Uma terra de nome tupi é onde mais se fala japonês no estado do Rio. Em Itaguaí, região metropolitana, espalham-se nikkeis (descendentes), que tentam preservar vestígios da História, enquanto arrumam a casa para receber de volta os filhos. Atraídos, nas décadas de 1980 e 90, pelo canto da então pujante economia japonesa, eles retornam, empurrados pela crise e pelo pânico pós-tsunami. E impõem o desafio: reabilitar clubes e associações que marcam as colônias pelo mundo, que, no caso de Itaguaí, estão abandonados ou em estado precário de conservação. No auge da presença brasileira no Japão, o número chegou a 316.967. Desde então, vem caindo: 312.582 em 2008, 267.456 em 2010 e em 2011, ano do terremoto, 210.032, conforme dados do Consulado Geral do Japão. Itaguaí é a maior colônia do estado do Rio.

Álvaro Honda, de 29, viveu um enredo que se repete entre descendentes. Foi um dekassegui (“aquele que vai juntar dinheiro para depois retornar a seu país”) por 11 anos. Primeiro, trabalhou numa fábrica de bancos de carros. Era uma média de 12 horas por dia. Depois, numa empresa que produz pratos de macarrão vendidos em lojas de conveniência. A crise econômica atingiu em cheio as pretensões de Álvaro, que viu amigos voltarem para o Brasil mesmo antes da tsunami que devastou o país em março de 2011.

— Com a tsunami e o acidente em Fukushima, piorou de vez. No mercado faltou alimento, água. E a gente tinha a preocupação com a radiação, minha mulher estava grávida — conta Álvaro, que voltou em julho do ano passado, para trabalhar com o pai (logo após as tragédias, o Ministério da Ciência do Japão, de fato, confirmou ter encontrado substâncias radioativas em alimentos vindos da região).

Álvaro foi um dos primeiros da nova leva de nikkeis a regressar para Itaguaí. A cada semana, chegam outros. As novas gerações voltaram para os campos e para o comércio local. A estimativa não-oficial é que o número chegue a 50 famílias (o último censo feito na região, há dez anos, indica que havia cerca de 460 na colônia de Itaguaí).

A viagem de volta dos filhos de japoneses em nada lembra a que trouxe seus ancestrais em 1939. De navio, demoravam em média 40 dias para chegar aqui. Aos 13 anos, Aiko Hayasaka veio de Tóquio, primeiro rumo a São Paulo, com quatro irmãos e seus pais. Entre frases em japonês e outras em português, explica que só aprendeu a segunda língua aos 45 anos, depois que seu marido morreu.

— Na época da guerra, a gente não podia falar nada em japonês. Ameaçavam a gente de prisão. Foi o pior período. O mais difícil é manter a língua japonesa na memória das novas gerações — conta Aiko, de 85 anos, lembrando que são três alfabetos, num total de duas mil letras.

Em março, depois de 22 anos de Japão, Gilberto Hayassaka, de 56 anos, filho de Aiko, retornou com a mulher, a filipina Marieta, de 40, e o filho Ishiro, de 1 ano e 9 meses.

— Meu filho não ganhava mais como antes. Por isso, voltou — diz a matriarca.

— Hoje, se fala muito em contaminação da água, do leite, das verduras. E todo mundo está em pânico — completa Gilberto, que trabalhava numa siderúrgica, em Kenagawa, distante 232 quilômetros de Fukushima.

— Depois da catástrofe, nada fica normal. Para quem é de lá não há outra alternativa. Mas para os descendentes, a terra natal é o destino — afirma Cláudio, sobrinho de Gilberto, integrante da chapa única que concorre, este mês, à diretoria do Itaguaí Bunka Clube.

Os dez mil hectares do clube, que abriga a associação da colônia, ainda revelam traços de um cotidiano recente, de não mais de dez anos. Ali se treinava beisebol, num campo de medidas oficiais, o gatebol (popular entre os jogadores com mais de 50 anos) em oito pequenos campos, e o softball. A equipe de sumô era conhecida. O lazer da colônia era todo em torno do clube, hoje alugado a uma ONG. Há explicações variadas para o abandono. A debandada de jovens rumo a uma vida de novas oportunidades na terra dos pais contribuiu. Mas, para o atual presidente, Paulo Kajishima, o motivo principal foi o assassinato de um caseiro, decapitado dentro do clube.

— Quando eu era criança, tudo da colônia era em função do clube. Não existia lazer fora — lembra Paulo, filho de japoneses.

