DE FRIBOURG A NOVA FRIBURGO

A abolição da escravatura era iminente e faltava mão de obra nas prósperas lavouras de café. Por isso, a partir de 1870, o governo brasileiro decidiu financiar a vinda maciça de estrangeiros para cá. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no período de 1884 a 1893, 646.427 imigrantes chegaram da Itália, da Espanha e da Alemanha, e outras centenas de milhares continuaram a desembarcar nas décadas seguintes. Esses dados são clássicos e costumam ser abordados nos livros didáticos, nos capítulos sobre os deslocamentos para o território brasileiro e seus contextos históricos.

No entanto, as primeiras experiências formais de imigração para o Brasil começaram antes. “A América portuguesa passava por transformações desde a abertura dos portos, em 1808, quando foram criadas condições para a passagem de visitantes e a instalação de famílias aqui”, diz Vantuil Pereira, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Além de conseguir mais trabalhadores braçais, a corte também debatia a necessidade de “branquear” a população e via no incentivo à imigração europeia um dos caminhos para atingir tal objetivo.

Enquanto isso, na Europa, as Guerras Napoleônicas (ocorridas entre 1799 e 1815) chegavam ao fim, os povos enfrentavam crises econômicas, o pensamento liberal se espalhava e as populações ansiavam por menos repressão. Diante de uma falsa imagem promovida por agentes do governo brasileiro, o Novo Mundo acenava como uma terra de oportunidades. Foi nesse contexto que os primeiros imigrantes oficiais, cerca de 2 mil suíços, deixaram as regiões de Fribourg, Vaud e Valais, em 4 de julho de 1819, em direção a Rotterdam, na Holanda, e seguiram para o Brasil. Depois de um trajeto penoso e cheio de baixas, eles foram instalados onde hoje está a cidade de Nova Friburgo, a 136 quilômetros do Rio de Janeiro, onde dom João VI havia adquirido fazendas e mandado construir casas provisórias.

Bastidores de uma nova experiência

Ao partirem em busca de oportunidade, os imigrantes suíços fugiam da miséria e foram trapaceados pelo comerciante Sebastian-Nicolas Gachet (1770-1846). Ele percebeu que o excedente populacional suíço poderia ser mão de obra livre no Brasil e negociou com o imperador. De acordo com a Casa Suíça de Nova Friburgo, o projeto previa a imigração de 2 mil pessoas por ano, na região de Curitiba, para trabalhar com pecuária e metalurgia. Mas dom João VI decidiu financiar só 100 famílias, pagando transporte, alimentação, alojamento por dois anos, sementes e animais, e instalá-las perto da corte. Ao voltar para a Europa, Gachet omitiu a subvenção recebida, recrutou um número maior de famílias e cobrou delas e das autoridades os custos da viagem. Ao chegarem aqui, os imigrantes perceberam que as condições oferecidas para a exploração do território não eram das melhores. “Esse tipo de acordo era rudimentar e não havia maquinário desenvolvido para que o potencial agrícola do país fosse aproveitado”, diz Vantuil Pereira, da UFRJ. Em Nova Friburgo, a agricultura de subsistência não foi em frente por causa das condições climáticas. Parte das famílias migrou novamente, para plantar café em terras mais quentes, e parte optou por ficar e trabalhar com comércio.

Noêmia Lopes

(Nova Escola)



Categorias:diásporas

%d blogueiros gostam disto: