No dia 12 de janeiro de 2010, um terremoto de magnitude 7 na Escala Richter devastou o Haiti, causando a morte de 200 mil pessoas e deixando 1,5 milhões desabrigadas. Considerado pela Unicef como um dos maiores desastres naturais das últimas duas décadas, o terremoto e as crises decorrentes dele seguem tendo um impacto na sociedade haitiana e nas comunidades de imigrantes espalhados pelo mundo.
Dos milhões de haitianos vivendo fora do seu país natal, dados da OIM estimam que 150 a 200 mil tenham escolhido o Brasil como lar. Pode não parecer uma população expressiva diante dos mais de duzentos milhões vivendo no Brasil, entretanto, a frieza dos números ofusca as histórias e as lutas de cada um desses haitianos. Por mais que as mídias audiovisuais possam funcionar como uma via para a divulgação dessas narrativas e vivências (do cinema até as próprias redes sociais), a superexposição da imagem e voz de pessoas é uma preocupação legítima.

Nesse contexto, as histórias em quadrinhos surgem como uma mídia alternativa para o registro das experiências de migrantes e pessoas em situação de refúgio. Apropriando-se de técnicas narrativas pictóricas e verbais, as HQs preservam os relatos ao mesmo tempo que criam figuras icônicas de apelo universal. Afinal, como afirma o teórico Christoph Wulf em Homo Pictor: imaginação ritual e aprendizado mimético no mundo globalizado (2013, pg. 32), a ilustração seria uma das “(…) capacidades antropológicas mais fundamentais” do ser humano. Das primeiras pinturas rupestres às caricaturas digitais, humanos não se ilustram apenas para criar registros de si mesmos, mas para se reconhecerem como parte da humanidade.
Esse é o esforço empenhado pelo jornalista Enio Lourenço e o ilustrador Adriano Kitani na webcomic O Haiti é aqui (2016), HQ jornalística publicada no site da Agência Pública em 2016. Por meio de ilustrações expressivas e uma contação de história dinâmica, a dupla produz uma autêntica reportagem em quadrinhos, entrevistando e acompanhando o cotidiano de três imigrantes haitianos vivendo em uma pequena comunidade em Santo André, São Paulo.
Na minha dissertação de mestrado pelo Programa de Mídias Criativas da UFRJ (PPGMC), HÁ REFÚGIO NOS QUADRINHOS? As HQs como mídia para a narração de experiências de imigrantes e pessoas em situação de refúgio no Brasil, realizo uma análise crítica detalhada da HQ juntamente com uma série de outras HQs brasileiras e estrangeiras sobre imigração e refúgio.

Durante a escrita, entrei em contato com Kitani e Lourenço com o interesse de entender os bastidores da produção da HQ, além das reflexões que tinham a respeito do projeto quase uma década após sua publicação. Em dezembro de 2025, realizamos uma entrevista gravada. Abaixo, seguem alguns trechos transcritos da entrevista:
- Por que a escolha da imigração haitiana, especificamente?
R (Kitani): Há uma comunidade grande haitiana no ABC Paulista. Em Santo André, especificamente, tem um bairro que recebeu um grande fluxo de imigrantes haitianos. A gente veio do ABC, né? Então, a gente queria ter contato com imigrantes que estivessem próximos da gente.
R (Lourenço): Eu era editor de um jornal chamado “Rede Brasil Atual” e chamei o Adriano para chamar de cartunista, isso em 2013, e eu lembro que a gente voltava de trem e ia conversando a respeito de jornalismo em quadrinhos, de produzir algo além das tiras que ele vinha produzindo. Aí você (Kitani) me trouxe as referências, Joe Sacco. Por acaso, descobrimos essa comunidade de haitianos num jornal aqui do ABC, vimos que estavam participando de uma escola de cinema aqui em Santo André. Então, pegamos esse gancho.
- Como foi feito o contato entre vocês e os entrevistados do Haiti?
R: (Lourenço): Depois que vimos a reportagem sobre os haitianos na Escola Livre de Cinema e Vídeo de Santo André (E.L.C.V), marcamos com alguém da Secretaria de Cultura de Santo André, que deixou a gente entrar na escola para fazermos o primeiro contato. Nesse primeiro contato, a gente apresentou a proposta do quadrinho para dois ou três haitianos. Se não me engano, nem todos aceitaram fazer a entrevista.
