DA CRIMINALIZAÇÃO DOS IMIGRANTES

Mais um exemplo de como a mídia contribui na “invenção” e reforço da figura do imigrante ilegal enquanto delinquente, criminoso, fora da Lei e até uma ameaça à ordem pública. A proeza, desta vez, é do jornal gaúcho “Zero Hora” – edição do 19/07/2012.

O texto começa com apelo ao sensacionalismo já no título: “Saiba como os ‘coiotes’ atuam na fronteira do Brasil com a Argentina”, explicando, em seguida, que os “Estrangeiros encontram auxílio de facilitadores para entrar transitar entre os países na clandestinidade”.

O artigo afirma que “um produto novo foi incorporado à prática ancestral do contrabando na fronteira entre Brasil e Argentina: gente”.

O que o jornal podia destacar é a atividade ilegal geral de contrabando é que, com certeza, verdadeiramente danosa à economia nacional. Danosa, sabida, conhecida e tolerada, em grande parte, por causa da corrupção e ineficiência dos agentes responsáveis. Ou seja, o problema que, de fato, existe é o de contrabando. A ‘coiotagem’ é apenas uma diversificação das atividades dos contrabandistas.

“Às 5h de terça-feira (17/07/2012), dois homens foram presos em flagrante na estação rodoviária de Uruguaiana depois de passar irregularmente um coreano para o lado brasileiro” pode-se ler na reportagem. Continuando que “segundo a Polícia Federal, os novos chibeiros do Rio Uruguai fizeram ingressar no país, nas últimas semanas, uma leva de imigrantes clandestinos de países como Senegal, Nigéria, Peru e China. A quadrilha, que seria formada por brasileiros e argentinos, costumava fazer a travessia do rio durante a madrugada, de barco”.

“Em outras ocasiões, escondia o imigrante clandestino em um táxi e cruzava a fronteira pela ponte entre Uruguaiana e Paso de Los Libres. Conforme as evidências reunidas pela PF, o serviço oferecido pelos coiotes do pampa incluía recepção na rodoviária, hospedagem, travessia e envio para o destino final”.

“A investigação foi motivada pela crescente presença de estrangeiros surpreendidos sem papéis em Uruguaiana, verificada desde o final do ano passado. Vários foram encontrados pelos policiais nas imediações da rodoviária local ou em hotéis. Como não estavam regularizados, pagaram multa e receberam três dias para sair do país”.

Não se trata de contestar o trabalho da PF, mas temos que ter muito cuidado com os controles de ‘faciès’, baseado na aparência e não em critérios objetivos. Conforme já destacamos em outro comentário, a pergunta que se impõe é de saber quais são os critérios usados nesses controles. Pois, sabemos que existem muitos “indocumentados” europeus por exemplo. Porém, nunca são incomodados pela PF. Não é um detalhe técnico. É uma questão delicada que envolve e reativa toda nossa herança racista e preconceituosa.

“No dia 29 de março, auxiliada pelos depoimentos dos clandestinos, a PF prendeu, em casa, um brasileiro integrante da quadrilha. Na residência, o homem estava abrigando oito senegaleses. Dois deles em situação irregular” acrescenta a reportagem.

Aqui temos um belo exemplo de amalgama perniciosa do discurso jornalístico tendencioso. Pois, não se sabe ao certo se o “crime”, aqui apontado, é de hospedar 08 senegaleses ou 02 indivíduos em situação administrativa irregular – que pode ser a falta de renovação do visto ou o vencimento do documento de viagem.

“Solto dias depois, o brasileiro foi preso de novo na operação realizada na manhã de terça-feira na rodoviária de Uruguaiana. Ele foi pego em flagrante com um comparsa argentino. Os dois estavam com um coreano que, momentos antes, haviam trazido de táxi da Argentina”.

“O imigrante coreano pagou multa e foi liberado. Ele estava residindo em São Paulo e tem licença para permanência provisória no Brasil. Mesmo assim, decidiu ir a Buenos Aires e voltar de forma ilegal”.

Não teria sido oportuno ouvir o imigrante coreano (e/ou outros) para melhor entender o acontecido? Ainda mais que o artigo informa que o coreano era residente de São Paulo, com documentos em dia (visto de permanência provisória)! Será que seu impedimento de voltar ao Brasil pela via normal foi dificultado indevidamente? Será que não existe alguma estratégia de criar problema de entrada no Brasil para “vender a facilidade”? Todas as perguntas valem. E todas devem ser levantadas pelo jornalismo isento e responsável.

“— Como são várias nacionalidades envolvidas, está claro que existe uma rota. Não é só por Uruguaiana. Há relatos de imigração ilegal em outras cidades. Mas a existência dessa quadrilha fez aumentarem os casos aqui — diz Ana Gabriela Becker, delegada da PF na cidade”.

“Os coiotes atuam principalmente nas rodoviárias, fazendo abordagem a estrangeiros barrados por falta de papéis. O Rio Grande do Sul não seria destino, apenas ponto de passagem. Os indícios são de que Uruguaiana funcionaria como entreposto para estrangeiros que vão de São Paulo a Buenos Aires ou fazem o caminho inverso.

Interessante! Ficamos sabendo, aqui, que os ‘coiotes’ atuam no sentido Brasil – Argentina também. Ou seja, não há um fluxo unidirecional rumo ao Brasil. O que existe é uma dificuldade administrativa (talvez excessiva ou abusiva) de circulação entre os dois países. Não seria mais oportuno elaborar políticas migratórias mais adequadas e uniformes entre os dois países?

“Ana Gabriela investiga também se Passo Fundo faz parte do trajeto. Parte dos clandestinos cruza a fronteira para traficar drogas ou fazer contrabando. Outros fogem da pobreza e buscam oportunidade de trabalho”.

A própria PF já declarou que os chamados “clandestinos” não tinham participação no tráfico de drogas ou contrabando, mas que buscavam trabalho ou atuavam no comércio. Aliás, se forem ‘mulas’ ou traficantes, não se deveria se referir a eles enquanto imigrantes. Não são. ‘mula’ é ‘mula’. Imigrante é imigrante. São duas categorias opostas.

“— Eles entram irregularmente porque, depois que estão aqui, uma grande parcela consegue se regularizar. O Brasil não é rígido em questões migratórias — diz a delegada”.

A afirmação é, simplesmente, incorreta. O Brasil não é apenas excessivamente rígido na sua política migratória, mas, na verdade, carece de uma política migratória racional, objetiva e digna de ser chamada de política.

“Uma prova disso são as falhas reconhecidas por Ana Gabriela na ponte entre Uruguaiana e Libres. Os coiotes passam com clandestinos porque faltam policiais federais e porque as abordagens são feitas por amostragem”.

A suposta prova, aqui levantada, é que faltam funcionários para lutar contra o contrabando e todo tipo de atividade ilegal. É não a “prova” de que o Brasil “não é rígido em questões migratórias”. Além do erro n afirmação da delegada, ainda há a “curiosa” falta de curiosidade dos jornalistas que assinam a matéria. Não parece ter um mínimo de acompanhamento crítico das afirmações dos entrevistados.

“A imagem do Brasil como país em processo de enriquecimento e repleto de oportunidades é uma das razões para a chegada de novas levas de imigrantes. Muitos entram clandestinamente. Estima-se em 30% o percentual dos estrangeiros em situação irregular no país”.

De novo, a falta de espírito crítico fica flagrante. Quem é o sujeito oculto do “estima-se”? Quem estimou e baseado em que metodologia – já que o número de “indocumentados” é, por natureza, desconhecido?

“Segundo o sociólogo Jurandir Zamberlan, pesquisador do Centro Ítalo-Brasileiro de Assistência ao Imigrante (Cibai), o compromisso de ajudar nações africanas assumido pelo Brasil moldou a nova imagem do país. Senegaleses e nigerianos, por exemplo, costumam cruzar o Atlântico de navio em busca de trabalho”.

“Compromisso de ajudar nações africanas assumido pelo Brasil”!? O sociólogo avisou ao Brasil e às nações africanas dessa nova orientação geopolítica do Brasil? Os jornalistas confirmara?

“Muitos desembarcam em Rio Grande, mas outros descem em Montevidéu ou Buenos Aires, e depois precisam seguir por terra até a fronteira — deparando com Uruguaiana no caminho”.

Mas por que desembarcam em Montevidéu e Buenos Aires se, geograficamente, o Brasil fica mais perto de África que Argentina e Uruguai? Alguém explica? Um gráfico ajudava o leitor a entender..