No dia 3 de agosto, Keiko Kawadi, de 30 anos, voltou. Passou dez anos entre idas e vindas. E viu de perto, no ano passado, os efeitos do terremoto no ânimo dos dekasseguis. Era medo o que via entre os colegas de trabalho, numa fábrica de chocolate em Osaka. Ao ponto de uma conhecida, brasileira, ter largado tudo e voltado na semana do terremoto. Há dois anos, seu irmão caçula voltou a Itaguaí com a ajuda do governo japonês. Mesmo sem o auxílio, que não é mais oferecido, ela optou por voltar. Além de tudo o que a afastou de lá, um motivo a empurrou de volta: o filho de 3 anos, Leonardo, que ficou com a avó, no Brasil. Seu primo Marcos Makino, de 32 , também trabalhou no Japão e voltou há cinco anos.

Com uma riqueza simbólica peculiar, e fora de sua terra, os imigrantes enfrentam, por aqui, o complexo desafio de deixar sua história registrada e, ao mesmo tempo, reproduzir a estrutura social e de lazer dos ascendentes. Os clubes são fechados e apenas os descendentes podem participar. Em Itaguaí, os templos budistas e as fotos e registros compartilhados entre os mais velhos são hoje os únicos fóruns para driblar a falta de outros espaços. É no templo Hoshoji, onde cânticos e sermões têm legendas em português e japonês, que se encontram livros, jornais e até mimos como um acupunturista. Há planos de reabrir um curso de japonês, que já existiu na cidade. O monge Jyun Sho Yoshikawa, chamado de padre pelos fiéis que acompanham as celebrações, esteve no Japão em julho de 2011. Ele visitou as áreas devastadas pela tsunami e viu muitos brasileiros querendo retornar.

A historiadora Mariléia Inoe, autora do livro “No outro lado nasce o sol: O trabalho dos japoneses e seus descendentes no estado do Rio de Janeiro”, ajudou a escrever parte dessa história, ao se debruçar sobre dados sobre o fluxo de mão de obra para o Japão entre os anos 1970 e o começo desta década, e sobre a vida de famílias japonesas pioneiras na agricultura da Baixada Fluminense e de Itaguaí. Ela enxerga um movimento cíclico nessa mão de obra, ora atraída pela chance de juntar dinheiro no país-mãe, ora repelida pela conjuntura japonesa ou por desilusões pessoais.

Fabrício Matsunaga, de 30 anos, decidiu voltar em 2008, no auge da crise no Japão, considerada a pior desde a Segunda Guerra. Ex-estudante de Direito no Brasil e operário no Japão, ele hoje é um pequeno agricultor e se dedica às goiabas. Da terra do pai, trouxe a família que formou por lá e memórias nada românticas. Entre abril de 2009 e março de 2010, o governo japonês chegou a incentivar a volta de imigrantes, com um pagamento de 300 mil ienes, o equivalente a R$ 7,8 mil.

— Tinha muita gente desempregada por lá. Com o país em crise, vi muito brasileiro morando na rua. Para mim, a terra de oportunidades foi uma ilusão — conta Fabrício, que foi sem falar japonês.

— Eles tinham um Japão idealizado. Um Japão que não existe mais lá. A volta é um pouco traumática. Não se sentem nem mais daqui nem de lá — explica a historiadora.

O Brasil é hoje, segundo a estudiosa, a maior colônia japonesa fora do Japão. São 1,5 milhão de nikkeis, cerca de um milhão deles em São Paulo. O Rio, explica ela, era lugar de reimigração. Na época da Segunda Guerra, atraída pelo baixo preço das terras, cerca de 25 famílias por mês desembarcavam na Mazomba, pequeno bairro de Itaguaí. Há hoje 23 associações japonesas no estado. A influência foi forte também na Baixada Fluminense.

Na terra, com a qual os nikkeis mantêm uma relação quase sagrada e a qual se dispunham a domar, ficaram as marcas do êxito: foram pioneiros em técnicas de plantar tomate e goiaba (cujo aroma é marca pelas terras da Mazomba). Papucaia e Funchal, bairros de Cachoeiras do Macacu (na Região Serrana, próximos a Itaguaí), atraíram, nos anos 60, parte desses imigrantes, e até hoje a goiaba é ponto alto na economia dali.

— O medo deles é perder a História — resume Mariléia.

(Globo – 15/09/2012)