Pensar em migração, nos leva aos primórdios da humanidade, quando migrávamos em busca de solos mais férteis, em busca de alimentos, ou fugindo de alguma tormenta da natureza.

O Brasil conseguiu impor certa imagem (muitas vezes apenas a imagem) de país receptivo aos imigrantes, independente de qual fosse a motivação da imigração ou origem do imigrante. De qualquer forma, ao longo de sua história recente, foram se constituindo várias comunidades de imigrantes; sendo uma delas a comunidade muçulmana.

Mas, antes de tratar da imigração muçulmana em si, seria oportuno diferenciar as noções de “árabe” e “muçulmano” – geralmente usadas como sinônimos ou equivalentes no dia-a-dia, causando constrangimentos e reforçando preconceitos.

Na verdade, “árabe” se refere aos povos que falam a língua ou pertencem ao chamado mundo árabe – ainda que existam fortes minorias não árabes como os curdos, armênios e berberes nessa área geográfica que cobre o Oriente Próximo e África do Norte. Enquanto é “muçulmano” quem segue os preceitos da religião islâmica, seja qual for a sua língua, raça ou etnia.

Assim, quase 90% dos muçulmanos do mundo não são árabes, mas sim asiáticos e africanos. A maioria dos árabes, em compensação, é de religião islâmica; fato que não se reflete na imigração árabe para o Brasil, já que esta é composta por mais de 90% de cristãos.

No que diz respeito à fé islâmica, lembremos que ela se inscreve na pura tradição abraâmica e se autodefine como continuação do judaísmo e cristianismo.

Seus princípios básicos são o testemunho da fé, isto é, admitir Deus como única e exclusiva divindade (Alá é o equivalente árabe da palavra Deus é não um deus específico); as cinco preces diárias; a caridade (zakat); a observação do jejum e abstinência sexual da alvorada até o pôr do sol durante todo o mês de Ramadã (o nono mês do calendário islâmico); e a peregrinação (haj) para Meca, pelo menos uma vez durante a vida de todo crente que goze de boas condições físicas e disponha de meios financeiros suficientes para a sua realização.

Vale insistir também sobre o fato que muitas das práticas associadas ao islamismo, como a vestimenta feminina, são mais de ordem cultural e conformes às tradições locais dos povos de obediência islâmica, do que normas religiosas expressas no Alcorão – o livro sagrado dos muçulmanos, revelado a seu profeta Maomé, segundo as crenças da segunda maior religião do mundo.

Nas caravelas portuguesas

No registro simbólico, a presença islâmica no Brasil se confunde com a própria chegada da esquadria de Álvares Cabral a Porto Seguro, no dia 22 de abril de 1500.

Entre seus navegadores, se encontravam alguns muçulmanos de origem árabe ou ibérica como Chuhabiddin Bem Májid e Mussad Bem Saté – fato comum naquela época, devido à importância dos navegadores e cientistas muçulmanos, como pode ser atestado pelos arquivos da Escola de Sagres, em Portugal. O comércio com as Índias, em particular, tornava imprescindível a presença de navegadores que dominavam a língua árabe, muitos deles muçulmanos.

Porém, como na época a Igreja Católica impunha a conversão ao catolicismo, especula-se que os muçulmanos (árabes ou africanos) que chegaram ao Brasil, tiveram que se converter e mudar de nome para poder sobreviver.

O próximo registro encontrado sobre a presença muçulmana em terras brasileiras data do inicio do século XIX, época da Guerra Santa no Sudão Central, quando guerreiros adversários capturados eram vendidos como escravos. Assim, vieram para cá grupos de diversas vertentes do islã, inclusive da menos envolvida nos conflitos, segundo o secretário- geral da Academia Brasileira de Letras, Alberto da Costa e Silva (JB 14/11/2001).

Muitos, dos que aqui chegaram, logo se assimilaram ou disfarçaram a sua fé. Outros, porém, principalmente os que dominavam a leitura e escrita em árabe e possuíam importante conhecimento da religião, mantiveram a prática da religião e gozavam de forte prestígio, tanto entre a população de origem africana, quanto aos olhos dos próprios colonos lusos.

Conforme analisou Gilberto Freire em Casa-grande e Senzala (1933): “verdade é que importaram-se para o Brasil, da área mais penetrada pelo Islamismo, negros maometanos de cultura superior não só à dos indígenas como à da grande maioria dos colonos brancos — portugueses e filhos de portugueses quase sem instrução nenhuma, analfabetos uns, semianalfabetos na maior parte.”

Contudo, como as escritas sagradas do islamismo proibiam a escravidão dos muçulmanos, esse grupo, conhecido como “malês”, acabou promovendo vários levantes contra os senhores escravocratas e teve papel determinante no sucesso de vários quilombos do país. O mais conhecido desses movimentos foi a “Revolta dos Malês”, consequência direta da expansão da religião islâmica entre os escravos africanos, principalmente na Bahia. Uma vez reprimida a revolta, muitos participantes, para fugir da perseguição implacável empreendida pelas autoridades na Bahia, vieram para a capital, o Rio de Janeiro.

