Gringa. Índia. Ladra de empregos. Essas são algumas das formas pelas quais a boliviana Rosmary Quispe já foi chamada desde que chegou a São Paulo, há três anos, para tentar a vida numa das centenas de oficinas de costura espalhadas pelo Brás, no Centro.
A discriminação, entretanto, não é a pior parte do roteiro de horrores a que foi submetida Rosmary, uma das 21.680 pessoas de origem boliviana que vivem na cidade, a segunda maior colônia de imigrantes de São Paulo segundo o Censo do IBGE de 2010, perdendo só para os portugueses. Entre 2000 e 2010, o número de bolivianos na cidade registrados pelo pelo IBGE aumentou 173%.
“Por não ter documentação, não temos acesso aos serviços de saúde e não conseguimos creches para nossos filhos”, contou ela. “Além disso, somos vítimas de assaltantes e assassinos, porque não temos conta bancária e guardamos nosso pouco dinheiro em casa.”
O enredo narrado pela boliviana fez do menino Bryan Yanarico Capcha, de apenas 5 anos, a mais emblemática vítima. Ele foi morto no fim de junho durante um assalto à sua casa em São Mateus, Zona Leste.
Mas não são só os bolivianos as vítimas de uma cidade que se diz acolhedora, mas muitas vezes oferece sua pior face aos que aqui buscam sobrevivência. A crise econômica da Europa e o real forte têm empurrado trabalhadores estrangeiros, sobretudo os menos qualificados, para o Brasil. Desde 2009 triplicou o número de peruanos no Brasil e quase dobrou a quantidade de paraguaios. São, em geral, imigrantes com baixa escolaridade e pouca qualificação. Bolivianos normalmente trabalham em oficinas de costura e como empregados domésticos; peruanos e paraguaios atuam como ambulantes e operários na construção.
A Secretaria de Direitos Humanos da Prefeitura está preparando um guia de direitos e deveres para os imigrantes, para integrá-los à sociedade e torná-los menos vulneráveis a crimes e doenças. A secretaria também iniciou a conscientização de funcionários públicos, que muitas vezes tratam os imigrantes como pessoas sem direitos, e vai marcar conversas com bancos para facilitar a abertura de contas.
O cônsul da Bolívia em São Paulo, Jaime Valdivia, disse que o consulado vem prestando toda a assistência possível aos bolivianos e que a falta de segurança é da responsabilidade do estado.
Fernando Granato
(Diário de SP – 14/07/2013)
