VAMOS DISCUTIR A IMIGRAÇÃO NO BRASIL?

Os imigrantes e os refugiados, que estão sendo acolhidos por nós, brasileiros, merecem uma visão mais humanizada sobre seus dilemas e alegrias.

Pode ser que não tenhamos lido a obra completa do romancista Miguel de Cervantes, mas seguramente conhecemos pelo menos parte dela, sobre Quixote e seu fiel escudeiro, Sancho Pança. Cervantes conseguiu transmitir os sentimentos, as paixões, as debilidades e as fortalezas dos seres humanos, através das aventuras de um cavaleiro que desejava salvar fracos, oprimidos, injustiçados e donzelas em perigo.

Só que nem só de glória viveu Quixote. Ele experimentou também momentos de pesares e contrariedades. Confundiu moinhos de vento com gigantes. Alimentou em seu coração fantasias, um forte idealismo e o afã de empreender nobres feitos.

Até que ponto, nós – os profissionais de comunicação – desempenhamos um papel quixotesco e provocativo, incentivando os diferentes atores da nossa sociedade a desfrutarem da aventura de ampliar suas percepções sobre os diferentes aspectos da vida humana, como o fez Cervantes?

Será que, apesar da nossa vocação de comunicadores estar intimamente ligada ao senso crítico, nos deixamos arrastar – pouco a pouco, sem talvez percebermos – por um modus operandi, por uma visão mercantilista, por posturas apáticas, comodistas, individualistas e até mesmo egoístas?

Será que nos fixamos mais nos números do que nos seres humanos que estão por detrás das estatísticas? Sabemos enfocar conteúdos capazes de cativar almas e não apenas olhos desatentos que fazem uma leitura dinâmica ou outros atentos a banalidades e sensacionalismo?

Um dos temas abordados pela imprensa, na atualidade, é o crescimento dos fluxos migratórios para o Brasil, graças à promessa de desenvolvimento econômico do nosso país. E como nos posicionamos diante desta importante pauta? Estamos apenas reproduzindo números que chamam atenção ou realizando uma pesquisa mais profunda sobre os processos sociais que produzem os novos fenômenos migratórios? Será que não estamos multiplicando expressões equivocadas, como “invasão de haitianos”, “imigrantes ilegais”, “clandestinos” ou “estrangeiros sem qualificação”?

Provocar este tipo de debate é um papel de todos nós, pois quem atua nos meios de comunicação tem uma enorme responsabilidade de transpassar o horizonte do “furo de reportagem”. No caso dos imigrantes e dos refugiados, podemos e devemos apoiá-los para que tenham uma integração verdadeira na sociedade brasileira, sem isolá-los e largá-los à própria sorte. É importante sempre lembrarmos que muitos brasileiros se encontram em terras longínquas, com o objetivo de alcançar melhores condições de vida. Eles deveriam ser vistos como clandestinos, ilegais ou invasores?

Os gigantes desafios da sociedade moderna não devem inibir o potencial sonhador e o papel humanizador das diferentes fontes de comunicação. Ao contrário, devem servir de incentivo para construirmos debates que propulsionem o movimento de novos moinhos de vento.

Os imigrantes e os refugiados, que estão sendo acolhidos por nós, brasileiros, merecem uma visão mais humanizada sobre seus dilemas e alegrias, como aquela que Cervantes teve ao produzir sua grande obra.

Jornalistas, comunicadores e profissionais da Comunicação: vamos discutir a imigração no Brasil?

Suzanne Maria Legrady

(Administradores – 07/08/2012)



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