R (Kitani): É, o primeiro foi o Pierre, né? Que falou com a gente.
R (Lourenço): Sim, ele declinou.
R (Kitani): É, às vezes, até por uma questão de língua mesmo. Muitos nem sabiam bem o português. Eu conseguia falar um pouco de francês com o Wilbert, que nos apresentou a igreja. Aí chegamos a três entrevistados, a menina que queria ser médica, Kidny, o Wilbert e o Elie.
R (Lourenço): Aí, o Adriano, me corrige se eu estiver errado, mas pelo que lembro, entre o tempo em que entramos em contato com a escola e realizamos a primeira entrevista, foi um mês. Alguns haitianos diziam que canais de TV haviam entrado em contato com eles e que estavam fazendo uma certa exploração da miséria, sabe? Sensacionalismo.
- Quais foram as fases da produção da HQ e quanto tempo demorou todo o processo?
R (Kitani): Primeiro teve aquele contato com a Agência Pública. Não lembro se já tínhamos algum material pronto naquela época, mas fizemos a proposta, um roteiro inicial, para apresentar. E quando ocorreu a aprovação, eles nos deram um prazo. Aí, fomos até o escritório deles para conversar, eles gostaram da proposta. Se não me engano, o prazo que nos deram para publicar foi de seis meses. Aí, eu me lembro que teve o processo inicial da entrevista. Alguns, a gente ia encontrar eles no local de trabalho, alguns foram na igreja. Entrevistavamos, eu levava um caderno para fazer o retrato deles, tirava fotos para fazer ilustrações, tirava fotos dos ambientes para ter alguma noção de onde a entrevista tinha sido feita. Aí, a gente se juntava depois para montar um roteiro, o esqueleto do quadrinho. Porque tinha toda a questão de juntar o texto com a imagem, que foi uma coisa que demandou um bom tempo. “Ah, essa página está com muito texto, vamos passar para a outra.” Foi uma coisa bem conjunta.
R Lourenço: Nos primeiros meses, fizemos bem devagar. Fizemos entrevistas mais longas. Aí, virou o ano, demorou oito meses, fiz a conta aqui. Começamos as entrevistas em abril ou maio, e depois precisamos acelerar a produção.
Kitani: Demorou um tempo para começarmos a produção, estávamos com o material muito cru.
Lourenço: Uma coisa importante de dizer é que demoramos muito tempo para conseguir a confiança dos entrevistados. Achavam que íamos aparecer lá uma vez e ir embora, mas não. Fomos lá uma, duas, três… acho que foram cinco ou seis encontros no total.
Kitani: Uma vez fomos super cedo encontrar o entrevistado lá no ponto do trem. E entramos no horário que ele ia entrar, acompanhamos.
Lourenço: A gente acompanhou a entrada dele pela área do funcionário, depois entramos no mercado como clientes e acho que a gente expôs essas contradições, de como eles tratavam os contratados.
Kitani: Conversamos com o gerente.
Lourenço: Isso. Acho que um argumento inicial do quadrinho é que a gente tinha uma ideia de que os caras, como em qualquer imigração do Sul Global, os brasileiros já tinham um certo olhar de preconceito com eles. Isso foi algo que se confirmou na entrevista. A gente queria entender o porquê. Qual era a situação deles antes do terremoto, qual era a trajetória deles para chegar aqui. A gente demorou até descobrir como estruturar. Lembro que nos meses finais, a gente sentou ali no meu escritório para fazer o roteiro, mesmo. Mas tinha uma dificuldade de construir um fio narrativo. Aí, demos uma sorte de assistir ao filme Os Oito Odiados do Tarantino, né? Tinha saído naquela época.
Kitani: Foi daí que tiramos a questão dos capítulos temáticos, né? Fé, trabalho…
Lourenço: É, aí por temática deu para organizar melhor.

- Para Lourenço, como foi feita a decupagem das descrições dos imigrantes para o roteiro de quadrinhos? E, para Kitani, como foi o processo de transformar as descrições de Lourenço em uma narrativa em quadrinhos?
R (Kitani): Essa parte de transformar a descrição em narrativa foi feita em conjunto, na verdade. Eu apresentava a página e a gente pensava. Às vezes fazia um rascunho rápido de personagem e texto, pensávamos na ambiência. A parte de desenho, em que ilustrei sozinho, ocorreu no último mês.
