Debí tirar más fotos:
Apontamentos sobre o continuum latinoamericano
Debí tirar más fotos de cuando te tuve/Debí darte más beso’ y abrazo’ las vece’ que pude…
Bad Bunny.
…tu tenias mucha razon, le hago caso al corazón y me muero por volver.
Fernando Z. Maldonado
O Contínuo.
A respeito do fenômeno do Bad Bunny e do evento incrível que foi seu show no Super Bowl, acho muito mais interessante o fato de Benito ter 12 músicas no top 200 brasileiro do que a reação de Trump e os MAGA: o primeiro é extraordinário e o segundo, banal. A façanha de ter penetrado na “Fortaleza Brasil” só é possível para aqueles latinoamericanos que, como Shakira, viraram fenômenos globais, “universais” porque não é a simples afinidade cultural a que abre as portas da Fortaleza Brasil, mas o sucesso planetário.
Porém o show me sacudiu um pouco, talvez porque cometi o erro de escutar o álbum Debi Tirar Más Fotos num momento inoportuno: não precisava que ninguém me lembrasse mais uma vez quanto perdi quando saí do Caribe – ou da América Latina, esse contínuo ainda maior que abrange minha língua natal. Talvez vocês achem que Puerto Rico não é Venezuela, mas assim é O Contínuo: O Caribe está cheio de Porto Rico e de Cuba, assim como está cheio de México, e a América Latina está cheia do Caribe; a cumbia, nascida no Caribe colombiano, é a música do povo comum na Argentina, enquanto o Tango é uma tradição na Colômbia. Do o Rio Grande à Patagônia os artistas de dublagem mexicanos de Dragon Ball e Os Simpsons são ídolos, especialmente no Peru, país andino onde também aconteceram alguns dos maiores shows da Salsa na história e onde moram alguns dos grandes arquivistas e historiadores desse gênero.
Então, é impossível não escutar no show do Bad Bunny as primeiras notas de Un Verano en Nueva York do Gran Combo de Porto Rico e não ficar numa espécie de êxtase que, para quem mora no exílio, se mistura com a saudade, a mesma que posso sentir escutando rancheras mexicanas que me acompanharam desde a infância ou o rock argentino que foi o soundtrack de minha juventude. Essa é a vida em nosso contínuo, cheia de amor e ódio, de xenofobia e admiração mútua.
Sempre estou lutando contra a saudade: em política é ruim (a maioria dos que se acham progressistas e até revolucionários são simplesmente escravos de um futuro passado que nunca foi e, portanto, incapazes de enxergar o futuro que pode ser) e na vida, apenas dificulta avançar no tempo e com o tempo se você carrega saudades. Mas aqui, nesta prisão gigantesca, a saudade é mais forte e se confunde com outras emoções mais nobres (é saudade aquele anelo da carne de fechar suas feridas e do corpo de afirmar sua integridade?). Na realidade se mistura num tempero indecifrável: o vício da saudade por aquilo que já se foi e não voltará com o desejo e a vontade de recuperar aquilo presente no tempo, mas ausente no espaço, isto é, recuperar o que ainda é parte de nós, de voltar ao nosso contínuo que não é passado, mas presente. Aquilo que está vivo e nos chama: “Mira, y que pasó contigo?”
Gringo.
Eu nunca pensei que, em algum momento da minha vida, acabaria me tornando um gringo ou que moraria num pais onde peruanos, argentinos ou bolivianos não são considerados americanos. Mas o fato é que somos estrangeiros num país que é estrangeiro em nosso continente, onde um português é considerado mais próximo que um venezuelano ou um uruguaio: só cabe entender que na lógica implacável dos contínuos, o Brasil sempre está perto e além de nós inclusive quando moramos dentro dele. Morar no contínuo lusobrasileiro é esquisito pois não tem, na realidade, muita xenofobia, mas uma grande indiferença para aquele que não é brasileiro. Quando eu não falo, tudo certo. As pessoas às vezes até me fazem comentários casuais nas filas ou no supermercado. Mas ao abrir a boca, viro um desenho de Picasso, um alienígena, mais um dos bilhões de seres inexplicáveis que, apesar de serem humanos, não são brasileiros.
