PRESENÇA ESTRANGEIRA

Hoje se intensifica com celeridade, como não mais costumava acontecer em décadas recentes, um fluxo migratório de estrangeiros para o Brasil, em busca de melhores condições de vida e mais amplas possibilidades de arranjar um emprego. Desde 2010, cerca de 550.000 novos imigrantes fixaram residência no País, sendo que as autorizações de trabalho, temporárias e permanentes, que somavam apenas 43.000 há três anos, cresceram para 70.000 no ano passado.

Para que se tenha uma ideia do quanto aumentou o citado fluxo, cumpre registrar que há vinte anos ele não passava de 2.600 pessoas por ano.

Existe notória diferença entre a imigração maciça ocorrida no fim do século XIX e início do século XX, e aquela que se registra na atualidade. Anteriormente, milhões de europeus e japoneses vieram para o Brasil com o objetivo de substituir a mão de obra oferecida pelo trabalho escravo na lavoura, sobretudo nas regiões Sul e Sudeste. No presente, acorrem ao País profissionais altamente qualificados, que tentam escapar da crise econômica internacional e das altas taxas de desemprego dela decorrentes em suas nações de origem. De acordo com dados fornecidos pelo Ministério do Trabalho, dos 70.000 estrangeiros que obtiveram visto de trabalho, no ano de 2011, mais da metade possui curso superior completo.

Embora o crescimento do Brasil venha sendo menor nos últimos anos, existe ainda bastante oferta de mão de obra, sobretudo em áreas como a da engenharia e nos setores financeiro e de tecnologia da informação, para os quais ainda não há número suficiente de brasileiros adequadamente qualificados.

Contribui sensivelmente para essa demanda a expansão da exploração de petróleo e a consequente proliferação de plataformas. Outros setores que têm acolhido a especialização estrangeira são o das obras de infraestrutura e a construção civil. Vale ressaltar, também, a importância da próxima realização de grandes eventos esportivos no País, a exemplo da Copa do Mundo, em 2014, e da Olimpíada de 2016, programada para o Rio de Janeiro.
Para se estabelecer no Brasil, não basta ao imigrante a disponibilidade de fixação do domicílio, pois, segundo estabelece a legislação nacional, cabe à empresa, ou ao órgão contratante, a incumbência de solicitar oficialmente o visto de trabalho para o estrangeiro. Isso não tem impedido, entretanto, que muitos tenham chegado ao Brasil sem nenhuma garantia específica, mas apenas com um visto de turista ou estudante, geralmente com o objetivo declarado de cumprir cursos de pós-graduação. Em seguida, entram em contato com as empresas e comprovam junto a elas seu grau de especialização nos setores que precisam de trabalhadores qualificados.

Tal crescente tendência deve-se, em grande parte, ao déficit de qualificação profissional. Prevê o Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) que ocorrerá em sua área, nos próximos cinco anos, a necessidade de contratar 300.000 pessoas especializadas, enquanto o Brasil terá formado apenas a metade desse contingente.

Não existe, portanto, razão plausível para atitudes xenofóbicas de rejeição à vinda de estrangeiros, que chegam não apenas com o intuito de obter trabalho, mas, também, desejando contribuir numa troca de valores para o desenvolvimento do País, tal como aconteceu, de modo incontestável, durante o fluxo migratório de um século atrás, que deixou um legado positivo e duradouro.

(Diário do Nordeste – 08/10/2012)



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