O Instituto ADUS de Reintegração do Refugiado no Brasil foi criado em São Paulo em outubro de 2010, por três amigos internacionalistas, Victor Mellão, Andrea Piccini e Marcelo Haydu. Conscientes e sensiblizados pelas enormes dificuldades que os refugiados e solicitantes de refúgio enfrentam em nosso país. A ação dos três ativistas é um feliz exemplo de Humanismo Prático. Sem filiação política ou motivação religiosa, eles são movidos à paixão pelo semelhante e capacidade de projeção no Outro.
Em busca de mais informações sobre a instituição, contatamos Marcelo Haydu. Formado em Relações Internacionais pela Faculdade Santa Marcelina e com mestrado em Ciências Sociais pela PUC-SP, seu interesse pelo tema nasceu em casa, onde teve contato com as histórias de seu avô, refugiado da extinta Iugoslávia, e de outros refugiados. Com os quais realizou pesquisas de campo, a partir de então percebeu que tinha que buscar algo para mudar a vida dessas pessoas, então fundou o ADUS.
As dificuldades para manter o projeto existem desde seu nascimento, apesar do desejo pessoal de mudar a vida dos refugiados residentes no Brasil, os três ativistas sociais não tinham recursos financeiros suficientes para criar uma instituição para esta finalidade.
“muitas vezes não tínhamos recurso para tirar Xerox. A realidade atual não é muito diferente, fazemos nosso trabalho porque acreditamos na causa, somos realmente engajados. Infelizmente falta apoio para se trabalhar em prol dos refugiados” conta Marcelo.
A ação começou com cerca de dez refugiados, abordavam os refugiados no centro da cidade de São Paulo – local de maior concentração deles- onde falavam sobre o trabalho do grupo, como poderiam ajudá-los “foi um período bastante complicado…” lembra. Hoje contam com de trezentas pessoas cadastradas no banco de dados além de quinze conselheiros e trinta voluntários e voluntárias.
Já realizaram algumas apresentações em Universidades, empresas, na sede do Adus, sempre com o objetivo de divulgar o tema do refugio; inserção dos refugiados no mercado de trabalho; vagas para cursos profissionalizantes; atendimento psicológico. Já que o objetivo é disponibilizar orientação social, psicológica, familiar, cultural, laboral, educacional, alimentar, de lazer, e quaisquer outros temas de relevância social e de interesse dos seus associados aos refugiados.
A relação da instituição com sociedade civil local é muito “bacana”. São cerca de 1.400 pessoas cadastradas, no site, que querem dar apoio ao Adus. A procura por trabalho voluntário é muito grande. Além de existir um grande interesse acadêmico no tema, ele diz que “em São Paulo sempre há pessoas pesquisando sobre o tema. Isso é muito importante para que cada vez mais pessoas possam se envolver com o tema e, quem sabe, buscar soluções práticas para mudar a vida dos refugiados”.
Ao falarmos de “refúgio” nota-se que a maior parte da população tem pouco ou nenhum acesso ao tema, o que Marcelo enxerga como algo natural já que “o tema é pouco difundido e divulgado. Isso, penso eu, deve-se ao fato de ainda termos poucos refugiados no país. Num país do tamanho do nosso e tão populoso, se falar em 4500 pessoa é algo que acaba passando desapercebido para a grande maioria das pessoas. Por isso o Adus se empenha bastante em fazer campanhas por meio de vídeos, ir a universidades, empresas… as pessoas têm que saber que há refugiados no Brasil, que eles precisam de apoio. Achamos que essa é a saída.”
Assim, ele considera que a questão dos refugiados é “um reflexo nu e cru da política externa de muitos países, da arrogância e busca desenfreada de poder, é o reflexo do sistema capitalista.” O Brasil é um país aberto a receber refugiados, mas não é o que de fato acontece, não há tanto apoio às ações realizadas pelas ONGs engajadas nesse tema.
Outra questão crucial referente aos refugiados é a lei de apátridas, inexistente no Brasil. Segundo Marcelo, ela é de extrema importância, pois suprir necessidades de um público numeroso com necessidades extremas, tal quais os refugiados. Já que o Brasil está internacionalmente mais engajado em assuntos do tipo, é importante para o país sinalizar comprometimento com a causa, então é importante ter uma lei específica sobre apátridas no Estado. Por outro lado, é fundamental refletir a cerca da vinda de mais pessoas nessa situação ao país; hoje existem cerca de quatro ou cinco apátridas em nosso país. “É preciso conciliar a teoria com a prática.”
Ruana Corrêa