Em plena belle époque carioca, a presença de muçulmanos não provocava qualquer tipo de alarde, mesmo com seus costumes peculiares. Existiam na cidade várias machacalis (mesquitas domésticas) e apenas no primeiro ano de presença muçulmana no Rio de Janeiro foram vendidos cerca de 100 exemplares do Alcorão para escravos e libertos.

Mas, por ser uma comunidade pequena e com poucos sacerdotes, seus descendentes acabaram se integrando, aos poucos, à paisagem religiosa local. Não seria, portanto, pertinente ligar genealogicamente a atual presença islâmica no Brasil a esse episódio, de certo marcante, na formação da cultura brasileira e afro-brasileira em particular. Hábitos e práticas foram incorporados e continuam vivos no imaginário popular, pela força da miscigenação e dos sincretismos constitutivos da identidade brasileira, mas não são mais reconhecidos ou rotulados como islâmicos ou de matriz muçulmana.

A identidade e cultura muçulmanas voltam ao Brasil a partir do início do século XX, quando o governo brasileiro, promovendo a “purificação da raça” com o estímulo à vinda de europeus, fez tanta propaganda das benesses nacionais, que o país acabou recebendo imigrantes de outros povos e regiões, como do Império Turco-Otomano.

Ainda que a maioria fosse cristã, alguns eram muçulmanos, mas, outra vez, a força de assimilação brasileira acabou apagando grandes segmentos dessa comunidade, antes mesmo que conseguisse se organizar e se auto-identificar como tal. Lesser (2001) relata que, muitas vezes, os nomes dos muçulmanos foram traduzidos para o português ou aportuguesados, transformando os “Taufik” e “Taufil” em “Teófilo” e “Mohammed” em “Manuel”; o que impede o esboço de uma cronologia contínua da presença islâmica no Brasil.

Todavia, um marco significativo no processo de constituição de uma comunidade religiosa islâmica no Brasil pode ser encontrado na fundação da primeira sociedade beneficente muçulmana e na construção oficial da primeira mesquita no Brasil. Durante a Primeira Guerra Mundial, no final do século XIX e início do XX, com a vinda de imigrantes sírios e libaneses para o Brasil, aumentou o número de muçulmanos. Em 1927, foi fundada a Sociedade de Bem-Estar Palestina Muçulmana, em São Paulo, que, com a chegada de outros povos seguidores do islã, teve seu nome modificado em 1929 para Sociedade do Bem-Estar Muçulmano.

Sua primeira sede foi instalada na Rua da Mooca e as orações eram realizadas em algumas salas alugadas na Avenida Rangel Pestana e Barão de Duprat. Dez anos após a sua fundação, a SBM adquiriu o terreno na Avenida do Estado onde foi construída a primeira mesquita do Brasil, inaugurada em 1952. Hoje, são mais de 50 mesquitas e uma centena de centros islâmicos espalhados pelo Brasil.

Mais recentemente, o fluxo imigratório oriundo do Oriente Médio, originalmente de maioria cristã, inverteu-se e passou a ser, majoritariamente, islâmico.

Oswaldo Truzzi explica, a este propósito, que “desde a Guerra Civil do Líbano se tem a tendência a receber árabes de crença muçulmana no Brasil, em particular em São Paulo”. Nem todos os que imigraram mais recentemente, porém, são libaneses. Também vieram muitos sírios e palestinos.

De acordo com Truzzi, os muçulmanos, assim como os cristãos, procuraram o Brasil para crescer financeiramente. “Eles encaram o Brasil como um país propício para ganhar dinheiro”, afirma ele. Mas, diferente dos primeiros, muitos dos que chegaram depois vieram ancorados por parentes que já estavam por aqui.

Para completar o cenário de possibilidade de crescimento econômico, a questão social também ajudou. “No Brasil, eles não têm os problemas de discriminação como em outr os lugares, como Europa e Estados Unidos”.

A tendência entre esses novos imigrantes foi se aglomerar em regiões onde havia uma comunidade islâmica ou árabe formada, como em São Bernardo do Campo, onde funciona uma mesquita, ou mesmo nas proximidades da Oriente, rua de comércio árabe, no Brás, na capital paulista. A maioria teve ajuda da comunidade já instalada. “Havia uma rede já constituída que pôde providenciar emprego, escola, mercadoria adiantada para comercializar”, constata o pesquisador.

A população islâmica no Brasil não é, todavia, exclusivamente árabe. As recentes e atuais levas de imigrantes oriundas da África vêm se juntando à tradicional fonte médio-oriental e reforçando a comunidade islâmica.

No Rio de Janeiro, por exemplo, o sermão de sexta-feira não é mais feito em árabe, mas sim em português, devido à forte presença de senegaleses e outras nacionalidades da África Ocidental e Austral. Provavelmente mais um dado que dificulta a quantificação dessa presença entre nós. Assim, se o IBGE estima a menos de 40 mil seguidores da religião islâmica no Brasil, a Federação Islâmica Brasil avalia que essa comunidade tenha em torno de 1,5 milhão de fiéis.