Com o tempo entendi que falar com um sotaque é uma indelicadeza, que, na maioria dos casos, afastar-se do contínuo do português — e do português idiossincrático de Rio — é como se você ligasse uma furadeira elétrica perto dos ouvidos do desafortunado que tem de falar com você…
Meu Deus, que escroto eu sou!!, !!! Quanto demorei para entender isso!!! Lamento pelo desconforto!!!. Pelos meus cálculos, as mulheres jovens têm a tolerância mais baixa e, diante delas, você precisa ter a delicadeza de economizar sua fala, o brasileiro comum — o caixa, o vendedor de salgados, o vizinho de baixo — tolera menos de dois minutos, embora, obrigado pelo mandato de cordialidade, aceite suportar o desconforto por mais tempo, mas não é considerado abo.
Claramente a tolerância de algumas pessoas é maior e até existe o caso de que alguém, por uma mistura de curiosidade e gentileza, voluntariamente, aceite suportar essa furadeira humana nos ouvidos mais tempo! A tolerância aumenta entre aqueles que falam outros idiomas ou já moraram fora. Esse brasileiro que viaja, fala outras línguas ou lida com turistas, ocupa, no contínuo verde-amarelo, um espectro diferente daqueles que moram no Brasil profundo, no contínuo puro do português brasileiro onde nem inglês nem espanhol contaminam ou atrapalham as falas com barulhos esquisitos. Porém, embora o ouvido de alguns esteja melhor treinado, tem um fato que não muda: você dificilmente pode entrar nesse outro contínuo, que é quase impermeável. Não panelinha, mas panelão continental e você precisa de muita fortuna e de muita virtude para se integrar.
Abrir a boca e falar é sempre um problema para os estrangeiros. Os latinoamericanos tendem a ser xenofóbicos, às vezes viciosamente: muitos venezuelanos trocariam o desconforto brasileiro pela raiva e o ódio de muitos equatorianos ou chilenos — e até colombianos!! — ao escutar seu sotaque — tal como muitos venezuelanos ficavam raivosos ao escutar o sotaque colombiano de meus pais — mas é um tanto diferente, porque esse ódio é uma propriedade de nosso contínuo e coexiste, luta e se tempera com esquisitas afinidades, tolerâncias e simbiosis que, em geral, facilitam a integração cultural.
Até a xenofobia é diferente: como já comentei o xenofobico venezuelano precisa de mais seis gírias diferentes (caliche, cotorro, cubiche, pascuzzo, chino, gringo, turco, portu– embora nem todas sejam depreciativas), mas inclusive ele esta acostumado ao fato de que tem outros humanos que não são venezuelanos e que falam linguas diferentes ou falam a sua de um jeito distinto: seu continuo é de fato transnacional embora ele não goste dos membros das outras nações, entanto no continuo brasileiro basta a palavra gringo para classificar aqueles que, como os gaijins e gweilos, dos japoneses e chineses, são alienígenas, alheios, estranhos.
Trilha Sonora
Que, a besos, yo te levante al rayar el día
Y que el idilio perdure siempre al llegar la noche
Y cuando venga la aurora, llena de goce
Se fundan, en una sola, tu alma y la mía.
Quando escutei sobre a morte do lendário Willie Colón comecei a escutar essa música, chamada Idílio, continuamente. Em particular uma bela versão que uma cantaora de flamenco espanhola chamada Argentina interpretou em Cuba: Acho que não é difícil uma representação mais clara do que é nosso Contínuo que de fato tem seu limite ocidental nas Canárias e no Sul da Espanha de onde vieram esses ancestrais que nos deixaram uma versão musical e colorida da língua espanhola. O fato é que não lembro qual foi a primeira vez que escutei Idílio. Talvez tenha sido no rádio, na adolescência, ou talvez logo depois, nos bares e festas de Caracas. O amor e o vício pela salsa, adquiri quando virei venezuelano e vivi com eles e peguei seu sotaque e seus hábitos, bons e ruins. Porém, eu entrei no Contínuo muito antes de virar venezuelano e não só por causa da língua mas das músicas que conheci quase simultaneamente com a língua materna, músicas que, de fato, são sua trilha sonora.
