Sementes Migrantes – Histórias de vida de migrantes no Rio de Janeiro

As sementes são estruturas fundamentais para a natureza. A partir delas ocorre a dispersão das espécies que — por meio do vento, da água e de diferentes animais — se locomovem e irão germinar em outros locais. Isso faz com que não fiquem dependentes de um bioma específico e assim possam garantir a continuidade da vida. Assim como esses pequenos grãos, os seres humanos também se deslocam. Movidas pelas mais diversas causas, essas pessoas buscam desbravar novos horizontes. “Sementes Migrantes – Histórias de vida de migrantes no Rio de Janeiro” contará histórias de pessoas que nasceram em outras latitudes, mas que aqui fizeram germinar seus projetos de vida, autonomia e dignidade. Muito além de garantir a própria subsistência, elas assumem papéis de liderança nas suas comunidades, se organizam e constroem redes de apoio para migrantes e brasileiros. Elas enfrentam os desafios da migração e do trabalho informal, sendo, também, sementes de luta. Nessa série, conheceremos suas trajetórias, projetos e sonhos.
“Sou conhecida como Ingrid da Harina P.A.N. Vendo produtos da Venezuela. Faço parte de Sabores do Mundo e da ALi (Associação de Lideranças Migrantes)”. Assim se apresenta Ingrid Rangel, venezuelana vivendo no Brasil há mais de uma década. Ela chegou ao Brasil em 2011, vinda da Colômbia, com o marido colombiano e a filha. “Entramos por Boa Vista, depois Manaus, depois viemos para cá.” Muito antes de existir a Operação Acolhida e o processo de interiorização, a família migrou para o Rio de Janeiro por conta própria.
Quando perguntada sobre o porquê dessa escolha, ela diz “Porque o Rio é o Rio”. Mas acrescenta que veio pensando em melhores oportunidades de trabalho. Trabalhando com comércio ambulante desde a chegada ao Brasil, encontraram no Rio de Janeiro a possibilidade de aumentar as vendas nas praias: “No verão tem trabalho para todo mundo. Você vai pra praia e, se quiser vender água, vende água. Se quiser vender passeio, vai em qualquer agência, eles te dão um bilhete e você distribui na praia. Se quiser, comprar pra vender biscoito, picolé…”
A cidade, no entanto, também expõe contradições. As oportunidades que o turismo oferece para trabalhar convivem com operações da prefeitura que confiscam mercadorias de ambulantes. Hoje, os vendedores enfrentam a hostilidade da Guarda Municipal, que vem sendo denunciada pelo MUCARJ e outras organizações de migrantes. Inclusive Ingrid relata um caso chocante:
“Conhecemos um rapaz há alguns meses, colombiano, que vende papas rellenas. Tem uma bicicleta e montou um esquema para fritar as papas, né? No mês passado, a Guarda Municipal estava incomodando, passando e recolhendo tudo. Ele saiu correndo com a bicicleta e caiu — o óleo estava fervendo. Queimou completamente o braço, o rosto (…) Às vezes, essas são as dificuldades que enfrentamos. Ele só queria ganhar o pão dele, levar comida pra casa. Tem três ou quatro filhos pequenos, se não me engano.”
Há anos que Ingrid não trabalha mais na praia. Ela e o marido passaram a vender produtos alimentícios venezuelanos, como a Harina P.A.N., ingrediente principal das arepas, comida típica da Venezuela e da Colômbia. Na verdade, Ingrid tem sido uma figura fundamental na preservação dos hábitos alimentares de migrantes no Rio de Janeiro, sendo a primeira — e até hoje uma das poucas — distribuidoras de Harina P.A.N. na cidade.
Seu trabalho atrai conterrâneos colombianos e mexicanos que dependem da farinha de milho pré-cozida para preparar arepas e tacos. Ela também fornece o produto para restaurantes e pessoas que se dedicam à venda de comidas típicas. Além da venda destes e outros produtos, como malta e biscoitos, Ingrid participa de feiras gastronômicas preparando e comercializando comidas colombianas e venezuelanas.
