Tarde de segunda-feira, atendimento do Instituto Terra Trabalho e Cidadania (ITTC) às estrangeiras na Penitenciária Feminina da Capital (PFC – São Paulo), unidade prisional que mantém o maior número de presas estrangeiras na América Latina. Lamento a chegada Chanida. Não porque eu não a queria atender. Eu nem sequer a conheço.

Na verdade, lamento a interrupção da conversa com Beatriz. Há semanas eu ansiava ouvir sobre seus filhos. Sua narrativa é rica, envolvente, irônica. Além disso, o assunto era de interesse de minha pesquisa de doutorado em Antropologia Social, que trata da experiência prisional intra e extramuros de estrangeiras presas em São Paulo. Eu não queria pôr fim à nossa conversa para ir preencher o questionário inicial de atendimento do ITTC com Chanida.

Para minha sorte, ela não veio acompanhada de sua tradutora – teremos que esperá-la. Ganho alguns instantes com Beatriz, posso ao menos concluir nossa conversa de modo mais ameno. E, claro, observar Chanida de longe. A novata me parece menos assustada do que na semana anterior, quando foi levada ao atendimento pela primeira vez por duas sul-africanas. Naquela ocasião, nosso contato se restringiu à troca de sorrisos – o meu largo e convidativo, o dela contido e desconfiado.

Hoje, Chanida parece ter mais controle sobre sua tensão e logo encontrarei uma explicação para isso: além da superação parcial do choque de estar presa num país exterior, a novata foi acolhida pelo pequeno, introvertido, discreto e endogâmico grupo das tailandesas. Seu encontro com as conterrâneas aconteceu de forma quase instantânea por conta de seus problemas de saúde e comunicação.

Chanida é soropositiva e tem pressão alta, quadros clínicos recorrentes naquela prisão. Como não fala nenhuma língua além de tailandês, e não há na penitenciária nenhum funcionário que domine outra língua além do português, precisou da ajuda imediata de conterrâneas para se fazer entender não apenas no setor médico, mas no cotidiano intramuros como um todo.

Tento encaminhar a conversa com Beatriz para seu fim, mas ela ignora. Por frações de segundo, desligo-me de sua fala e volto toda minha atenção para Chanida. Tenho a impressão de assistir, mais uma vez, ao mesmo filme: presa por tentar atuar como mula no tráfico internacional de cocaína, a tailandesa trás no corpo e no olhar a expressão máxima do termo estrangeira.

A protagonista está desajeitada, fora de contexto. Seus braços não se confortam em nenhuma posição. Seus olhos exalam insegurança e anseiam observar – mas pode? É incontrolável, assim como o desvio fugidio quando os seus se encontram com os de outrem. E os idiomas?, penso eu. Conseguiria distinguir os ritmos dos diferentes idiomas emitidos por tantas bocas ao mesmo tempo? Não sei. Desta vez, lamento por Chanida. Estar presa é apenas atravessar um dos portões de acesso ao desconhecido e temido universo prisional paulista.

Mas posso garantir que ela não está na pior situação. Foi recebida por anfitriãs tailandesas que já estiveram em sua em sua pele. Contar com a presença delas é algo que faz toda a diferença. Na penitenciária, as veteranas atuam como verdadeiras tradutoras: com base em suas experiências nos dois mundos, o pregresso e o prisional, elas são capazes de tecer canais de entendimento que permitirão à novata dar alguma inteligibilidade ao mundo prisional.

O desafio das veteranas é apresentar e tornar legível, aos olhos da novata, o conjunto de leis (estaduais, federais e internacionais, do crime), práticas, condutas e regras (institucionais e de bom convívio na cadeia) acionado e manipulado por atores cujos interesses e necessidades estão fortemente marcados por seus respectivos poderes e posições intramuros. Tudo isso, numa unidade prisional onde nenhum funcionário domina outra língua além do português e onde estão em jogo pelo menos duas concepções diferentes, mas não necessariamente contraditórias, de crime e castigo, a do PCC e a da PFC.

Supansa chega – eis a tradutora de Chanida! Volto-me para Beatriz e, com o simples levantar da cadeira, interrompo sua fala. Sugiro colocar seu nome na lista de atendimento da semana seguinte para seguirmos com nossa conversa. Despeço-me dela com um abraço apertado – para nunca mais. Beatriz foi contemplada com o regime semi-aberto e transferida para uma penitenciária do interior paulista.

Dela, ficou-me uma fotografia e os tantos fragmentos de conversa com os quais alinhamos nossa parceria – tão tenaz e tão tênue – ao longo de três anos.

Bruna Bumachar