Há muito tempo, nos domingos, meus pais escolhiam algum dos muitos cassettes que tinham e, pela manhã, as músicas tocavam uma após a outra. Não gostava de quase nenhuma, algumas as detestava, mas eu lembro todas as notas e as letras do princípio ao final. Só na facultade entendi que eram das músicas mais extraordinárias do mundo: não era o único e a música latinoamericana dos 90s está cheia de homenagens às músicas com as quais, de crianças, ingressamos numa rede que nos ligava, além de nossos pais e avós, à pessoas de países distantes: meu pai amava o argentino Discépolo e minha mãe ama ao mexicano Vicente Fernandez. Agora, na maturidade e no exílio, às vezes as volto a escutar essas músicas porque escutá-las mais do que levar-me ao passado, me liga com o contínuo que não devia ter abandonado.
Às vezes é Nuestro Juramento de Julio Jaramillo, o equatoriano, que é um bolero, más na realidade, uma peça de Rock que não é rock . No Contínuo, quase todo mundo pode escutar, na sua cabeça, os acordes desta guitarra lendária e a voz melancólica que vem depois…(e de fato, existe uma versão rock.)
No puedo verte triste, porque me mata
Tu carita de pena, mi dulce amor…
Me duele tanto el llanto que tu derramas
Que se llena de angustia mi corazón.
Às vezes é Melodía de arrabal um tango clássico do Gardel que, porém, na casa a gente usualmente escutava na versão do tenor venezuelano Alfredo Sadel
Viejo barrio, perdonar si al evocarte se me pianta un lagrimón,
Que al rodar en tu empedrao es un beso que te de da mi corazón…
Às vezes é Volver, volver, volver, de Vicente Fernandez o Mexicano de voz tão poderosa que o Pavarotti admirava…
Nos dejamos hace tiempo pero me llego el momento de perder
tu tenias mucha razon, le hago caso al corazón y me muero por volver.
Às vezes são outras, as primeiras que encontrei sozinho como Buscando America de Rubén Blades que escutava o tempo todo na adolescência, e contém uma ideia da América totalmente diferente da brasileira, onde não é o nome do nosso continente, mas um simples pseudônimo dos Estados Unidos.
Te estoy buscando America, nuestro futuro espera, y antes de que se nos muera, te vamos a encontrar…
A lista das que eu encontrei na vida seria interminable: tanto rock argentino, tanta música cubana, puertoriqueña e mexicana, mas com frequência, quando lembro essas coisas, escuto as Piedras Rodantes do Tri, que simboliza meu anelo de habitar, o mesmo espaço com esses fantasmas das redes que todos os dias fazem mais leve minha solidão:
Las piedras rodando se encuentran
y tú y yo algún día nos habremos de encontrar.
Mientras tanto cuidate, y que te bendiga dios
No hagas nada malo que no hiciera yo.
Que droga é essa música?!: tenho que escolher bem a dose porque se é muito grande a saudade e a tristeza vai me quebrar… mas se é muito pouco, vou me apagar e ficar desesperado. Essa droga acaba com a distância entre meu corpo e o mundo onde a amizade não é rara e o amor é possível: os amigos me chamam para a mesa e podemos fazer piadas grossas sem temor de ofender alguém e o Gran Combo toca ao fundo e conspiramos uns contra os outros e brigamos e cantamos juntos, bêbados na madrugada…
Mas então a música acaba e me encontro novamente na prisão colossal e abafadora onde cada dia é uma cópia do anterior e onde as alegrias ou são lembranças ou são alheias…Porém, essa música é mesmo um troço do passado e também do que ainda existe… existe e me chama:
¿Qué pasó contigo chico?, andas perdío…que coño haces tú por allá?
E é verdade, estou perdido. Perdi minha America. E, sem ela, nada faz sentido.