R (Lourenço): Em relação à decupagem, enquanto estávamos entrevistando, já fazíamos apontamentos do que poderíamos trabalhar. Era um processo manual. Eu sabia mais ou menos o que ia extrair, como jornalista, já pensava enquanto entrevistava. Também tem outro ponto que vale ressaltar que é o fato de eu e Adriano termos uma boa sintonia de trabalho. Já havíamos feito um quadrinho antes sobre os protestos da Copa do Mundo de 2014.
Kitani: “Copa para quem?” para uma revista do Rio de Janeiro, inclusive, Vírus Planetário. Foi em 2013, um ano antes da Copa. Trabalhar com ele no jornal permitiu que eu já pensasse como o texto ia funcionar junto da imagem.
- O Haiti é aqui (2016) não é o único trabalho em quadrinhos que vocês fizeram em dupla, mas é o mais antigo encontrado online. Segundo o site Esquerda Diário, vocês também produziram a HQ Jogo do Trono de Pau Brasil (2016), uma HQ satírica da política brasileira inspirada no seriado Game of Thrones (2011-2019). De que forma escrever e ilustrar uma reportagem em quadrinhos é diferente de se produzir uma obra de ficção?
R (Lourenço): Acho que é importante retomar. Esse trabalho do “Jogo do Trono de Pau Brasil” foi feito em um contexto em que queríamos ter mais trabalho, pois estava no limite da ficção e sátira política. Falamos até com a Revista Galileu, o editor adorou, mas a Editora Globo não quis se envolver com a questão política. A gente queria contar uma história que estivesse no limiar da ficção, mas que ainda se ativesse aos fatos. Até apoiadores que compraram na época sentiram que poderia se tornar um “quadrinho histórico”, de registro de um momento. Então, do ponto de vista de estruturação de roteiro, não é muito diferente do que fazer uma reportagem em quadrinhos como “O Haiti é aqui”.
Kitani: A principal diferença é o tom cômico que a gente queria imprimir no Jogo do Trono. Tem um elemento humorístico que não tem no outro.
Lourenço: Tentar usar o nome das casas do Game of Thrones para associar ao MBL, a outros movimentos políticos. Lembro que assisti a todos os episódios da série em três semanas, tinha tempo na época. Demoramos uns dois ou três meses fazendo até jogarmos no Catarse (site de financiamento coletivo).
Kitani: Ficamos muito tempo na questão da imagem, ilustrando os personagens reais no estilo das pessoas da série. Não sei se pegariam as referências hoje.
Lourenço: Acho que ter feito essa HQ foi mais fácil do que “O Haiti é aqui, pois há um pouco mais de liberdade artística. No jornalismo em quadrinhos não podemos botar palavras nas bocas dos haitianos. Ainda que tenha uns momentos de humor na reportagem, como a representação do patrão do Elie e o gerente do mercado chamando os funcionários de “colaboradores”, não podíamos simplesmente inventar coisas do zero.
- De que modos vocês acreditam que quadrinhos digitais contribuem para o debate público a respeito da imigração no Brasil?
R (Kitani): Hoje, em 2025, não sei como está o público de quadrinhos hoje em dia. Acho que é uma coisa que ajuda a ter um debate, mas ainda é um público nichado, não tem o alcance de um documentário na TV. Por exemplo, acho que para pessoas que estão de fora da nossa comunidade de Santo André podem ficar sabendo que existe essa comunidade de haitianos. Até pessoas que moram em Santo André podem não saber que existe essa comunidade, então, acho que pode gerar esse debate. Mas eu sinto que nos últimos anos, os quadrinhos como mídia têm perdido público. Pode ser impressão minha, uma perspectiva pessimista do meio.
Vitor: No Instagram têm muitos quadrinistas digitais: a Cartumante, que faz tirinhas, o Leandro Assis com a Triscila Oliveira, que produziram as HQs “Confinada” e “Os Santos”, que até furaram a bolha dos leitores de quadrinhos… Mas sim, promover quadrinhos no Brasil sempre vem com suas dificuldades. E parece que o próprio Instagram tem promovido mais conteúdos audiovisuais do que puramente imagéticos, o que não ajuda.