“No caso de chineses e coreanos, o habitual é ter parentes ou conhecidos atuando no comércio, no Brasil. Eles já vêm com contatos e possibilidade de trabalho. Os colombianos, em geral, deixaram seu país por causa da guerrilha, emigraram para outros países, incluindo a Argentina, e agora tentam a sorte no Brasil”.

Dois casos, duas realidades e duas perguntas: se os coreanos e chineses já tem possibilidade de trabalhar no comércio de parentes (as redes familiares de comércio é uma constante na teoria migratória) – qual é o problema e eventual crime então? Já os colombianos que fogem da guerrilha não entram na categoria de imigração, mas sim de refúgio e são protegidos por acordos e convenções internacionais. nos dois caso, a pergunta que persiste é da suposta ilegalidade.

“No caso dos haitianos, uma pesquisa de Zamberlan mostra que grande parte não estava em seu país à época do terremoto. Trabalhavam em países vizinhos — o que explica a entrada de alguns pelo sul do Brasil e não por regiões próximas ao Haiti”.

Duas correções que podem ajudar na reflexão do Zamberlan: alguns Haitianos viviam, de fato, em outros países. Mas não no Uruguai ou Argentina. Viviam, em geral, na República Dominicana. Os haitianos hoje presentes no RGS foram levados lá por empresários gaúchos que forma buscá-los na fronteira entre Brasil e Peru. O que, aliás, prova que, ao contrário de que alega a mídia, são trabalhadores qualificados que vem contribuir ao desenvolvimento do país.

“Conforme o sociólogo, os irregulares em geral entram no país por conta própria. Quando têm ajuda de um ‘coiote’, quase sempre é o futuro empregador, interessado em manter a condição ilegal do imigrante, para poder controlá-lo, em uma situação de trabalho escravo. O Cibai, ligado à Paróquia da Pompeia, em Porto Alegre, presta auxílio aos imigrantes desde os anos 50. Zamberlan defende uma mudança da política brasileira”

Excelente reflexão e que muda o rumo da reportagem. O problema apontado é pior de que a ‘coiotagem’. É o trabalho escravo e as condições desumanas de vida e trabalho dessas pessoas que deveria deixar a opinião pública alarmada e indignada e não a leve infração administrativa de não o carimbo certo na papel exigido.

“— O Brasil tem de superar a criminalização do imigrante. Em vez de tratar com um órgão de repressão, ele deveria ser recebido por um órgão de desenvolvimento. O país precisa de trabalhadores, porque a taxa de crescimento da população caiu e não teremos mão de obra suficiente para tocar o processo produtivo — defende”.

Aqui, mais uma vez, transparece a falta de responsabilidade social do jornal. É só no final da matéria que se começa a levantar os aspectos positivos dessa imigração e a falta de uma política migratória nacional condizente com a realidade econômica e em sintonia com os princípios de respeito à pessoa humana. Ao contrário de que foi afirmado no início do artigo por outros entrevistados e não foi questionado nem ponderado pelso jornalistas que assinam a matéria.

“O crescimento econômico brasileiro, assim como a proximidade da Copa de 2014 e dos Jogos Olimpícos de 2016, também criou uma onda de imigração legal de profissionais altamente qualificados, fenômeno favorecido pela crise nos Estados Unidos e na Europa”.

“Nos três primeiros meses deste ano, o Ministério do Trabalho e Emprego concedeu 17.081 autorizações de trabalho a estrangeiros, 4 mil a mais do que no mesmo período em 2011. O crescimento tem sido constante: 42.914 de 2009, 56.006 de 2010 e 70.524 em 2011”.

“Entre os países que mais exportaram profissionais estão EUA, Grã-Bretanha, China e Alemanha. Engenheiros, executivos e arquitetos buscam chances em áreas de infraestrutura, comunicação e indústria de óleo e gás”.

Mais uma vez, há uma confusão total entre categorias e situações de imigração. Prova da necessidade de uma verdadeira “educação” dos profissionais da mídia nessa questão tão nevrálgica e tão desconhecida. A matéria que começa na confusão e acaba na cacofonia é uma ilustração do papel da mídia na desinformação do público. Parabéns ao Zero Hora. A nota está dada.

Hajji Moha



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