Depois de um século repleto de guerras, mortes, destruições e conflitos sangrentos, tempos sombrios ultrapassam o século XXI e parece que estão longe de acabar. A Síria vive hoje um momento crítico. Uma narrativa em curso que mudará a sua história.
Quase 20 mil pessoas já foram mortas em um massacre que começou no dia 15 março de 2011, quando opositores do regime ditatorial de Bashar Al-Assad, há 11 anos no poder, iniciaram um movimento popular de protesto por democracia e liberdade de expressão. Já faz 16 meses que os sobreviventes dessa guerra brutal convivem com tiros, bombas e todo tipo de atrocidade.
A mais violenta repressão contra opositores ao regime entre os países da chamada Primavera Árabe tem obrigado cada vez mais pessoas a abandonar suas residências. Por outro lado, o governo é acusado de impedir a população de 22,5 milhões de habitantes de fugir do país, colocando minas terrestres e soldados armados nas fronteiras.
De acordo com o Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), cerca de 1,5 milhão de pessoas já se deslocou dentro da Síria. Outros 200 mil atravessaram as fronteiras. É o caso de Somar Ibrahem Mohammed.
O jovem sírio de 20 anos de idade chegou ao Rio de Janeiro há pouco mais de um mês. Deixou para trás a família e os amigos. Ele acredita que seria chamado para fazer parte dos 300 mil soldados do Exército caso permanecesse por mais tempo no país. Decidiu não correr o risco de perder a vida como muito de seus conhecidos que morreram em combate.
A Síria faz fronteira com Israel, Jordânia, Líbano, Turquia e Iraque. Na Turquia, quase 50 mil pessoas estão em acampamentos. Ibrahem cruzou a fronteira do Líbano, o terceiro país que mais recebe refugiados, cerca de 30 mil. De lá, pegou um voo com conexão na França.
Antes de desembarcar no continente europeu, ele foi orientado por meio dos holofotes da aeronave a permanecer sentado. Três agentes do aeroporto o encaminharam para uma sala, onde permaneceu sentado durante quatro horas. Poucas perguntas, muito silêncio e o constrangimento da recusa de não poder nem mesmo urinar. No final, o alívio de poder chegar ao seu destino final sem maiores complicações.
Filho de um taxista e de uma dona de casa, Ibrahem é primogênito de um irmão e uma irmã. Com o ensino básico completo, ele confessa que não gosta de estudar e não cursou nenhuma universidade. Em Safita, sua cidade natal de apenas 33 mil habitantes, preparava doces e salgados, completando a renda familiar.
Mesmo longe de casa, Ibrahem acorda todos os dias às cinco horas da manhã para trabalhar no restaurante da sua família brasileira. Quando chega meio dia, ele deixa a cozinha e vira garçom. O jovem pretende enviar o dinheiro à Síria e continuar ajudando a família.
No momento, Ibrahem conta com a ajuda de seu tio brasileiro para juntar toda a documentação necessária para permanecer legalmente no Brasil. Com o direito de obter o refúgio, ele não tem pretensões de voltar imediatamente para o país de origem. Acredita que voltará dentro de uns quatro ou cinco anos, porém depende do fim da guerra civil.
Afinal, é impossível prever as implicações que uma mudança de regime na Síria poderá acarretar.
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Guilherme Ramalho