Lourenço: Eu concordo com o Adriano e trago um adicional, Vitor, que é a dificuldade que nosso país tem de ser um país de não leitores. De modo geral, digo, não só quadrinhos. Já é um problema. Me pareceu que o quadrinho poderia ser uma porta de entrada para debater assuntos mais gerais: o tema da Copa, da política e da imigração, por exemplo. Nós representamos o aparato repressor que o estado de São Paulo ia usar em protestos contra a Copa na forma de quadrinhos, algo que a Mídia não estava focando. Acho que os quadrinhos trazem esse diferencial, têm o aspecto visual do cinema, mas também a parte escrita da prosa e do jornalismo. O trabalho do Leandro Assis, que você mencionou, acho sensacional! Mas, vivemos em uma era dominada pela Big Tech. Então, temos que dançar de acordo com o algoritmo.
Kitani: Acho que, naquela época, as pessoas ainda paravam para ler uma história curta nas redes sociais, de oito, vinte páginas. As pessoas acessavam sites, jornais, não havia esse hiperestímulo do Instagram e do TikTok de hoje em dia.

- Houve ou haverá uma publicação impressa de O Haiti é aqui? Caso sim, a HQ foi pensada para ser um produto físico?
R (Kitani): Inicialmente, só digital mesmo. É uma HQ curta, também, então, não estávamos com o plano de imprimir. Fizemos a HQ pensando nela para ser postada no site da Agência Pública, ou seja, adaptado para o digital.
Lourenço: Acho que “O Haiti é aqui” está aí, cumpriu seu papel. Eu e Adriano estamos pensando em voltar, inclusive, a pensar em quadrinhos futuros.
- Vocês receberam retornos críticos, positivos ou negativos, dos haitianos e brasileiros envolvidos na reportagem sobre a HQ?
Lourenço: Dos envolvidos na reportagem, apenas positivos. Acho que extrapolou a bolha que queríamos atingir. Até a Laerte compartilhou na época. Naquele tempo, as publicações não eram tão efêmeras, elas continuavam circulando por um tempo.
Kitani: É, a escola de cinema, por um mês promoveu o quadrinho na página deles, a Secretaria de Santo André também. A gente nem recebeu comentários no Facebook de gente xingando!
Lourenço: Uma pesquisadora também, acho que de ciências sociais, fazendo uma pesquisa sobre imigração, também mencionou nosso quadrinho. Depois, descobrimos que há um verbete na Wikipedia. Acho que o fato de você ter nos procurado hoje mostra que revelamos uma história que estava escondida, né?

- Vocês têm noção se a HQ alterou algo nas vidas de Wilbert, Kidny, Elie ou algum dos outros haitianos com os quais tiveram contato durante a produção da reportagem?
Lourenço: Eles ficaram muito satisfeitos com a dignidade que demos à história deles, sem fazer um retrato estereotipado do que mostramos ser o dia a dia deles. Agora, os caminhos depois, a gente não sabe.
Kitani: Se não me engano, a Kidny não está mais em Santo André, acho que voltou para o Haiti, você soube disso?
Lourenço: Não sei. Mas outro dia passei perto da igreja em que fomos. Na verdade, era um galpão que usavam de igreja. Mas a gente perdeu o contato mesmo, Vitor, não sabemos como está a situação.
- Dez anos depois de publicada, O Haiti é aqui se mantém relevante?
Kitani: Acho que sim. Mesmo dez anos depois, a questão da imigração está sempre em pauta. Acho que a principal coisa que fica dessa HQ é a coisa de quebrar o estereótipo, né? Pessoas, assim, que tinham muito estudo, muito talento. E o estereótipo é o de que as pessoas que migram são desqualificadas, que não servem para nada. E é ao contrário, eram pessoas muito estudadas, a Kidny era médica, o Elie era pós-graduado no Haiti. Então, esse material serviu para desconstruir esses estereótipos que até os brasileiros têm. Essa coisa de que “o Brasil é um país que aceita todo mundo, que não tem preconceito contra imigrantes”. E a gente vê que não é bem assim.
Lourenço: A gente viu como eles fortaleciam suas redes de apoio. Assim, entre eles. Havia pouca abertura com a comunidade local, de Santo André mesmo. A gente fala muito das imigrações europeias, de como eles são recebidos no Brasil. Agora, a gente ouve pouco dos grupos pobres. Especialmente nesse momento de polarização, com extrema-direita ganhando força.
Referências
WULF, Christoph. Homo Pictor: imaginação ritual e aprendizado mimético no mundo globalizado/ Christoph Wulf: tradução Vinícius Spricigo – São Paulo: Hedra, 2013, 216 p.

