
Fazer pesquisa com comunidades migrantes em vulnerabilidade, sendo uma pessoa não-migrante dentro do contexto estudado, exige que se tenha sensibilidade e consciência dos próprios privilégios. Busco relatar aqui um pouco da minha trajetória durante o Mestrado em Sociologia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, do qual resultou a dissertação “Entre a diferença e o pertencimento: interseccionalidade e a migração de mulheres senegalesas em Caxias do Sul/RS”.
A temática de migrações passou a me interessar primeiramente enquanto jornalista, quando entrevistei e acompanhei migrantes oriundos de diversos países para fazer reportagens, mas durante o percurso da dissertação percebi que ela sempre esteve presente em minha vida.
Sou do Rio Grande do Sul e minha mãe veio da fronteira com a Argentina, de uma pequena cidade chamada Itaqui à qual meus avós, nascidos e criados no país vizinho, chegaram poucos anos antes de seu nascimento. Inicialmente sem falar português, eles migraram para trabalhar em uma fazenda, posteriormente se mudando algumas vezes de cidade até chegarem à capital, Porto Alegre.
Meu avô, Terrence Raymond, era descendente de ingleses e, após se mudar para a cidade, trabalhou por décadas como tradutor juramentado, por ser fluente em inglês, espanhol e português. Apenas quando já estava realizando meu mestrado, percebi o quanto a trajetória deles também me inspirou a pesquisar sobre esse tema. Foi nessa mesma época que também entendi que a condição de migrante descendente de outros migrantes foi o que deu a ele seu ofício, já que ele nunca estudou formalmente nenhuma dessas línguas e não tinha formação acadêmica.
Conheci a comunidade senegalesa no Rio Grande do Sul em 2013, durante uma celebração chamada Grand Magal de Touba, uma importante festa da cultura wolof, à qual a maioria destes migrantes pertence. Anos depois, quando fui aplicar para o mestrado, ainda mantinha alguns contatos e decidi pesquisar sobre esse tema, passando a focar especificamente nas mulheres.
Sempre me intrigou, ao dialogar com a comunidade senegalesa, a grande diferença em termos numéricos entre os gêneros, que fazia com que menos de 5% destes migrantes fossem mulheres. Mas, mais do que procurar respostas para essa equação, o que me interessava era justamente a forma como isso potencialmente fazia essas mulheres serem solitárias.
Não foi fácil iniciar a conversa com elas, tanto pelo fato da pesquisa de campo ter sido feita durante a Pandemia de Covid-19 quanto pelas barreiras linguísticas e culturais. Pelo tempo curto do mestrado, eu não consegui aprender wolof, a língua falada pela maioria delas, e muitas ainda não eram fluentes em português.
O campo foi se desenhando de forma mais propícia para mim na cidade de Caxias do Sul, a segunda maior do estado, com cerca de 500 mil habitantes, onde a grande maioria das pessoas é descendente de italianos e alemães. É um município majoritariamente branco, o que molda também as experiências destes senegaleses, que não passam despercebidos enquanto migrantes. Neste sentido, sua sensação de “outridade” e de falta de pertencimento ao local é acentuada pelo contexto regional.

A própria recepção da comunidade local foi a de não compreensão quando explicava meu tema de pesquisa, pois, tristemente, muitos dos moradores não conseguiam entender por que uma pesquisadora se interessaria por aqueles migrantes. “Os haitianos não vão ter nada a dizer”, me disse um taxista, revelando uma gama incrível de preconceitos, inclusive ao não saber diferenciar os migrantes oriundos do Haiti aos vindos do Senegal.
Por esse e outros motivos, logo ficou evidente para mim que seria necessária uma lente analítica baseada na interseccionalidade para conseguir abordar as experiências destas mulheres de forma completa e responsável. Enquanto pesquisadora brasileira, foi de extrema importância entender as maneiras como as vivências dessas mulheres eram baseadas tanto no fato de serem mulheres quanto no de serem mulheres negras e migrantes.
Eu comecei a pesquisa pensando na dimensão de gênero e nas diferenças entre mulheres e homens senegaleses, mas o próprio campo me fez mudar de abordagem, pois para elas, o principal desafio não eram os maridos ou irmãos, mas sim a sociedade brasileira — mais especificamente, caxiense — que lhes impunha preconceitos e opressões.
De forma corajosa, elas abriram suas histórias para mim, contando experiências de racismo, xenofobia, machismo, preconceito contra seus filhos, dificuldades de validar seus diplomas e de trabalhar nas suas áreas de formação, entre outras dificuldades e choques culturais. A frase “O lugar que a gente nasceu, a gente não esquece” foi dita por uma delas, ao explicar que gostaria de retornar para o Senegal, mas que precisava permanecer no Brasil pela falta de emprego generalizada em seu país de origem.
No Senegal, ela contou que, mesmo morando na capital Dakar, conhecia todos os vizinhos e podia aparecer de surpresa para almoçar na casa de algum deles, o que considera inimaginável em Caxias do Sul. Como as mulheres senegalesas na cidade são poucas, a maioria de suas relações tem caráter intra-familiar, embora as que vivam no Brasil há mais tempo tenham relatado ter algumas amigas brasileiras, além de se conhecerem e conviverem entre si.
A solidão efetivamente apareceu como uma dimensão importante das experiências delas. Como muitas migrantes, consideram seus filhos como a ponte entre os “dois mundos”, colocando-os como brasileiros ou gaúchos. As crianças, inclusive, preferem conversar entre si em português, embora entendam a língua de seus pais. Para algumas dessas mães, o Brasil se tornou então o país de seus filhos, simbolizando mais uma conexão inquebrável, que por vezes consideram que as impede de retornar para o Senegal.
Durante a pesquisa, busquei sempre me colocar à disposição da comunidade senegalesa, ajudando-os a preencher documentos, aplicar para empregos, entender a burocracia brasileira, como forma de retribuir sua disposição em dialogar comigo. Fui entendendo, ao longo do mestrado, as mulheres que entrevistei como sujeitas da minha pesquisa, rejeitando o título de “objeto de estudo”. Ouvi sem impor minhas próprias opiniões e visões, acolhi e respeitei o desejo delas de falarem ou não falarem sobre certos tópicos.
Mais do que concluir um mestrado, aprendi muito sobre empatia, escuta ativa e construção coletiva. O que deixo de lição para quem quer pesquisar migrações, especialmente com populações marginalizadas, é a importância de se estar pronto para ter suas expectativas quebradas e, mais do que tudo, a necessidade de nunca reforçar a lógica que coloca os migrantes como “outros” diante de um “nós”. Não presumir, não subestimar, deixar que os entrevistados contem suas próprias histórias são características fundamentais de um pesquisador. Nós podemos não estar exatamente na mesma posição, mas devemos usar os nossos privilégios a favor daqueles sem os quais nossas pesquisas não existiriam.

