Mogi das Cruzes na visão da italiana Aldina Maria Rossi – 93 anos e uma memória impecável.
Aos 93 anos e dona de uma memória invejável, a italiana Aldina Maria Rossi, a dona Dina, guarda lembranças da Mogi das Cruzes do início da década de 40. Filha dos imigrantes Giusseppe e Letizia Guazelli, ela nasceu na cidade de Chiozza, na região da Toscana. Aos 2 anos, como o patriarca já tinha vindo para o Brasil em busca de oportunidades de trabalho, ela embarcou com a mãe e dois irmãos – Laurindo e Primácia (os outros três – Quintilho Constantino, Olga e Xesto Alfredo nasceram no Brasil) em uma viagem de 18 dias a bordo de um navio até o Porto de Santos.
A primeira morada no País foi em São Bernardo do Campo, na região do ABC, onde o pai trabalhava na produção de carvão. De lá, a família se mudou para Lavrinhas, no Interior de São Paulo, perto da divisa com o Rio de Janeiro, onde vivenciou os conflitos da Revolução Constitucionalista de 1932. Em 1942, vieram para a região rural de Casa Grande, que na época pertencia a Mogi das Cruzes, onde Dina conheceu o marido, Otávio Rossi, que trabalhava com o transporte de madeiras também para a produção de carvão.
Casada, morou em Biritiba Mirim e Salesópolis, até que em 1954 veio para a casa da mãe, no Bairro do Socorro, e dois anos depois foi para o número 1.387 da Rua Professor Flaviano de Melo, em frente ao Teatro Municipal, onde ficou 40 anos. Ali, acompanhou de perto as atividades da Igreja do Carmo, onde as filhas participavam do movimento denominado Cruzada Eucarística, e do Lactário – que lhe rendeu o título de Cidadã Mogiana entregue pela Câmara Municipal -, além de coordenar as revendedoras de produtos da Avon e Christian Gray.
Na entrevista a O Diário, dona Dina, que há 15 anos mora na Vila Oliveira, compartilha suas histórias vividas na Cidade.
A senhora nasceu na Itália. Por que a vinda para o Brasil?
Primeiramente, meu pai (Giusseppe Guazelli) veio para cá em busca de melhores oportunidades, como a grande maioria dos imigrantes italianos que viajava ao Brasil naquela época. Ele conseguiu emprego em uma roça, na cidade de São Bernardo do Campo, na região do ABC, onde trabalhava com a produção de carvão. Depois de um tempo, quando eu estava com 2 anos, minha mãe (Letizia Guazelli) também deixou a Itália comigo e meus irmãos Laurindo e Primácia (os outros três – Quintilho Constantino, Olga e Xesto Alfredo – nasceram no Brasil). Viajamos 18 dias na terceira classe de um navio e chovia muito durante o trajeto. Chegamos em Santos e de lá fomos para São Bernardo. Moramos em um local bem no meio do mato e ali fiz apenas até o quarto ano do curso primário. Depois não tive mais oportunidade de continuar os estudos porque precisava ajudar meu pai.
Onde mais a família morou antes de chegar a Mogi das Cruzes?
De lá fomos para Lavrinhas, uma cidade que tinha mil habitantes, localizada após Cruzeiro, quase na divisa de São Paulo com o Rio de Janeiro. Lá havia duas fábricas, uma que matava porcos e os levava para o Rio e outra de laticínios. Meu pai abriu um armazém que tinha de tudo um pouco e eu o ajudava no comércio. Lembro que não se vendia as mercadorias em sacos de 1 ou 5 quilos. Elas ficavam em grandes sacas e eram pesadas na balança, na hora da compra. Foram 11 anos nesta cidade, onde vivi bons momentos ao lado da família, mas houve um episódio que ficou marcado.
Qual?
Em 1932, na época da Revolução (Constitucionalista), nós morávamos em Lavrinhas. Eu tinha 12 anos e me recordo dos soldados andando pelas ruas, no meio do povo. Todo mundo ficou com medo daquele clima de tensão e a cidade foi se esvaziando. Nós, estrangeiros, não conhecíamos quase ninguém e ficamos por lá até quando começaram a cair bombas em cima da nossa casa. Automóveis eram raros e apenas três pessoas na Cidade os tinham. Conseguimos um caminhão, pegamos algumas trouxas de roupas e fomos para Cruzeiro. Ficamos na casa de um delegado, depois seguimos para Jacareí, onde passamos três noites, e continuamos em direção ao Brás. Ali, em um cinema que havia fechado, o Governo abrigava muita gente, dando apenas um colchão e cobertor. Como minha irmã já havia se casado e morava na Mooca, meu cunhado veio nos buscar e ficamos na casa deles até terminar a Revolução.