‘É tudo igual’

Foi justamente na mesquita do Rio de Janeiro que encontrei o presidente da Sociedade Beneficente Muçulmana da mesma cidade – o egípcio Mohamed. O amplo salão destinado às orações é dividido por duas portas: uma para homens e outra para mulheres. Um grande tapete recobre parte do chão e leva às cadeiras, todas voltadas para o altar, é direcionado para Meca, à exceção da cadeira do sheik, voltada para os fiéis.

Enquanto me apresentava ao responsável, todos que passavam no recinto me cumprimentavam com “Salam Aleikoum”. Como era a hora das preces, Mohamed pediu que eu o aguardasse um instante. Foi até um armário e procurou um par de chinelos que coubesse em seus pés e foi fazer suas orações. Todos que chegavam passavam pelo mesmo ritual da troca dos sapatos.

No Brasil há 19 anos, Mohamed escolheu morar no país quando residia na Espanha e se casou com uma brasileira de São Luiz do Maranhão. Dificuldades de adaptação? Nenhuma. Apenas alguns probleminhas com o idioma, mas como já falava francês e espanhol, não demorou a aprender o português.

Ele considera a Sociedade Beneficente Muçulmana do Rio de Janeiro (SBMRJ) muito importante para o cultivo de seus costumes e a prática da religião islâmica. Em geral, para manter contato com seus conterrâneos, usa telefone, internet e, ocasionalmente, viaja para o Egito, “ou eles vêm para cá”.

Para saber das notícias, informa-se pela internet, por canais de TV a cabo e jornais. “Sinto mais liberdade no Brasil. De resto, é tudo igual. Tudo. Tudo igual ao Egito”, explicou ele, apoiando a sua fala por gestos e tons de exclamação. Quando indagado sobre o aspecto da cultura brasileira que incorporou com mais facilidade, logo respondeu: “A simplicidade em viver, a facilidade de lidar com as pessoas. A alegria do povo brasileiro”. Clichê? Talvez. Mas soava sincero.

Segundo ele, apesar de existir um forte apelo da mídia em associar os muçulmanos ao terrorismo, que é terminantemente proibido pelas escrituras sagradas islâmicas, o brasileiro se mostra muito aberto a novas informações, novos jeitos de agir, pensar e se vestir. Da mesma forma, ele diz que também há abertura entre os muçulmanos para se adaptarem ao jeito brasileiro de ser.

Conforme o tempo passava e o horário da oração se aproximava, o salão enchia mais e mais. Mulheres chegavam sem o tradicional véu esperado, usando calças compridas, sapatilhas e blusas de manga. Iam, então, até o banheiro e trocavam-se. Minutos depois, apareciam no salão de saias, blusas longas, véu e chinelo.

Alguns, aparentemente novos, procuravam informações sobre a religião ou se direcionavam até o local da oração e sentavam, apenas observando. “Muitos brasileiros passaram a procurar mesquitas e sociedades muçulmanas depois que o Islã virou capa frequente de jornais, manchete diária dos telejornais e tema de telenovelas. A maioria chega com curiosidade, e alguns acabam se convertendo”, contou Mohamed.

Imagem do islã

O senso comum associa a mulher muçulmana à imagem de extrema submissão ao homem e à violência a que são submetidas, diferente do que está nos preceitos o islã.

Segundo Armstrong (“Em nome de Deus”, 2001), o Profeta Maomé tinha como projeto a emancipação das mulheres, visto que elas tinham direito ao divórcio e à herança. Além de assegurá-las os seguintes direitos:

1) Educação e instrução. Homens e mulheres são iguais e o crescimento intelectual não pode estar preso a uma possível relação de submissão;

2) Individualidade. A mulher é independente e sua personalidade também. Não são inferiores nem superiores aos homens. Para o islã, Adão e Eva erraram e foram perdoados, diferente do que é pregado pelo Cristianismo (onde Eva é considerada pecadora, pois não seguiu o que foi dito pelo criador);

3) Contratar. O islã garante direito em assumir empreendimentos, ter ganhos e posses independente dos homens;

4) Expressão. As mulheres participavam de discussões com o Profeta, suas opiniões eram levadas em consideração e não podiam ser desrespeitadas;

5) Sexualidade. As mulheres muçulmanas são sexualmente ativas e isso justificaria práticas de confinamento e uso do véu.

Pode-se relacionar o modo como o senso comum lê o comportamento da mulher muçulmana à emergência da vertente fundamentalista no século XX. Tal termo é usado para se referir àqueles que seguem literalmente o que está no livro sagrado. Hoje em dia, o termo é associado aos muçulmanos que tentam implementar um estado islâmico.

A religião muçulmana requer dedicação de seus fiéis e é, tradicionalmente, oposta aos costumes brasileiros. Provoca certo choque andar no centro da cidade durante o verão e se deparar com uma mulher usando saias longas, blusas de manga comprida e véu. Nada disso, porém, impediu que os praticantes do Islã se fixassem no Brasil, se adaptassem a nós e nós nos adaptássemos a eles – mesmo sem percebermos.

Ruana Corrêa