Apesar de ter sido conquistado pelo carisma do povo brasileiro antes mesmo de chegar ao país, o haitiano E. C., de 30 anos, formado em economia pela Université d’Etat d’Haïti (UEH), vive hoje na cidade maravilhosa uma desilusão com sua vida profissional.

E. C. deixou o Haiti com destino à República Dominicana no ano de 2004. Nessa época, além de sofrer com uma grave revolta social, a população haitiana vivenciava um período de perseguições contra estudantes, por parte do governo. Ao chegar ao país vizinho, ele estudou e trabalhou com turismo, e foi professor particular de francês, espanhol e inglês.

O encantamento de E. C. pelo Brasil surgiu ao ouvir, de turistas brasileiros, que o país abrigava um povo acolhedor, receptivo e alegre, ao contrário do que experimentava na República Dominicana, onde convivia diariamene com o preconceito racial. Seu interesse pelo Brasil aumentou ainda mais quando soube das ótimas oportunidades de trabalho na área de turismo, principalmente em locais como Copacabana e Búzios. No entanto, viveu sua primeira desilusão ao ter o pedido de visto negado.

Pouco depois, E. C. recebeu a notícia de que, devido ao terremoto que atingiu seu país de origem, o Brasil abria as portas para acolher haitianos. Isso alimentou sua esperança de chegar a um país que lhe ofereceria melhores condições e oportunidades profissionais e, para tanto, escolheu migrar pela fronteira peruana. E. C. chegou na fronteira entre Brasil e Peru no dia 20 de outubro de 2011, migrando para o lado peruano com o visto de negócio, que já possuía. Após mais uma negativa para o visto brasileiro, ele e mais seis haitianos atravessaram a fronteira em uma viagem de dois dias, passando por Santo Domingo, cidade do Panamá, Lima e Iquitos, de onde, finalmente, atravessaram o rio Amazonas de barco, desembarcando em Tabatinga (Amazonas).

Ao finalmente chegar ao Brasil, E. C. se decepcionou com as condições de higiene na casa onde os haitianos estavam alojados, e resolveu alugar um quarto enquanto esperava para seguir ao destino final, a cidade do Rio de Janeiro. Com o passar dos dias, a desilusão do haitiano só aumentava ao ver imigrantes vindos do seu país serem enganados por traficantes que prometiam todo tipo de sonhos. Muitos que venderam tudo o que tinham para poder realizar a viagem se encontravam em uma situação em que faltava comida, espaço, organização, e em que sofriam até com deboche e preconceito. Enquanto sacerdotes da paróquia que os acolheu filmavam e riam de haitianos lutando pra conseguir o pouco de comida que havia, os jornais de Manaus divulgavam que essa população vinha trazendo a cólera para o Brasil.

Muitos viveram com a ajuda da paróquia, e outros viviam de ajudas da família – algumas no Haiti, outras em outros lugares, como Estados Unidos e Europa. E. C., no entanto, não teve ajuda alguma e conseguiu sobreviver apenas com o dinheiro que havia guardado. Mas, independente de como conseguiam comida e abrigo, a situação dos imigrantes era tão grave que tiveram que formar um comitê, do qual E. C. era porta-voz, para ajudar a resolver esses problemas. O grupo conseguiu levar a real situação à Polícia Federal, a deputados federais, à imprensa e a ativistas dos Direitos Humanos; o que fez com que a TV Globo noticiasse a triste situação pela qual os haitianos passavam. Com isso, eles conseguiram uma relativa vitória: o governo brasileiro fechou a fronteira e criou a lei que garantia visto de cinco anos aos haitianos que estavam no Brasil, além de 110 vistos mensais que deveriam ser concedidos no Consulado Brasileiro de Porto Príncipe, no Haiti.

E. C. vive hoje no Rio de Janeiro com uma condição de vida ainda não satisfatória e muio diferente do que lhe era prometido. Os brasileiros que conheceu na República Dominicana divulgavam oportunidades de crescimento profissional e afirmavam que seria fácil para ele conseguir emprego na área de turismo, por ser poliglota – o haitiano domina inglês, francês, espanhol, créole haitiano, português e alemão. Ele, no entanto, nunca recebeu uma proposta formal para trabalhar no Brasil.

Com desejo de ser empresário, abrir um restaurante de comida caribenha e/ou uma agência de viagens no Rio de Janeiro, E. C. teve seus sonhos destruídos pelo racismo, violência e burocracia, que, segundo ele, limitam bastante as possibilidades de crescimento dos estrangeiros no país. O haitiano diz considerar o povo brasileiro muito gentil e acolhedor, mas afirma que o país ainda não está preparado – principalmente a nível institucional – para receber imigrantes estrangeiros e visitantes.

O economista haitiano não pretende ficar por mais de quatro anos no Brasil, mas ainda não sabe se voltará para casa ou migrará para outro país. Ele frisa que não veio como refugiado, mas em busca do que era prometido pelos brasileiros que conheceu: um futuro melhor em um país que, além de estar crescendo, é melhor economicamente do que seu país de nascimento. Infelizmente, o sucesso profissional no Brasil ficou apenas em seus sonhos e ilusões.

Camila Werneck