Marine Lila Corde passou toda a sua infância e adolescência no pequeno vilarejo de Mégevette, na França. Um localidade, como muitas na França, com aproximadamente 500 habitantes.
Localizado na região de Rhône-Alpes, Mégevette, faz fronteira com a Suíça, e a agricultura foi durante muito tempo a principal atividade econômica de seus habitantes. Apesar de ser uma região bastante dinâmica por ser fronteiriça, não foi o suficiente para segurar Marine, que veio para o Brasil a primeira vez em 2006, e desde então escolheu o país para ser sua segunda casa.
A primeira vez que pisou em terras brasileiras foi na cidade de João Pessoa. Marine estava realizando um intercâmbio entre sua universidade de origem, a Université Lumière Lyon2 e a UFPB. Acompanhou o curso de Ciências Sociais durante um ano e foi assim que concluiu sua graduação em antropologia.
Nessa época, Marine conseguiu entrar no Brasil com facilidade, afinal o visto de estudante para estrangeiros não é algo complicado de se conseguir no Brasil, ainda mais quando se trata de um acordo entre universidades para um curto período. Marine contou que foi necessário apenas um pouco de paciência para enfrentar as burocracias, mas que no final tudo havia valido a pena.
Sua primeira experiência no Brasil foi fantástica, a francesa lembrou que tirando alguns problemas de língua e adaptação inicial, sua estada no nosso país foi tranqüila e gerou diversas novas amizades, todos foram muito receptivos e a orientavam quando necessário.
Segundo Marine, ela não tinha expectativas específicas quando escolheu o Brasil para realizar seu intercâmbio. “Sentia apenas uma sede insaciável de ‘cair no mundo’, conhecer novos lugares, novas pessoas, novas línguas e os brasileiros sempre seguiram me enriquecendo nesse ponto de vista” ressaltou Marine.
Marine se considera uma “cidadã do mundo”, viajada, sonhadora e embora um pouco tímida, extremamente determinada. Hoje a estudante francesa mora no Rio de Janeiro, no bairo da Tijuca e está fazendo seu doutorado em Antropologia.
Marine falou um pouco da sua convivência com os brasileiros, e disse que sempre foi muito bem acolhida por todas as pessoas com as quais ela conviveu no Brasil.
“Cada um desses encontros me enriqueceram pessoalmente, me ofereceram novas formas de olhar o Brasil e o mundo e me propuseram diversos jeitos e sotaques para falar a língua brasileira”, contou Marine, que hoje já fala e escreve em português com facilidade.
A francesa só destacou um ponto negativo: quando encontra brasileiros que acham que tudo é melhor na Europa e depreciam o Brasil. Mas Marine aproveita esse tipo de oportunidade e conversa com quem tem essa opinião.
Segundo Marine ela acredita que cada país tem seus problemas e os seus defeitos específicos, e que somos nós que temos que tentar contribuir para melhorar as coisas na nossa medida.
Na maior parte do tempo, Marine se sente muito bem acolhida e não acha que é vista como estrangeira, diz que só é “zuada” quando não consegue dançar forró ou samba corretamente.
A estudante francesa tem o desejo de após de terminar seu doutorado e se formar, estabelecer-se no Brasil e construir sua vida aqui, mas infelizmente a burocracia não ajuda muito. “Os principais problemas são de ordem burocrática e administrativa” contou Marine.
Nos tempos atuais não existem medidas que permitem transformar um visto de estudante para um visto de trabalho caso um estrangeiro que se formou no Brasil encontre uma oportunidade de emprego no país.
Hoje em dia, o visto de estudante é reconhecido como algo muito temporário, como um intercâmbio ou uma pequena formação de alguns meses até um ano, e não como uma formação de “longo” prazo como é o caso do seu doutorado de 4 anos.
“Acho uma pena o governo brasileiro ter essa visão do estudante estrangeiro que vai se formar no Brasil, vou receber uma bolsa durante quatro anos e não vou ter como retribuir isso se não consigo trabalhar no país”, ressaltou.
Marine quer ser professora e trabalhar nas universidades brasileiras, mas para ser candidata dos concursos públicos precisa ter sua situação no Brasil regulamentada, ou seja, é necessário um visto permanente.
A única solução evidente para o problema de Marine é o casamento, o que é uma pena, já que nem todos os estrangeiros tem vontade de casar com brasileiros.
De tempos em tempos Marine retorna para França para rever familiares e amigos, inclusive esteve recentemente em seu país de origem. Marine geralmente mantém contato com sua família e se mantém informada das noticias de seu país através da internet.
Ela costuma conversar com seus amigos franceses pelo skype e por e-mail. E quando tem a oportunidade também assiste o jornal de TV5monde, um canal de língua francesa no Brasil.
França e Brasil são culturas bastante distintas, mas para Marine é difícil apontar as principais diferenças dos dois países. Há seis anos ela vive entre a França e o Brasil. Marine contou que tudo aconteceu como se tivesse ocorrido um tipo de “síntese” entre os países.
Hoje em dia ela já não consegue tanto distinguir o que na sua forma de viver cabe ao Brasil e o que cabe à França. Além disso, por ter vivido no Nordeste e no Rio de Janeiro e por ter conhecido diversos cantos da França, Marine caracteriza esses lugares como vários brasis no Brasil e várias franças na França.
Dessa forma acha difícil distinguir grandes traços gerais da cultura de cada país. Mas se Marine tivesse que pensar em pelo menos uma diferença, diria que é a “educação corporal”, ou seja, as formas de dançar, formas de andar, formas de falar com o corpo. “É mais importante no Brasil e de forma geral os brasileiros parecem mais expansivos” apontou.
Marine é mais uma estrangeira que se encantou com o Brasil e sua cultura. Sobre suas experiências, o principal benefício foi seu bilingüismo, Marine acredita que isso é uma grande sorte e riqueza, além do fato de ter aprendido a sempre relativizar as visões sobre o mundo por outra parte.
Hoje Marine diz que é cada vez mais difícil distinguir um antes e um depois de sua vinda para o Brasil, jovem, ainda tem muitos planos para sua vida, mas por enquanto ela fica no país.
Gabriela Pantaleão