Uma das barreiras mais desafiadoras para Ingrid no processo de migração foi a língua: “Aprendemos português na rua, conversando com as pessoas. Hoje em dia tem curso, tem capacitação, mas na época não sabíamos nada sobre isso”. A regularização migratória também representou um grande obstáculo:
“Quando chegamos não sabíamos nada sobre documentos. Com o tempo fomos então procurando entender como funcionava para tirar a documentação, como era cada processo. A partir daí veio aquela curiosidade de aprender. Meu esposo e eu tínhamos que pagar algumas multas porque não sabíamos como funcionava. Imagina, já era difícil trabalhar e lidar com o dia a dia, e ainda por cima, se a gente quisesse sair do país para visitar a família e voltar, tinha que pagar essa multa. Até que conhecemos a Cáritas, que nos orientou.”
Tendo descoberto esses fatos em primeira mão durante a própria experiência migratória, aprendendo sobre os seus direitos e se aproximando de organizações, Ingrid passou a acoselhar seus clientes e colegas. A participação em projetos de formação e articulação política foi um ponto de virada.“Fui à Cáritas, fiz vários cursos, dentre eles de liderança e empreendedorismo. Depois fui me envolvendo com projetos, eventos, oficinas, e agora sou porta-voz da Associação de Lideranças Migrantes”, conta.
Hoje Ingrid atua informando sobre regularização migratória, acesso a serviços públicos e enfrentamento da xenofobia. Para ela, as leis e políticas públicas voltadas às pessoas migrantes no Brasil são positivas, mas sua efetividade muitas vezes depende do conhecimento delas por parte dos funcionários que as aplicam, além de outros fatores, como racismo, xenofobia e falta de recursos públicos. Ingrid ressalta que essas questões não afetam apenas os migrantes, mas a sociedade brasileira como um todo, embora, para quem vem de fora, algumas barreiras possam ser ainda maiores:
“Esse é um tema que comentávamos esses dias: se para os brasileiros já está difícil, imagina para nós, migrantes. Porque, na verdade, quando conhecemos nossos direitos, sabemos que sim, temos os mesmos direitos que os brasileiros em relação à saúde, Bolsa Família, educação. Só que às vezes dificultam bastante, especialmente quando você chega, por exemplo, num banco para abrir uma conta. Se a pessoa que está ali atendendo não tem conhecimento, ela diz que você não pode abrir a conta. É aí que entra o papel que queremos assumir: levar esse tipo de informação para quem estiver buscando seus direitos.”
O ativismo de Ingrid também se expressa em sua participação no projeto Sabores do Mundo, iniciativa idealizada por Margarita Cuero, formada por migrantes de diversos países que vendem produtos típicos dos seus lugares de origem em feiras e eventos culturais. “Queremos levar nossa cultura, nossa culinária, abrir portas para as pessoas que, quando estão chegando, sabem que é um pouco mais difícil.” Mais do que isso, elas querem construir uma rede de apoio: “Desde o que limpa até o que manda, em um só círculo, que possamos ser ouvidos, apoiados, e levar sustento para casa”.
A proposta é mais ampla que o comércio de alimentos: “Sabores do Mundo não é só culinária, é cultura, é artesanato, é expressão. Não é só vender, é compartilhar experiências e memórias dos nossos países”. Com essa intenção o coletivo imagina também ações voltadas à saúde mental, assistência social e acolhimento: “Tem pessoas que vêm com traumas, com depressão. Queremos cuidar disso também”.

A trajetória de Ingrid revela a potência das redes que ela mesma ajuda a tecer. Da Harina P.A.N. que vira arepa até a informação que garante um direito, ela continua firme no seu propósito: “o de nos ajudarmos, seguirmos em frente e entendermos que todos estamos aqui por uma mesma causa”.
Para acompanhar o trabalho de Ingrid siga: @harina.pan



