RESUMOS DAS PALESTRAS APRESENTADAS NO V FÓRUM DE IMIGRAÇÃO

POLÍTICA MIGRATÓRIA E RECEPÇÃO DE IMIGRANTES: A HOSPEDARIA DE IMIGRANTES DE ILHAS DAS FLORES

Luís Reznik – Professor do Departamento de Ciências Humanas da UERJ; Professor do Departamento de História da PUC-Rio; Coordenador do Centro de Memória da Imigração da Ilha das Flores.

RESUMO

No “V Fórum de Imigração do Rio de Janeiro”, Luís Reznik expôs, na mesa de debates da manhã do dia 04 de dezembro de 2013, sua pesquisa sobre a Hospedaria de Imigrantes da “Ilha das Flores”, localizada no Estado do Rio de Janeiro, instalada em 1879 e extinta em 1966.

A “Ilha das Flores” foi a primeira hospedaria do gênero criada no país. Em quase cem anos de existência, já passaram pela Ilha milhares de portugueses, espanhóis, gregos, alemães, italianos, letões, russos, poloneses, eslovenos, sírios, judeus, entre outros imigrantes que usufruíram dos auxílios da hospedaria, que vão desde tratamentos médicos a disponibilidade de produtos de higiene, alimentação e dormitórios. Os imigrantes podiam se alojar na Ilha por até oito dias, prazo estipulado para que estes encontrassem um emprego e não dependessem mais dos serviços do local.

A Ilha já serviu como presídio de revolucionários nos anos de 1930 e de opositores do Regime em tempos da Ditadura Militar. Serviu também como abrigo para imigrantes que se refugiavam da Segunda Guerra Mundial e “expatriados” pelos conflitos sócio-políticos da Guerra Fria. Hoje a Ilha das Flores sedia o Comando da Tropa de Reforço dos Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil.

A pesquisa de Reznik envolve o resgate da memória e da história da imigração no Brasil. Através de um convênio firmado entre a UERJ e a Marinha do Brasil, A Ilha das Flores passa a contar com um Centro de Memória da Imigração, onde é organizado um circuito de visitação pública às instalações da antiga Hospedaria do Imigrante, com espaço de exposições permanentes. Os

objetivos da pesquisa se dividem em:

a) Iniciar as atividades do Centro de Memória, através da produção de conhecimento sobre a história da hospedaria;
b) Construir um núcleo sobre de referência sobre o tema hospedaria/imigração, através do levantamento documental e historiográfico;
c) Mobilizar materiais para as exposições que constituirão o Museu e o Centro de Memória da Imigração;

Para divulgar as atividades do Centro de Memória da Imigração, foi criado um site. A página também disponibiliza acervo documental e de interação de todos aqueles envolvidos com a experiência da imigração.

(Daniel Salgado)

O BRASIL NO CONTEXTO DAS MIGRAÇÕES INTERNACIONAIS DE TEMPO PRESENTE

Lená Medeiros de Menezes – Professora Titular de História Contemporânea da UERJ e professora do programa de Pós-graduação em História e do programa de Relações Internacionais da mesma instituição.

RESUMO

Em sua apresentação no 1º dia do V Fórum de Imigração, Lená Medeiros falou sobre as migrações contemporâneas e suas peculiaridades, a primeira delas sendo que, diferentemente das migrações do passado, atualmente os fluxos migratórios apontam para todas as direções, alguns apenas mais visíveis que outros. Dentre estes mais visíveis é possível destacar o caso dos mexicanos que imigram para os EUA e das migrações do Leste Europeu e do Norte da Africa para o Europa.

Outra peculiaridade dos novos fluxos migratórios é que, ao contrário dos antigos, os novos se dão em maior quantidade regionalmente (como já visto em alguns exemplos: México para EUA, Norte da África para Europa), que eram feitos em longas distancias (como as migrações europeias para as todas Américas). Isso se deve a criação de múltiplos polos de desenvolvimento nas últimas décadas que atraem pessoas dos países vizinhos para si.

