Imigrantes relatam histórias, busca por vida nova e a escolha por Manaus.

Uma cidade com um povo acolhedor, assim Manaus é definida por quatro estrangeiros que reconstruíram as vidas na cidade após deixarem para trás os países de origem. Apaixonados pela capital amazonense, eles relataram as experiências vividas em solo manauense e os momentos marcantes no novo lar.

Para a haitiana Gloriane Aimabree, de 30 anos, Manaus representa o recomeço. Assim como milhares de haitianos, a professora teve a vida transformada depois que o terremoto de 2010 assolou o Haiti. Na época, Gloriane morava na capital Porto Príncipe juntamente como o marido e quatro filhos, sendo três meninos e uma menina, que atualmente tem respectivos nove, sete, cinco e três anos de idade.

Diante das adversidades com alimentação, trabalho e educação, a haitiana teve que deixar o país para buscar a sobrevivência de toda família no Brasil. Em Manaus, Gloriane reencontrou a mãe, que também saiu do Haiti e encontrou a esperança mesmo com as dificuldades causadas pelo idioma.

Desde 2010 ela está na cidade buscando reconstruir a vida para trazer os filhos e o marido. Há três meses ela atua como cuidadora na Casa de Apoio às Crianças filhos de Migrantes. No projeto, que é desenvolvido pela Paróquia de São Geraldo, a professora retribui a ajuda recebida e auxilia nos cuidados aos 18 filhos de imigrantes haitianos atendidos na entidade. Com as economias do novo trabalho ela planeja trazer a família para Manaus.

Após os três últimos anos residindo em Manaus, Gloriane considera a cidade um novo lar. Ela é enfática ao destacar os aspectos mais importantes da capital amazonense: “É um povo maravilhoso, por isso não voltei para o meu país. Fui bem acolhida. Um povo que gosta de ajudar. Antes de trabalhar na Casa de Apoio, cheguei a vender rosquinhas na rua e as pessoas sempre tentavam ajudar mesmo quando não queriam as rosquinhas, isso me deixou mais feliz”, comentou Gloriane Aimabree.

Logo após o terremoto em janeiro de 2010, o jornalista haitiano Jackson Augustin, de 31 anos, também se separou da família ao migrar para o Brasil. Embora tenha residido em São Paulo durante 22 dias, foi em Manaus que o imigrante se deparou com a oportunidade de reconstruir a vida interrompida pela tragédia. Na capital, conseguiu diversos empregos e atualmente é assistente comercial do Banco Rendimento, o que possibilitou a vinda da esposa grávida. Jackson tem uma ligação forte com a cidade, principalmente porque os dois filhos do casal haitiano nasceram em Manaus.

Agora ao lado dos dois filhos e da esposa, o jornalista não pretende deixar o novo lar manauara. “Sinceramente acho Manaus uma cidade tranquila, que eu gosto muito. Passei por São Paulo, mas devido à criminalidade resolvi morar em Manaus. Meu sonho agora é comprar uma casa na cidade”, ressaltou Jackson Augustin.

Já para colombiano Hernán Gutiérrez Herrera, de 24 anos, Manaus foi paixão a primeira vista. Isso porque, em 2008 ele e a família deixaram Bogotá para morar em São Paulo. A estadia em Manaus que seria temporária e somente para adaptação ao novo país se tornou definitiva.

“Acabamos ficando porque na época as outras capitais brasileiras, principalmente as da Região Sudeste registravam grandes índices de violência. Nós estávamos saindo de uma fase de violência na Colômbia e queríamos um local mais pacífico para morar como Manaus. Encontramos emprego rapidamente e essa oferta de oportunidades também ajudou muito na nossa escolha de morar aqui”, relembrou o colombiano.

A acolhida e ato de ajudar os novos moradores estão entre as características mais positivas de Manaus mencionadas pelo colombiano radicado no Amazonas. “Manaus tem uma população acolhedora. Eu nunca sofri preconceito e não fui destratado por ser estrangeiro. Pelo contrário as pessoas se esforçavam para entender o que eu falava e me ajudava nessa fase difícil para me comunicar. Por isso percebi que a população manauara é acolhedora e compreensiva”, contou Gutiérrez.

A família do colombiano conseguiu recomeçar a vida no Amazonas. O pai e a mãe são autônomos, atualmente residem em Manacapuru, mas os irmãos ainda permanecem em Manaus. Após sete anos em solo manauense, o colombiano avaliou que a cidade também oferece uma gama de oportunidades no mercado de trabalho.

Na capital, Hernán Gutiérrez ingressou no curso de jornalismo e ainda passou a ser editor de imagens. Pelas vivências marcantes o colombiano disse que Manaus representa uma segunda família. “Aqui foi onde me casei no ano passado com minha esposa que é brasileira e manauara. Minha filha Emily Victória, que hoje tem seis meses também nasceu em Manaus. Embora goste muito do meu país e esse amor patriota nunca se acabe, sinto que devo permanecer aqui por tudo que já vivi, pelos amigos e a família que conquistei”, resaltou Hernán Gutiérrez.

A vinda para Manaus também foi um marco na carreira profissional e na vida do treinador de futebol português Paulo Morgado, de 38 anos. A ligação do treinador com a cidade surgiu com o futebol. Em 2011, ele saiu de Lisboa para assumir o cargo de técnico do Atlético Rio Negro Clube. Até chegar o atual Manaus Futebol Clube, Morgado passou ainda pelo Fast Clube e Penarol. De acordo com Paulo Morgado, o principal desafio não foi ganhar a confiança dos jogadores. A única dificuldade que ele enfrentou foi se adaptar ao calor.

“Mesmo com forma de trabalhar e organização diferente, com tempo houve adaptação tranquila. É um povo acolhedor e fui bem acolhido. A área da Ponta Negra é a que eu gosto mais e tem muito a ver comigo. Por ser banhada pelo rio me faz lembrar o mar em Portugal. Gosto muito também do interior do Amazonas, principalmente Manaquiri e Itacoatiara”, revelou Paulo Morgado.

Além de marcar a carreira como técnico de futebol, Manaus ainda foi importante na vida do imigrante português. Em solo manauense Paulo Morgado conheceu a esposa Munique Aguiar, com quem teve uma filha Daniela, que tem quase um ano de idade.

Adneison Severiano

(G1 – 18/10/2013)