E depois?
Voltamos para Lavrinhas, onde o armazém do meu pai tinha sido saqueado e não havia mais nada. No quintal da nossa casa, o mato cresceu tanto que existiam até pulgas. Com apenas 1,5 mil Réis no bolso, ele comprou algumas coisas e começou a fazer a vida de novo. O pessoal anotava as compras na caderneta e pagava no final do mês, quando podia. A situação se complicou bastante. Ficamos lá até 1942, quando ele resolveu vir para uma área de mata inexplorada, na região de Casagrande, que na época pertencia a Mogi das Cruzes. Ali meu pai deu continuidade ao trabalho com carvão. Não havia conforto algum, mas meu tio Pelegrini tinha uma serra e fez uma casa grande e caprichada, perto de uma bica de água. Chegamos a ter vacas , porcos e galinhas. Foi lá que meu pai morreu.
Onde a senhora conheceu seu marido?
O Otávio também era italiano e veio de lá em 1920, após cumprir o serviço militar. Ele tinha caminhão e coordenava o pessoal que transportava a madeira em tora, que saía das terras do meu pai com direção a São Paulo, para ser usada na produção de carvão. Quando me casei, minha família continuou no sítio em Casa Grande, mas eu fui morar a 40 quilômetros de Biritiba Mirim, onde nasceram minhas filhas Marli e Emília. Depois, em Salesópolis, tivemos a Vanilda. Já em 1954, viemos para a casa da minha mãe, no Bairro do Socorro, em Mogi, e dois anos depois, fomos para a Rua Professor Flaviano de Melo, 1.387, ao lado do Teatro Municipal, onde moramos 40 anos. Ali nasceu a quarta filha, Sandra, em 1959.
Como era a região do Socorro na década de 50?
Por lá havia muitas chácaras e mato por todos os lados. Já existia a Igreja (Nossa Senhora do Socorro), mas onde hoje está o Shopping, era uma grande área livre. No local ocupado hoje pelo D’avó (Hipermercado) ficava uma chácara onde japoneses plantavam flores, como copo de leite, ao lado do Córrego Lavapés. Já a Flaviano de Melo era uma área residencial e as crianças brincavam tranquilamente na rua, durante o dia e também à noite, porque quase não passavam carros por lá. Nós costumávamos fazer compras no armazém de secos e molhados do Euclides Ferreira, no Mercadão ou na feira que era realizada em frente à nossa casa, depois passou para o Largo 1º de Setembro (Francisco Ribeiro Nogueira) e hoje funciona no Shangai (Centro Cívico). O Teatro ficava em frente, durante um tempo funcionou como Câmara Municipal e contam que, na época da Revolução, foi ponto de distribuição de mantimentos à população, já que faltavam muitos alimentos e os disponíveis eram racionados.
O que mais havia no Centro?
Já havia a Casa São João e a Lojas Sucena, onde eu comprava os materiais para fazer as roupas das minhas filhas na máquina de costura que meu pai comprou quando eu tinha 21 anos. Até hoje ainda costuro nela, que está comigo há 72 anos. Na região do Carmo, já havia o Largo e o Casarão, onde funcionou o Velório Municipal e a Biblioteca Pública. Sou católica apostólica romana e participava da Igreja do Carmo, onde minhas filhas faziam parte da Cruzada Eucarística. Também íamos sempre às missas e quermesses da Festa de Nossa Senhora do Carmo.
Em quais outras regiões da Cidade a senhora morou?
Depois de 40 anos morando na Flaviano de Melo, onde tínhamos vizinhos como a família Lunardi, Thereza e Seiji Nomura, Elza Alvarenga Lima, Adelaide e Inês Faria, Ivone Aparecida de Almeida Melo, Vicente e Zulmira Braga, Berenice Campos, entre outras, eu e minha filha Vanilda fomos morar em um apartamento no Socorro. Começaram a surgir muitos estabelecimentos comerciais na Flaviano e poucos moradores continuaram lá. Mas não nos acostumamos ao apartamento e, há 15 anos, estamos na casa da Vanilda, na Rua José Urbano Sanches, na Vila Oliveira.
Carla Olivo
(O Diário – 27/10/2013)