Também diferenciou as diversas motivações para que esses imigrantes migrem, como por exemplo, razões econômicas, guerras em seus países natais ou então catástrofes naturais, como tsunamis ou desertificações. Por sua vez, esses imigrantes ao chegarem em seu destino serão ou desejados ou não, tal resultado depende da geografia imaginativa, que descreverá na mente dos habitantes locais a imagem que o imigrante terá, sofrendo as consequências do estereótipo atribuído a ele, esse conhecimento prévio que existe do imigrante é quase sempre caracterizada nas migrações regionais, enquanto o contrário, isto é, o desconhecimento prévio em relação ao imigrante é quase sempre caracterizada nas migrações de longa distância.

Dentro desse quadro geral, o Brasil atualmente se apresenta como um polo na América do Sul devido a seu desenvolvimento econômico e seu crescente posicionamento político internacional, como sua cadeira não permanente no Conselho de Segurança da ONU, e com isso tem atraído imigrantes tanto dos países vizinhos, como Argentina, Bolívia, Paraguai, dentre outros, e distantes como o Haiti e Angola. O questionamento que fica então é: Será o Brasil realmente uma democracia social e racial que abrirá os braços para os imigrantes ou haverá como no Estado Novo, onde propagandeava-se um país de braços abertos enquanto os imigrantes sofriam com as medidas da campanha de nacionalização?

(Fabian Falconi)

A PASTORAL DO IMIGRANTE: CONEXÕES RIO DE JANEIRO – SÃO PAULO

Padre Mário Geremia – Missionário licenciado em Filosofia e bacharel em teologia . Atualmente, é vigário paroquial de Santa Cecilia (Botafogo) e assessor eclesiático para a Pastoral do Migrante na Arquidiosece do Rio.

RESUMO

No dia 4 de dezembro de 2013 ocorreu o V Fórum de Imigração do Rio de Janeiro. Na mesa da  09h tivemos, entre outros palestrantes, o Padre Mario Geremia, falando da pastoral do imigrante.

Sua fala foi principalmente sobre a “Missão paz São Paulo”, uma obra dos missionários Scalabrianos de São Carlos, onde seu trabalho com migrantes, imigrantes e refugiados “vai muito além do assistencialismo”.

Ele começou contando a historia de como surgiram os missionários scalabrianos. Fundado em 1887 por Joao Batista Scalabrini, um bispo que acompanhava a primeira grande migração europeia, no caso, no norte da Itália. Depois de ouvir relatos como : “Aqui, nascemos, crescemos e morremos como animais” e “ou migrar ou roubar”, Scalabrini decidiu fazer algo sobre o assunto. Fundou então a congregação dos missionários de São Carlos.

Hoje existem missionários scalabrianos por todo o mundo. No Brasil, desde 1887 estão presentes em São Paulo, no bairro de Brás de Pina. Já no Rio de Janeiro, apenas 50 anos atrás que eles se instalaram em Botafogo. Trata-se de uma rede internacional que possui até mesmo cadeira na ONU.

Depois ele aborda o conceito do imigrante, que se transformou de “os construtores da América” em “indigentes organizados pela ação social”. Durante períodos ditatoriais, o imigrante foi visto como um inimigo em potencial. Depois da queda das Torres Gêmeas, torna-se o real inimigo. O tema das migrações é hoje tema da polícia federal. Percebe-se uma forte tendência de criminalização da migração.
“Para nós, o conceito de imigrante é a pessoa humana”.

Em sua apresentação, o Padre apresenta um vídeo sobre a missão de paz de São Paulo (o link abaixo). O vídeo apresenta a hospedaria do imigrante e seus integrantes, como o Padre Alfredo Gonçalves, que fala que a missão paz procura acolher e dar a primeira assistência dos refugiados e migrantes que chegam em São Paulo. Os serviços são variados, tem assistência imediata, acompanhamento pastoral, assistência psicológica, hospedaria, serviços aos marinheiros nos portos, centros de estudos migratórios e entre outros.