Apontamentos sobre o continuum latinoamericano
Debí tirar más fotos de cuando te tuve/Debí darte más beso’ y abrazo’ las vece’ que pude…
Bad Bunny.
…tu tenias mucha razon, le hago caso al corazón y me muero por volver.
Fernando Z. Maldonado

O Contínuo.
A respeito do fenômeno do Bad Bunny e do evento incrível que foi seu show no Super Bowl, acho muito mais interessante o fato de Benito ter 12 músicas no top 200 brasileiro do que a reação de Trump e os MAGA: o primeiro é extraordinário e o segundo, banal. A façanha de ter penetrado na “Fortaleza Brasil” só é possível para aqueles latinoamericanos que, como Shakira, viraram fenômenos globais, “universais” porque não é a simples afinidade cultural a que abre as portas da Fortaleza Brasil, mas o sucesso planetário.
Porém o show me sacudiu um pouco, talvez porque cometi o erro de escutar o álbum Debi Tirar Más Fotos num momento inoportuno: não precisava que ninguém me lembrasse mais uma vez quanto perdi quando saí do Caribe – ou da América Latina, esse contínuo ainda maior que abrange minha língua natal. Talvez vocês achem que Puerto Rico não é Venezuela, mas assim é O Contínuo: o Caribe está cheio de Puerto Rico e de Cuba como está cheio de México e a América Latina está cheia do caribe; a cumbia, nascida no caribe Colombiano, e a música do povo comum na Argentina entanto o Tango é uma instituição na Colômbia. Desde o Rio Grande à Patagônia os artistas de dublagem mexicanos de Dragon Ball e Os Simpsons são ídolos, especialmente no Perú, país andino onde também aconteceram alguns dos maiores shows da Salsa na história e onde moram alguns dos grandes arquivistas e historiadores desse gênero.
Então, é impossível não escutar no show do Bad Bunny as primeiras notas de Un Verano en Nueva York do Gran Combo de Porto Rico e não ficar numa espécie de êxtase que, para quem mora no exílio, se mistura com a saudade, a mesma que posso sentir escutando rancheras mexicanas que me acompanharam desde a infância ou o rock argentino que foi o soundtrack de minha juventude. Essa é a vida em nosso contínuo, cheia de amor e ódio, de xenofobia e admiração mútua.
Sempre estou lutando contra a saudade: em política é ruim (a maioria dos que se acham progressistas e até revolucionários são simplesmente escravos de um futuro passado que nunca foi e, portanto, incapazes de enxergar o futuro que pode ser) e na vida só faz difícil avançar no tempo e com o tempo se você carrega saudades. Mas aqui, nesta prisão gigantesca, a saudade é mais forte e se confunde com outras emoções mais nobres (é saudade aquele anelo da carne de fechar suas feridas e do corpo de afirmar sua integridade?). Na realidade se mistura num tempero indecifrável: o vício da saudade por aquilo que já se foi e não voltará com o desejo e a vontade de recuperar aquilo presente no tempo, mas ausente no espaço, isto é, recuperar o que ainda é parte de nós, de voltar ao nosso contínuo que não é passado, mas presente. Aquilo que está vivo e nos chama: “Mira, y que pasó contigo?”
Gringo.
Eu nunca pensei que, em algum momento da minha vida, acabaria me tornando um gringo ou que moraira num pais onde peruanos, argentinos o bolivianos não são considerados americanos. Mas o fato é que somos estrangeiros num país que é estrangeiro em nosso continente, onde um portugues é considerado mais próximo que um venezuelano ou um uruguaio: só cabe entender que na lógica implacável dos contínuos, o Brasil sempre está perto e além de nós inclusive quando moramos dentro dele. Morar no contínuo lusobrasileiro é esquisito pois não tem, na realidade, muita xenofobia, mas uma grande indiferença para aquele que não é brasileiro. Quando eu não falo, tudo certo. As pessoas às vezes até me fazem comentários casuais nas filas ou no supermercado. Mas ao abrir a boca, viro um desenho de Picasso, um alienígena, mais um dos bilhões de seres inexplicáveis que, apesar de serem humanos, não são brasileiros.
