O site G1 relatou graves incidentes entre PMs e estudantes da UNILA, na madrugada de domingo 3 de maio em Foz do Iguaçu.

Sete estudantes (alguns estrangeiros) foram detidos pela Polícia Militar (PM), após reclamação dos vizinhos por excesso de barulho.

Segundo os policiais, os estudantes estavam hospedados em um hotel e participavam de uma festa. Ainda de acordo com a PM, os estudantes detidos foram levados para a delegacia porque receberam a polícia com xingamentos e gritos. Eles prestaram depoimento e vão responder em liberdade pelo crime de perturbação do sossego.

A reportagem acrescenta, ainda, que procurou a UNILA para comentar o assunto durante a tarde de domingo, mas nenhum responsável foi encontrado.

O outro lado

Todavia, a versão dos alunos (amplamente comprovada na vídeo que pode ser acessada aqui), é outra. Eles denunciam o flagrante abuso policial praticado na noite de domingo na moradia “Quebrada do Guevara”, onde encontram-se vivendo cerca de sessenta estudantes da UNILA, dos quais cerca de vinte e cinco encontravam-se reunidos na área comum da moradia na hora da invasão.
Segundo os alunos, sob alegação de flagrante ao descumprimento da lei do silêncio, policiais militares invadiram a moradia estudantil.

“Tal alegação foi imediatamente desmentida pelos vizinhos que disseram nunca ter ouvido um ruído na moradia e que apenas perceberam o ocorrido devido aos disparos efetuados pelos policiais. Essa informação se confirma quando verificado o equipamento de som usado na ocasião do encontro dos estudantes. Tratava-se de duas caixas de som de computador, ligadas num celular, cujo som tocara no interior da moradia”.

“Diante da resistência de que apenas um representante tivesse que acompanhar um grupo de militares em duas viaturas, os policiais disseram que dariam voz de prisão a quem eles escolhessem. A reação pacífica dos estudantes se deu mediante a exigência de que todos fossem à delegacia para a segurança individual e coletiva do grupo”.

Disparos

“Dessa forma, segundo a versão dos alunos, estabeleceu-se um impasse e os policiais iniciaram uma agressão indiscriminada. Os estudantes foram espancados. A ausência de policial feminina não impediu que mulheres fossem abordadas, e se não bastasse tal violação, a mesma se deu com excessiva violência. Indefesas, meninas foram arrastadas e golpeadas de cassetete. Num ato de delinquência de um dos policiais, uma jovem foi chutada várias vezes quando se encontrava deitada cercada por estilhaços de vidro da porta que havia sido estourada. Três disparos foram efetuados, causando pânico entre os estudantes. Muitos ficaram feridos. Oito foram detidos, dentre eles, três brasileiros e cinco estrangeiros”.

Os relatos dos alunos acrescentam, ainda, “não bastasse a violência no interior da moradia, os estudantes detidos e feridos, foram ameaçados e intimidados em razão de serem supostamente de esquerda. Um deles foi questionado por estar com uma camiseta do Che Guevara, que na opinião do policial o qualificava de baderneiro”.

Xenofobia e homofobia

“Outro estudante foi alvo de piada de um policial, que perguntou: e agora, seu namorado vai te tirar daqui? – questionando a opção sexual do estudante. Em ambos os casos eram estrangeiros. Outro, ao se declarar venezuelano sofreu insultos ao ser chamado de ditador. Um equatoriano, ao se declarar estudante de sociologia foi insultado aos gritos pelo policial que berrava: Marxista! Marxista!”

“Aos estrangeiros, os policiais diziam que seriam enviados embora para seus países e em tom ameaçador diziam que a partir de agora eles estavam conhecendo com quem eles estavam lidando. Seguindo as ameaças, os policiais diziam que se encontrariam a sós com cada um deles”.

“Uma uruguaia, única mulher detida entre os oito, mesmo já machucada também não foi poupada da violência dentro da delegacia. Tratada à base de empurrões e sendo ameaçada através de gestos que simulavam golpes de socos, ela foi reprimida e em nenhum momento foi abordada por uma policial feminina”.

Justiça!

Reproduzimos, a seguir, trechos da nota de repúdio e aclamação por justiça emitida pelos representantes dos residentes da moradia estudantil “Quebrada do Guevara”:

“Diante da violência empreendida na invasão a uma moradia estudantil pertencente à uma instituição federal por policiais militares; dos sucessivos insultos e ameaças em razão de etnia, opção sexual e preferência ideológica; diante da violação dos direitos à proteção da mulher e do direito à defesa por parte de todos os envolvidos; diante da mentira alegada de que houve flagrante de perturbação à ordem pública, pois não havia equipamentos sonoros que ultrapassassem o limite tolerável de decibéis; diante da ausência de delegado, escrivão e advogado de defesa no procedimento na delegacia, cujos depoimentos foram dados sob tortura psicológica e violência física e diante das graves conseqüências geradas em razão de processo jurídico que sofrerão os estudantes envolvidos no caso, exigimos a punição dos policiais envolvidos na invasão e a anulação de todos os atos que constituem este processo que incriminam nossos companheiros”.

“Declaramos que nossa luta não se encerra com a anulação desses atos. Embora recém chegados, estamos inseridos neste contexto e dispostos a partilhar nossos sonhos com a comunidade de Foz do Iguaçu. A convivência pacífica e generosa entre os povos é a tradição simbólica que qualifica esta cidade como a principal desta fronteira, que unida pela ponte da Amizade e banhada pela beleza das cataratas constitui uma das regiões mais belas e pacíficas do mundo. Estamos aqui porque fazemos parte de um projeto que visa fortalecer os laços que unem estes povos. Somos os primeiros filhos dessas jovens democracias que começam a florescer na América Latina. Nossos pais nasceram antes dessas democracias e nos ensinaram a abominar a ditadura”.

“O que aconteceu com os estudantes da “Quebrada do Guevara” foi a reedição de cenas vividas nessas ditaduras, e tendo os policiais agido com os mesmos métodos e os mesmos insultos de décadas atrás, reiteramos nosso repúdio à essa ação criminosa praticada por delinqüentes fardados contra estudantes”.