Para eles, o importante é promover o protagonismo dos refugiados para que eles sejam “agentes de transformação de sua própria vida”, vendo eles não só como vitimas de um sistema, mas protagonistas da historia, “porque quem se move, faz mover a historia”. Quando eles se movem, eles movem as politicas migratórias, as autoridades, a igreja, as próprias estruturas dos países.

Em seguida, no vídeo, o próprio Padre Mario aparece falando que a missão desenvolve seu trabalho em quatro dimensões muito importantes: entender, integrar, acolher e celebrar. Entendendo com os centros de estudos migratórios, integrando com a pastoral, que orienta, assessora e acompanha-os em suas necessidades, acolhendo com a casa do imigrante, que dá ao migrante o espaço e tempo para recomeçar, e celebrando a vida e as culturas, credos e raças, através de encontros e festas. Tudo isso para que o imigrante seja acompanhado em sua totalidade.

acesse aqui mais informações sobre a missao paz

(Julia Osthoff)

NOVOS IMIGRANTES, VELHOS PRECONCEITOS

Ismênia de Lima Martins – Membro da Comissão de Altos Estudos do Programa Memórias Reveladas da Presidência da República. Coordenadora do NEMIC e do Projeto Entrada de Imigrantes no Brasil –Arquivo Nacional, e do Projeto Rio de Janeiro de Todas as Gentes.

RESUMO

A manhã do dia 5 dezembro marcou o início de mais um Fórum de Imigração da UFRJ. Em sua primeira mesa de debates, a quinta edição do evento teve a participação da historiadora Ismênia Lima Martins.

Em sua explanação, Ismênia frisou a necessidade pessoal de colocar de lado a “imigração ornamental bem sucedida” que ocorreu no Rio de Janeiro e São Paulo e colocar na pauta do dia uma atitude mais política em relação ao estudo, ou seja, fazer dele uma constante militância. Contar as histórias das dores, da pobreza, dos que retornam à terra natal tendo falhado: esse se tornou o verdadeiro objetivo de sua atividade acadêmica. Pensar historicamente essas narrativas negativas é, segundo a pesquisadora, se aproximar de João do Rio e Lima Barreto, dois autores com trajetórias muito distintas, mas que “fazem relatos pungentes da imigração”.

Sua atual pesquisa se organiza metodologicamente na perspectiva do Tempo Presente ao fazer uso de jornais com o intuito de provar que o mito da democracia brasileira é de fato um mito e que o enraizamento dos preconceitos está na Longa Duração. O mais recente fruto dessa reflexão é um artigo centrado em um texto produzido na década de 1920 inserido no contexto de uma polêmica instaurada a partir de uma matéria publicada no jornal Gazetas de Notícia em 29 de setembro do mesmo ano.

Nela, era informado ao público que, por via de um decreto, ficava restrita a prática da pesca aos brasileiros, a fim de evitar o acesso de inimigos do Estado a território marinhos. Em resposta, foi produzido um texto no qual japoneses eram tidos como principais alvos dessa medida governamental, pois configuravam a “ameaça amarela”. Essa e outras manifestações xenófobas da época despertaram na pesquisadora o desejo de pensar a temática do “imigrante ideal”.

A partir dessa etapa do projeto, migrou seu interesse para a influência da mídia e de dados na questão da imigração e na configuração deste “imigrante ideal”. Analisando as informações obtidas no senso do IBGE de 2010, constatou que no primeiro ano do novo milênio havia 143.000 imigrantes no país e que esse número praticamente dobrou em uma década, contabilizando 268.000 estrangeiros e brasileiros que retornaram do exterior residentes no Brasil em 2010.

Já as observações feitas acerca de veículos midiáticos tiveram como objeto os jornais O Globo e Folha de São Paulo e a forma como retratam imigrantes latinos e europeus. Os primeiros correspondem à maioria dos estrangeiros que aportam aqui, somados a chineses e africanos de diversas localidades, todos frequentemente vinculados a características negativas, pobreza, sofrimento e violência. Os segundos, por outro lado, acionam automaticamente um imaginário de pessoas bastante instruídas, belas e bem-sucedidas.

Por fim, Ismênia se dedicou a analisar os comentários de internautas em portais de notícias e percebeu que falas racistas e xenófobas são comuns. Os imigrantes latinos, angolanos e chineses são muitas vezes apontados como responsáveis pelo tráfico de drogas em favelas e ocupantes sem merecimento de vagas no SUS e na educação básica pública. Esse tipo de discurso, conforme a pesquisa da historiadora indica, aponta para a Longa Duração na medida em que, após cem anos da abolição ainda temos internalizadas crenças acima mencionadas.

(Irene Niskier)

OS IMIGRANTES NA IMPRENSA  FLUMINENSE (1870-1889)

Gustavo Barreto – Jornalista e assessor de comunicação do Centro de Informação da Organização das Nações Unidas. Membro do Grupo de Pesquisa em Comunicação, Diásporas e Migrações (DIASPOCOM).

RESUMO

Na tarde do segundo dia de apresentações do V Forum de Imigração do Rio de Janeiro, ocorrido nos últimos dias 4 e 5 de dezembro na UFRJ, o pesquisador Gustavo Barreto teve a oportunidade de expor seus estudos a respeito da obra de Delso Renault: O dia-a-dia no Rio de Janeiro: segundo os jornais (1870 – 1889)”. A fala de Gustavo propôs, por meio da análise pontual de diferentes matérias e situações ocorridas nesse recorte temporal, o resgate da memória da imprensa fluminense para ilustrar a compreensão de como a imigração fora tratada no período. 

A discussão se inicia sobre a criação da primeira diretoria voltada para a realização de um censo nacional, no ano de 1871 (mesmo ano da Lei do Ventre Livre) quando era latente o debate sobre a reforma do “Estado Servil” e o fim da escravidão. Barreto compara à recente legislação implantada sobre o serviço doméstico no país que gerou a insatisfação de uma parcela da classe média-alta – “é possível perceber aqui que ainda trazemos presentes as heranças dessa sociedade que éramos à época”, diz ele.

Nesse momento da história do país, as políticas de imigração foram inseridas como alternativa ao suprimento da força de trabalho no campo, contudo, a maioria dos latifundiários tendia à preferência por certos tipos específicos de imigrantes. Em um trecho do Diário do Rio de Janeiro, de 1869, a “importação” dos chineses é estimulada na frase “São os homens de que precisamos!”, isso porque apresentavam um regime de trabalho considerado ideal para o campesinato. Novamente em analogia com questões atuais, Gustavo evoca o debate sobre “importação” de profissionais para o país, mostrando, com esse e outro exemplos, como essa prática sempre foi presente na história do Brasil. Entretanto, mostra também como ela sempre foi permeada por questões étnico-raciais, para além do interesse apenas na qualidade da força de trabalho em si. “Durante toda a sua história, o Brasil apoiou a vinda de médicos e outros profissionais estrangeiros, e isso evidencia o quanto o debate atual sobre a vinda de médicos cubanos é uma questão essencialmente racista”, observa.

Avançando na linha do tempo, ele vai para o ano de 1882, quando o censo geral realizado pelo Império data o número de 274.972 habitantes no Rio de Janeiro, uma população que aumenta, fundamentalmente, sobre pilares imigratórios. Nesse momento também são ressaltados os contrastes culturais entre os povos que aqui estavam e aqueles que vieram, em ilustrações até mesmo cômicas como a propaganda de papel higiênico inflamável publicada no Jornal do Comércio (a questão da higiene era um ponto “crítico” para os franceses em terras tropicais).

Outro descompasso foi no campo literário, onde as distribuidoras nacionais viam uma série de impasses para a publicação de livros de autoria lusa, sobretudo por questões envolvendo as dificuldades de importação – “o escritor português custa mais caro”. Uma prática comum também destacada pelo palestrante foram as “Novidades do paquete”; livros clássicos populares que eram vendidos de forma quase que “itinerante” nas embarcações usadas no transporte cotidiano dos cidadãos.