Com o tempo entendi que falar com um sotaque é uma indelicadeza, que, na maioria dos casos, afastar-se do contínuo do portugues — e do portugues idiossincrático de Rio — é como se você ligasse uma furadeira eléctrica perto dos ouvidos do desafortunado que tem de falar com você…
Meu Deus, o que escroto sou!!, !!! Quanto demorei para entender isso!!! Lamento tanto o desconforto!!!. Seguindo meus cálculos, as mulheres jovens têm a tolerância mais baixa e, diante delas, você precisa ter a delicadeza de economizar sua fala, o brasileiro comum — o caixa, o vendedor de salgados, o vizinho de baixo — tolera menos de dois minutos, embora, obrigado pelo mandato de cordialidade, aceite suportar o desconforto por mais tempo, mas não é considerado abusar.
Claramente a tolerância de algumas pessoas é maior e até existe o caso de que alguém, por uma mistura de curiosidade e gentileza, voluntariamente, aceite suportar essa furadeira humana nos ouvidos mais tempo! A tolerância aumenta entre aqueles que falam outros idiomas ou já moraram fora. Esse brasileiro que viaja, fala outras línguas ou lida com turistas, ocupa, no contínuo verde-amarelo, um espectro diferente daqueles que moram no Brasil profundo, no contínuo puro do portugues brasileiro onde nem inglês nem espanhol contaminam ou atrapalham as falas com barulhos esquisitos. Porém, embora o ouvido de alguns esteja melhor treinado, tem um fato que não muda: você dificilmente pode entrar nesse outro contínuo, que é quase impermeável. Não panelinha, mas panelão continental e você precisa de muita fortuna e de muita virtude para se integrar.
Abrir a boca e falar é sempre um problema para os estrangeiros. Os latinoamericanos tendem a ser xenofóbicos, às vezes viciosamente: muitos venezuelanos trocariam o desconforto brasileiro pela raiva e o ódio de muitos equatorianos ou chilenos — e até colombianos!! — ao escutar seu sotaque — tal como muitos venezuelanos ficavam raivosos ao escutar o sotaque colombiano de meus pais — mas é um tanto diferente, porque esse ódio é uma propriedade de nosso contínuo e coexiste, luta e se tempera com esquisitas afinidades, tolerâncias e simbiosis que, em geral, facilitam a integração cultural.
Até a xenofobia é diferente: como ja comentei o xenofobico venezuelano precisa de mais seis gírias diferentes (caliche, cotorro, cubiche, pascuzzo, chino, gringo, turco, portu– embora nem todas sejam depreciativas), mas inclusive ele esta acostumado ao fato de que tem outros humanos que não são venezuelanos e que falam linguas diferentes ou falam a sua de um jeito distinto: seu continuo é de fato transnacional embora ele não goste dos membros das outra nações, entanto no continuo brasileiro basta a palavra gringo para classificar aqueles que, como os gaijins e gweilos, dos japoneses e chineses, são alienígenas, alheios, estranhos.

Trilha Sonora
Que, a besos, yo te levante al rayar el día
Y que el idilio perdure siempre al llegar la noche
Y cuando venga la aurora, llena de goce
Se fundan, en una sola, tu alma y la mía.
Quando escutei sobre a morte do lendário Willie Colón comecei a escutar essa música, chamada Idílio, continuamente. Em particular uma bela versão que uma cantaora de flamenco espanhola chamada Argentina interpretou em Cuba: Acho que não é difícil uma representação mais clara do que é nosso Contínuo que de fato tem seu limite ocidental nas Canárias e no Sul da Espanha de onde vieram esses ancestrais que nos deixaram uma versão musical e colorida da língua espanhola. O fato é que não lembro qual foi a primeira vez que escutei Idílio. Talvez tenha sido no rádio, na adolescência, ou talvez logo depois, nos bares e festas de Caracas. O amor e o vício pela salsa, adquiri quando virei venezuelano e vivi com eles e peguei seu sotaque e seus hábitos, bons e ruins. Porém, eu entrei no Contínuo muito antes de virar venezuelano e não só por causa da língua mas das músicas que conheci quase simultaneamente com a língua materna, músicas que, de fato, são sua trilha sonora.
