O QUE REVELAM AS ENTRELINHAS DAS MANIFESTAÇÕES DE BRASILEIROS SOBRE HAITIANOS NOS MEIOS MIDIÁTICOS

O “eu” confronta o “outro”: o que (re)velam as manifestações de brasileiros sobre haitianos nas mídias e redes sociais digitais

Esta pesquisa investiga as condições de existência dos migrantes haitianos no Brasil, entre 2010-2016, a partir de manifestações de brasileiros nos portais de notícias G1, Folha de São Paulo, UOL e nas redes sociais Facebook e Twitter, com foco no racismo.

Embora já houvesse migrantes haitianos no Brasil antes desse período, os números eram incipientes e os que para cá migravam vinham em busca, principalmente, de qualificação educacional. A partir de 2010, em virtude do sismo que vitimou milhares de haitianos e os expôs à situação de extrema vulnerabilidade, mas também por auspiciosas propagandas veiculadas naquele país sobre o Brasil, o contingente migratório aumentou e provocou uma mudança racial na paisagem branqueada de nosso país, especialmente nas regiões Sul e Sudeste. A pesquisa é etnográfica, orientamo-nos pela Etnografia Virtual (HINE, 2004) e o campo investigado foi o ciberespaço (LEVY, 2000).

A internet se configurou como veículo onde se processam as mudanças sociais (CASTELLS, 1999), espaço profícuo para pesquisas em todas as áreas. Desse modo, este é um estudo multidisciplinar realizado na área de Educação em diálogo com a Sociologia, Literatura, História, Antropologia, Comunicação Social e com as Tecnologias da Informação e Comunicação. Revisitamos a história da migração brasileira, compreendendo-a como processo social motivada pelo pensamento social brasileiro de cunho racialista (SEYFERTH, 2009, 2015), que categoriza a migração como seletiva e restritiva (PATARRA, 2012; COGO; BADET, 2013; PÓVOA NETO, 2012, entre outros): o Brasil seleciona o perfil branco europeizado como desejável para compor a nação brasileira e relega aos migrantes negros o perfil de indesejado. Com esse cenário histórico, e sustentado por um processo de branqueamento por que passou a população brasileira, o racismo permeou e permeia a sociedade e nela permanece institucionalizado.

Essa problemática nos levou à seguinte questão: como se apresentam as condições de existência no Brasil do ―outro‖, migrante, negro, oriundo de um país pobre? Para respondê-la, confrontamos sujeitos: ―eu‖, brasileiro e o ―outro‖, haitiano. O racismo e a xenofobia – motivados pelo ódio ao negro como também pelo migrante, visto como ‖invasor‖ – adquiriram novos contornos, recrudesceram e revelaram uma nova direção para o racismo à brasileira. As marcas da classe, da raça/cor e da origem foram compreendidas como marcas triplas, estigmas e índices que determinam o lugar que o haitiano pode ocupar no Brasil, cunhadas no termo neorracismo – nova forma de racismo que conjuga essas marcas triplas para discriminar e cujo alvo é o migrante haitiano. Essas marcas implicaram nos tons das manifestações que desmistificam a cordialidade do brasileiro e aponta que a civilidade não se dirige a todos os migrantes.

Portanto, este ―outro‖ ―indesejável‖ se faz visível e desmistifica o Brasil cordial do século XXI. Em contrapartida, esse olhar sobre o ―outro‖ deveria levar o ―eu‖ brasileiro a um ―pensar sobre si‖, sua construção mental e os processos constitutivos do comportamento, reflexos do pensamento social brasileiro simbologicamente inculcado. Esse ―pensar sobre si‖, num olhar voltado para a história, iria numa nova direção, a da desconstrução mental do racismo que engendraria num outro comportamento social e poderia vislumbrar uma nova sociedade, com comportamento emancipatório e respeito à diversidade. Por fim, a impressão que se tem e a de que chegamos é que atravessaremos ainda, em grande medida, o século XXI com os pés e o pensamento no século XIX. A educação brasileira, apesar dos avanços, ainda não conseguiu promover o respeito à diversidade.

Maristela Abadia Guimarães

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