Gustavo Barreto também faz um levantamento dos jornais com lançamento anunciado para o ano de 1887, dos quais a grande maioria eram efetivamente franceses. Também dá destaque ao impresso “Brasil”, publicado em Lisboa em nome da “defesa dos interesses dos súditos portugueses residentes no Império”. Basicamente nesse momento existiam apenas os jornais liberais e aqueles que se colocavam “pró-império”, portanto os imigrantes não tinham propriamente uma representação real na imprensa. Costumavam ser superficialmente contemplados vez ou outra pelos jornais liberais, mas não possuíam um veículo de identidade própria até então.
Por outro lado, a segregação para com determinados tipos de imigrantes volta e meia se fazia presente (reflexo e ramificação, principalmente, da séria questão do preconceito étnico no país, evidente até hoje). Barreto expõe uma nota da imprensa acerca de assaltos realizados por um grupo de jovens músicos italianos que tocavam pelas ruas da corte, distraindo os ouvintes para fins de furto. A notícia, contudo, enfatiza bastante a origem estrangeira dos rapazes, como se isso representasse alguma ligação com o comportamento entendido como marginal.

Por fim, Gustavo comenta publicações voltadas para o estímulo da vinda de imigrantes europeus, como “O Guia do Imigrante no Brasil”. A situação nacional era muito precária, vivía-se tempos de febre amarela e altos índices de analfabetismo (82%). A imigração era vista, muitas vezes, como solução aos problemas sociais do país, que de forma preconceituosa costumavam ser associados à etnia do povo brasileiro. Contudo, o povo brasileiro de fato, como hoje o é, se construiu justamente sobre esse hibridismo provocado, e continua se construindo por meio da longa jornada da busca pela identidade de si mesmo, muito além de cor e origem.

(Carlos Eduardo Barros)

A POLÍTICA MIGRATÓRIA E O CONTROLE DE ENTRADA DE ESTRANGEIROS DURANTE O PRIMEIRO GOVERNO VARGAS (1930-45)

Fábio Koifman – Historiador, professor do Departamento de História e Relações Internacionais da UFRRJ

RESUMO

A parte da tarde do V Fórum de Imigração teve seu início com a exposição de Fábio Koifman. Sua apresentação foi marcada pela análise do discurso e ações relacionadas à temática imigratória durante esse período.

A miscigenação brasileira, produto da mistura entre negros, índios e europeus, era vista de forma negativa. Existia, portanto, uma mentalidade que reforçava a necessidade de melhorar a composição étnica da população brasileira e, por isso, a eugenia – ciência que tem como princípio o desenvolvimento étnico da condição humana – passou a assumir uma posição central.

O discurso que o povo brasileiro não havia chegado onde deveria porque era naturalmente “ruim” se disseminava pelo corpo social. A melhoria da composição da população seria, portanto, consequência da entrada de novos e bons imigrantes, que, unindo-se ao povo brasileiro, adicionariam características favoráveis ao seu desenvolvimento. Sendo assim, era preciso embranquecer a sociedade brasileira e, por isso, os imigrantes mais desejados eram europeus, especialmente portugueses alemães e italianos.

Para concretizar esse objetivo, a necessidade de restringir a entrada de imigrantes tornou-se urgente. Em decorrência disso, projetos específicos de melhora da composição étnica foram idealizados e colocados em prática. A contribuição para esse desenvolvimento se relacionava com o aproveitamento total, que, para além de questões étnicas, também se encontrava unido às questões econômicas ou relacionadas à formações específicas julgadas como importantes e inexistentes em solo brasileiro. Um exemplo era a necessidade de indivíduos com formação técnica que se relacionavam com a manutenção de elevadores, profissionais extremamente raros no Brasil. Isso fez com que indivíduos com esse tipo de formação tivessem a entrada no território brasileiro facilitada, mesmo que seus traços étnicos não fossem os melhores. Apesar disso, a cor da pele e os traços fenótipos assumiam importância central na escolha e seleção dos imigrantes que poderiam ingressar no Brasil.

