Quem encontra a senhora Adilah vendendo alegremente seus tecidos no conhecido comércio do Saara, nem imagina como, aos 17 anos, uma jovem apaixonada veio parar em terras tupiniquins. Os diretores de filmes americanos que me desculpes, mas a história de dona Adilah deixa muito filmes de Hollywood no chinelo, com o perdão da palavra.

Nascida em uma família de classe média do Marrocos (Meknes) nos anos 40, ela não tira o sorriso do rosto nem pra se autointitular de revoltada. Dona Adilah hoje beirando os 80 anos relata sorrindo ter nascido no lugar errado “Nunca me senti parte daquele lugar, daquela cultura. Alfredo só foi um belo pretexto”. O tal pretexto de olhos claros e estrutura óssea perfeita como ela mesma relata, tinha 25 anos e estava passando férias com uns amigos na cidade dela. Bastaram poucos minutos para que se apaixonassem perdidamente. Ela conta que 10 dias depois do primeiro encontro, recebeu um bilhete em sua janela com um pedido de casamento e um passaporte falso. Não pensou duas vezes. Saiu de casa com alguns pequenos pertences e deixou pra trás uma família com a qual ela nunca mais teve contato.

Alfredo era mineiro no Chile, mas após 2 anos casados, resolveram que era hora de uma nova vida no Brasil, onde relata ter se encontrado. O motivo? Uma simples frase. Diz que aqui é um pais de pessoa alegres e leves. E que se considera assim, brasileira por insistência e coração. Diz que não teve dificuldade de adaptação “isso eu tinha no Marrocos, onde não me encaixava nos costumes, nas roupas e na maneira de viver”. E resolver transcender a expectativas de vida esperada (casar-ter filhos-ser dona de casa). Visionaria, ela que hoje tem 6 filhos, 9 netos e 2 bisnetos diz que nunca teve vocação pra ser dona de casa e sim pra viver. “Ficava me perguntando porque minhas amigas queriam crescer pra casar logo. eu queria crescer pra ser independente. e isso eu não conseguiria ficando lá. Principalmente naquela época onde a mulher não tinha voz, não tinha direito…sua única escolha era se casar e ter a sorte de ter muitos filhos. Nunca quis isso pra mim”.

Mais do que naturalizada, dona Adilah diz que ganhou aqui muito mais do que perdeu deixando seu país, ganhou a si mesma. E ganhou uma nova cultura que ela jura de pés juntos ser sua desde criancinha. “Sinto falta da minha família ate hoje, mas sei que para eles eu morri, então vivo com a minha família de hoje e sou feliz assim”.

Adilah pode até ser uma imigrante de corpo, mas com certeza sua alma já pairava por essas terras. Diz nunca ter se sido alvo de nenhum preconceito e que justamente por não te-los não sofreu com a mudança de cultura. “A cultura brasileira é a minha cara” e começa a sambar como uma carioca nata. “Gosto de tudo daqui. Da comida, da bebida, das pessoas, da musica, das praias. Só sinto falta do meu chá. Mas eu já superei”.

Ela se diz muçulmana “mente aberta”, pois incorporou à sua fé outros tipos de religiões. “Passeio pelo espiritismo e pelo cristianismo também. Tudo o que me traga paz é bem vindo.”

Adilah assume que perdeu um pouco da língua por falta de pratica, já que não tem costume de falar em árabe. Nunca ensinou aos filhos, nem aos netos. Até porque seus documentos são de origem chilena. “sempre tive o cuidado para que minha família tivesse a liberdade de serem o que quiserem. e são. não vou obriga-los a seguir uma cultura que nem a mãe quis seguir. Não faria sentido, né?”

Ao final do encontro fico me perguntando se dona Adilah é o caso de uma imigração bem sucedida ou um caso de erro de cegonha.

Fernanda Fonseca