Há muito tempo, nos domingos, meus pais escolhiam algum dos muitos cassettes que tinham e, pela manhã, as músicas tocavam uma após a outra. Não gostava de quase nenhuma, algumas as detestava, mas eu lembro todas as notas e as letras do princípio ao final. Só na facultade entendi que eram das músicas mais extraordinárias do mundo: não era o único e a música latinoamericana dos 90s está cheia de homenagens às músicas com as quais, de crianças, ingressamos numa rede que nos ligava, além de nossos pais e avós, à pessoas de países distantes: meu pai amava o argentino Discépolo e minha mãe ama ao mexicano Vicente Fernandez. Agora, na maturidade e no exílio, às vezes as volto a escutar essas músicas porque escutá-las mais do que levar-me ao passado, me liga com o contínuo que não devia ter abandonado.
Às vezes é Nuestro Juramento de Julio Jaramillo, o equatoriano, que é um bolero, más na realidade, uma peça de Rock que não é rock . No Contínuo, quase todo mundo pode escutar, na sua cabeça, os acordes desta guitarra lendária e a voz melancólica que vem depois…(e de fato, existe uma versão rock.)
No puedo verte triste, porque me mata
Tu carita de pena, mi dulce amor…
Me duele tanto el llanto que tu derramas
Que se llena de angustia mi corazón.
Às vezes é Melodía de arrabal um tango clássico do Gardel que, porém, na casa a gente usualmente escutava na versão do tenor venezuelano Alfredo Sadel
Viejo barrio, perdonar si al evocarte se me pianta un lagrimón,
Que al rodar en tu empedrao es un beso que te de da mi corazón…
Às vezes é Volver, volver, volver, de Vicente Fernandez o Mexicano de voz tão poderosa que o Pavarotti admiraba…
Nos dejamos hace tiempo pero me llego el momento de perder
tu tenias mucha razon, le hago caso al corazón y me muero por volver.
Às vezes são outras, as primeiras que encontrei sozinho como Buscando America de Rubén Blades que escutava o tempo todo na adolescência, e contém uma ideia da America totalmente diferente da brasileira, onde não é o nome do nosso continente, mas um simples pseudónimo dos Estados Unidos.
Te estoy buscando América, nuestro futuro espera, y antes de que se nos muera, te vamos a encontrar…
A lista das que eu encontrei na vida seria interminable: tanto rock argentino, tanta música cubana, puertoriqueña e mexicana, mas com frequência, quando lembro essas coisas, escuto as Piedras Rodantes do Tri, que simboliza meu anelo de habitar, o mesmo espaço com esses fantasmas das redes que todos os dias fazem mais leve minha solidão:
Las piedras rodando se encuentran
y tú y yo algún día nos habremos de encontrar.
Mientras tanto cuidate, y que te bendiga dios
No hagas nada malo que no hiciera yo.
Que droga é essa música?! Tenho que escolher bem a dose porque se é muito grande a saudade e a tristeza vai me quebrar… mas se é muito pouco, vou me apagar e ficar desesperado. Essa droga acaba com a distância entre meu corpo e o mundo onde a amizade não é rara e o amor é possível: os amigos me chamam para a mesa e podemos fazer piadas grossas sem temor de ofender alguém e o Gran Combo toca ao fundo e conspiramos uns contra os outros e brigamos e cantamos juntos, bêbados na madrugada…
Mas então a música acaba e me encontro novamente na prisão colossal e abafadora onde cada dia é uma cópia do anterior e onde as alegrias ou são lembranças ou são alheias…Porém, essa música é mesmo um troço do passado e também do que ainda existe… existe e me chama:
¿Qué pasó contigo chico?, andas perdío…que coño haces tú por allá?
E é verdade, estou perdido. Perdi minha America. E, sem ela, nada faz sentido.