Pode-se concluir, portanto, que a preocupação eugênica se manifestou e se concretizou em atos de forma muito intensa no primeiro governo de Getúlio Vargas, no qual duas ações relacionadas à legislação comprovam essa afirmação – o sistema de cotas para imigrantes na Constituinte de 1934 e um decreto lei de 38. Havia, portanto, uma supervalorização de elementos da cultura européia em detrimento de traços africanos e asiáticos que se manifestavam na política e legislação imigratória, em que o preconceito se revelava livremente.

(Ana Carolina Calenzo)

LABIMI: A CONSTITUIÇÃO DO ACERVO, AS PESQUISAS E O ACESSO AO PÚBLICO

Syrléa Marques Pereira – Coordenadora adjunta do Laboratório de Estudos de Imigração (LABIMI) / UERJ. Doutora em História pela UFF, com parte do doutorado realizado na Università degli Studi di Napoli – L’Orientale (Itália).

RESUMO

No V Fórum de Imigração do Rio de Janeiro debatemos a temática “Antigos Imigrantes, Novos Estrangeiros” buscando traçar pontes entre as levas imigratórias que marcaram a história do Brasil com os novos fluxos de estrangeiros que chegam todos os dias ao país. O encontro deste ano, portanto, buscou dialogar com a História, explorando a marca da memória migratória na constituição nacional.

Syrléa Marques comaprtilhou conosco as metodologias e resultados do trabalho com a e-imigração no Estado do Rio desempenhados pelos professores e alunos do Laboratório. A missão do LABIMI é ser um espaço de reflexão transdisciplinar voltado para a temática da relação entre nacionais e estrangeiros, congregando pesquisadores dedicados ao estudo dos processos e práticas e/imigratórias nos séc. XIX, XX e XXI. Recortes temporais, espaciais, étnicos e de gênero são contemplados pelo grupo.

Na sua apresentação no Fórum, Syrléa enfatizou o trabalho de constituição de um acervo audiovisual sobre a temática da imigração. O objetivo é recolher fontes escritas, visuais, objetos pessoais e depoimentos a serem catalogados e disponibilizados para pesquisadores.

A historiadora destacou que a riqueza do acervo do LABIMI está no fato de que os documentos são registros pessoais de imigrantes, que nos permitem mergulhar no mundo de memórias vividas, dificilmente acessíveis nos documentos oficiais do governo. A maioria dos documentos catalogados pelo laboratório foram doados ou emprestados pelos próprios imigrantes. A partir do approche da história oral, os artefatos fotográficos e textuais perdem sua dimensão de mero registro, para serem narrados como instrumentos de articulação e construção da memória e identidade étnica dos migrantes.

A pesquisadora apresentou também o filme “La Cassettina dei Ricordi” (Caixinha de Lembranças), no qual as fotografias da italiana Moema Perrone narram a história da vinda de sua família para o Rio de Janeiro.

Saiba mais sobre o LABIMI e contribua com o acervo

(Lívia Cunto)

TRAJETÓRIAS INVISÍVEIS: VIDAS DE IMIGRANTES PORTUGUESES NA PRIMEIRA REPÚBLICA

Gladys Sabina Medeiros – Professora do Departamento de História e do PPGH da UFF. Trabalha com História do Brasil, ênfase em Brasil Império e Primeira República.

RESUMO

Em sua apresentação no V Fórum de Imigração, Gladys Sabina Medeiros abordou um tema constante na imigração para o Brasil, desde o seu começo até os dias de hoje: A xenofobia. Por meio de um estudo quantitativo de entrevistas, na década de 80, com diversos imigrantes portugueses aposentados, traça-se um panorama da recepção que a população brasileira tinha para com muito de seus estrangeiros.

Usando o exemplo de um dos entrevistados – cujo depoimento servia de metonímia para os outros dezenas de imigrantes já aposentados – a pesquisadora pôde esmiuçar-se sobre a condição do imigrante em duas frontes de rejeição xenófoba: A Brasileira e a da Terra Mãe (no caso, Portugal) e seus desdobramentos também na atitude com que o imigrante interpreta essa realidade.

