paulo decidiram se juntar para – é claro – jogar futebol. O time foi nomeado de Palestra Itália. Durante a Segunda Guerra Mundial, o nome teve que ser trocado, já que o posicionamento do Brasil era contra o Eixo, aliança entre Alemanha, Itália e Japão. O time passou, então, a se chamar Sociedade Esportiva Palmeiras.

Alguns sotaques brasileiros também são resultado da convivência entre italianos e brasileiros. Pode-se dizer que os modos de falar na capital paulista, no sul catarinense, na serra gaúcha e no interior do Espírito Santo foram influenciados pelo sotaque dos italianos quando falavam português.

Não há dúvida, no entanto, que a maior influência foi na área da gastronomia. Hoje, nem percebemos mais que as típicas lasanhas ou macarronadas de domingo são de origem italiana: os pratos já foram completamente incorporados aos hábitos alimentares brasileiros. Mas não foi sempre assim.

Quando chegaram ao Brasil, os italianos que foram para o campo não podiam manter seus hábitos alimentares, já que muitos produtos que cultivavam em sua terra natal não existiam aqui. O milho, no entanto, era um dos alimentos em comum aos dois países, o que permitiu que eles mantivessem o costume de comer as tradicionais broas e polentas. Os imigrantes que rumaram para as cidades, por sua vez, conseguiam encontrar produtos importados de seu país nas vendas e mercados, o que facilitou a manutenção de outros hábitos.

Além disso, muitos voltaram-se para o comércio e, entre eles, uma boa parte apostou no negócio de restaurantes, bares, padarias e açougues. Foi por meio des ses estabelecimentos que, lentamente, os pratos italianos foram incorporados ao cardápio dos brasileiros. Hoje, é impossível pensar nos alimentos mais presentes em nosso cotidiano sem lembrar as pizzas, massas e biscoitos trazidos pelos imigrantes. Sem esquecer que no Natal, é tão comum comermos panetone, que esquecemos que a origem desse doce é também italiana.

Vínculos institucionais

As associações italianas são muito presentes no Brasil. Especificamente no Rio, são cerca de 40, espalhadas por todo o estado. Nas cidades de Petrópolis e Nova Friburgo, a quantidade é maior, mas existem também associações em Niterói e Valença, por exemplo.

Uma associação que merece destaque é o Instituto Italiano de Cultura, localizado no bairro Castelo, no centro do Rio, ao lado do Consulado Geral da Itália (Casa Itália). Órgão oficial do governo italiano, seu objetivo é promover e difundir a língua e a cultura do país. No Brasil, a instituição cultural também tem sedes na Bahia e no Espírito Santo.

O Instituto Italiano de Cultura apresenta-se não só como o lugar ideal para encontro e diálogo entre operadores culturais, mas também como um local onde italianos e estrangeiros nativos podem criar e manter vínculos com o país de origem. Seus projetos envolvem dar suporte a atividades realizadas por embaixadas e consulados, organizar eventos culturais de diversos âmbitos e promover cursos de italiano.

Na mídia, o jornal Comunità Itália se destaca como veículo de informação destinado a italianos no Brasil. O periódico foi criado em 1994, na cidade de Niterói, por um grupo de intelectuais ítalo-brasileiros que sentia falta de uma publicação destinada a eles. Timidamente, o jornal começou a ser distribuído gratuitamente, em preto e branco, principalmente em associações italianas. O grande empreendedor por trás da ideia foi Domenico Petraglia, na época com apenas 18 anos, auxiliado por Julio Vani, seu sócio, de 67 anos.

O jornal foi crescendo e ganhando destaque até que, em 1999, ganhou sua versão online. Além disso, uma editora com o mesmo nome também foi criada, especialmente voltada para a publicação de textos de escritores ítalo-brasileiros, em italiano.

Hoje, o jornal virou revista, e se transformou no principal veículo de comunicação voltado para os italianos no Brasil, já ultrapassando 100 edições. Outro fato impressionante é a tiragem da revista e o número de páginas com conteúdo, que têm aumentado nos últimos anos.

A publicação é bilíngüe, e o idioma da matéria depende do conteúdo abordado, que, por sua vez, é bastante abrangente: as matérias são de assuntos variados, desde que tenham uma influência ou origem na Itália. A Revista Comunità Italiana possui um número de leitores que impressiona, além de ter conseguido publicidade suficiente para se sustentar. O sucesso é tão grande que o editor-chefe afirma que a revista é indispensável para a comunidade.

Andressa Guerra