Na carta intitulada o Brasil é dos Portugueses, endereçada ao irmão que continuou em Portugal, o entrevistado mostra desilusão tanto com a terra que lhe acolheu tanto com alguma remota possibilidade de retorno à Portugal. Durante a leitura – intercalada de comentários que visavam situar as informações do documento com o panorama total dos outros entrevistados – Gladys mostra diversos incidentes de agressão xenófoba para com os portugueses por parte dos Brasileiros. Não em casos isolados, o Brasileiro parecia não aceitar plenamente a presença lusitana, muitas vezes por questões envolvendo a empregabilidade e o mercado de trabalho.

Em retaliação – muitas vezes inconsciente – o imigrante português, mas não exclusivamente dessa origem, acabara assumindo um discurso de proteção e de auto-afirmação. Sempre que questionado sobre a dificuldade de encontrar trabalho, as condições de ofício ou até mesmo sobre a qualidade de sua mão-de-obra, o Imigrante entrevistado adotara respostas que davam origem de seu ‘sucesso’ em terras estrangeiras pelo trabalho duro, qualificado e “mais eficiente” do que o do trabalhador local, não levando em conta fatores importantes, como por exemplo o das redes de contato e emprego imigrante.

Ainda que muitos desses mesmos imigrantes se mostrassem desiludidos ou infelizes em terras ‘estrangeiras’, a possibilidade de retorno também se mostrava temerosa. Por conta dos anos ou décadas de afastamento de sua cultura local, havia o efeito do imigrante-reverso, onde já também não se era parte da cultura atual do país de origem. O Português, na volta, já era um ‘Brasileiro’ em terras lusas, sofrendo de isolamento também por outro lado.

Assim, Gladys traça um perfil de experiência social do Imigrante Português que também expõe as dificuldades de estrangeiros de todas as nacionalidades. Tanto na xenofobia em sua nova casa, na sua reação defensiva e na impossibilidade de retorno.

(Daniel Abreu)

ABRINDO CAMINHOS: FONTES E NOVAS ABORDAGENS NA IMIGRAÇÃO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

Mariléia Inoue – Professora do quadro permanente da UFRJ. foi pioneira no estudo dos japoneses e seus descendentes no Estado do Rio de Janeiro, com um considerável acervo iconográfico e de história oral sobre o assunto. 

RESUMO

No dia 4 de dezembro de 2013 o V Fórum de Imigração do Rio de Janeiro contou com a presença da pesquisadora e professora Mariléia Inoue. Na palestra intitulada “Abrindo Caminhos: Fontes e Novas Abordagens na imigração do Estado do Rio de Janeiro” a pesquisadora falou sobre as origens e dificuldades da imigração japonesa no país e os empecilhos legais que eram impostos à imigração antigamente e no sistema atual. 

Contrariando o senso comum, segundo a professora a imigração japonesa para o Brasil teria se iniciado não no estado de São Paulo, mas sim no Rio de Janeiro. Enquanto a vinda de imigrantes da Europa ocidental era incentivada, para os japoneses o processo era complicado. Primeiramente eles enfrentavam uma legislação xenófoba que visava impedir a entrada de imigrantes etnicamente não brancos. Caso não bastasse a xenofobia estatal, os japoneses ainda encontravam preconceito na população, que seja por motivos étnicos ou linguísticos, acreditavam que os imigrantes asiáticos seriam incapazes de se integrarem à sociedade brasileira. Ainda assim muitas outras levas de japoneses viriam e a comunidade terminaria prosperando e se integrando à sociedade local.

Mariléia comentou também que ainda hoje a legislação brasileira tem muito a evoluir no que diz respeito à imigração. A atual legislação é da década de 1980, época em que o Brasil era governado pela ditadura militar. Após mais de três décadas de regime democrático a legislação sobre imigração permanece virtualmente inalterada, numa situação anacrônica que acaba por repelir imigrantes com os quais o país muito teria a ganhar. Para resolver o problema a professora defendeu uma profunda reforma legislativa.

(Rodrigo Lima)