Para o verbete “preso”, diz o dicionário: 1. aquilo que está seguro, fixo, ligado a coisa ou pessoa por qualquer meio; fincado; fixo; pregado: Parafuso preso na madeira [ antôn.: Antôn.: despregado, solto. ] 2. Condenado à prisão ou privado da liberdade; aprisionado; cativo; enclausurado. [ antôn.: Antôn.: liberto, livre, solto. ] 3. Encerrado em local fechado ou impedido de se locomover livremente (preso no escritório, no trânsito); 4. Que não tem liberdade de ação: preso à determinação do chefe. [ antôn.: Antôn.: liberado. ]; 6. Ligado moralmente: preso pelos laços de amizade. [ antôn.: descomprometido, desobrigado. ].

“Mulas” oriundas de mais de 50 países. Acusadas e condenadas por tráfico internacional de cocaína. Um desafio: manter-se presa (6) enquanto se está presa (2), e ainda, num país exterior. Como?

Cartas: presença tecida no papel; na caligrafia e nas palavras riscadas ou apagadas; nos desenhos cuidadosamente traçados, pintados, purpurinados; nos adesivos infantis colados; no perfume borrifado; no conteúdo das mensagens. Presença também possível nos escritos que preenchem solitariamente as linhas de folhas comuns de fichário. Independentemente do tipo, podem ser carregadas junto ao corpo, lidas, relidas, guardadas. Presenças guardadas e aguardadas. Demoram a chegar – 10, 15, 30 dias ou mais. Tempo de espera que é rompido (disfarçado ou descaracterizado?) quando cartas passam a ser enviadas continuamente em curtos intervalos.

Fotografias: presença tecida nos pixels. Quando organizadas nos álbuns de família (cadernos escolar aramados onde colam as fotografias recebidas de parentes e amigos íntimos) mostram a dinâmica familiar ao longo do tempo; quando fixadas na parede das pedras (camas) embalam o sono e também a insônia; quando carregadas nos bolsos das calças amarelas dos uniformes prisionais tornam-se companhia; e, ainda, são provas visuais do crescimento e bem-estar dos filhos.

Emails: presença tecida na caligrafia e no conteúdo das mensagens; eventualmente também nos beijos eternizados no papel com batom vermelho. São semanais e mediados – internet é proibida “lá dentro” da prisão. Uma vez por semana, eu, um dos pombo-emails do ITTC, faço sair do endereço eletrônico do ITTC mensagens – de no máximo duas páginas em formato de imagens escaneadas – com destino aos mais variados sítios. As respostas chegam geralmente digitadas à caixa de entrada do mesmo endereço do Instituto; podem vir acompanhados de desenhos dos filhos e fotografias de casas, lugares e, mais comumente, de entes queridos. São impressas na semana seguinte e entregues às presas cujos nomes preenchem o campo “Assunto”. Como as cartas, podem carregadas junto ao corpo, lidas, relidas e guardadas.

Telefonemas: presença tecida em falas e escutas. Seu maior valor, a instantaneidade da interação. Mas as regras da prisão são claras: permitido o recebimento de apenas duas ligações internacionais por ano, no aparelho da sala da diretora de reeducação, com duração máxima de vinte minutos cada. Ligar de dentro para fora? Não! Não se pode efetuar sequer um telefonema ao longo de toda a pena de prisão. Recorrem ao celular. Seus maiores valores, a simultaneidade e a espontaneidade da interação. Contudo, as palavras são levadas pelo vento da instantaneidade. Seu uso é ilegal, mas as finalidades desse uso nem sempre o são: acompanhar o crescimento dos filhos; participar, pela escuta dos barulhos da casa (TV, rádio, vozes de pessoas que estão no entrono, etc) e pelo “viva-voz”, a vida doméstica; solucionar (e também criar) problemas familiares aos quais estariam alheias por outros meios de comunicação; conhecer um pretendente, namorar etc. Como os aparelhos entram na prisão? Onde são escondidos? De quem são? “Não se pergunta sobre esse tipo de coisa na cadeia”, costuma-se advertir.

Mercadorias: presença tecida na materialidade dos objetos. São trocadas entre estrangeiras e seus parentes via correio. Saem presentes em datas comemorativas e entram jumbos. Artesanatos de crochê feitos pelas presas, brinquedos, roupas e acessórios femininos, de um lado, e sabonetes (se for líquido, tem que ser transparente), calcinhas e sutiãs, balas (soft ou semelhante), suco em pó, escova de cabelo, de outro lado, levam parte da pessoa, de seu afeto e do local de envio. Também atualizam os papéis sociais de cada envolvido. O custo da postagem é alto, portanto, nem sempre a presença e o afeto se dão por esse meio. Mercadorias tornam-se ainda mais valiosas afetiva e economicamente.

Cartas, emails, fotografias, mercadorias, telefonemas: instantes de presença. Em sinergia, proporcionam presenças ausentes e ausências presentes. Criam um meio, meio de comunicação, meio-ambiente. Meio onde encontros e desencontros acontecem; onde crianças conhecem e reconhecem suas mães presas; onde namoros e transas são experimentados; onde casamentos são refeitos, desfeitos e feitos; onde fofocas, rumores e silêncios são disseminados; onde problemas são desenrolados e enrolados. Não é nem “lá dentro” da prisão nem “lá no meu país” ou “na minha casa”. É entre: conecta os dois “lás” ao mesmo tempo que os mantêm distantes. Um terceiro espaço? Possível.

Algo de integralidade e simultaneidade falta nesse “meio”, queixam-se elas. Sonham com isso. E – quanta ironia! – são nos sonhos que desfrutam disso: encontram-se com entes amados, conversam com eles, trocam beijos e abraços – tão reais e apertados que quando acordam continuam a sentir em seus corpos o calor e o toque do contato. Palavras, silêncios, imagens (em movimento!), toques, tudo ao mesmo tempo. Tempo de plenitude! Mas raro. Depende da boa vontade das almas, do inconsciente, da sorte, da vontade de deus.
Desejam imagem em movimento, com áudio e em tempo (quase) real. Skype, facebook, messenger? Não! Internet é proibida. Celulares que entram são dos mais simples, têm vida útil curta. Costumam ser apreendidos nas blitz.

Nesse meio, um desejo pessoal, as vídeo-cartas. Prestes a se realizar: “vamos a Moçambique e África do Sul? Seria interessante para sua pesquisa?”, certo dia o professor e amigo Omar Ribeiro Thomaz me perguntou. “Sim!”, foi minha resposta, “as vídeo-cartas!”. Eu que depois de tanto tempo fui, entre outras coisas, pombo-email, poderia voar até suas casas e levar pessoalmente cartas em formato audio-visual. Uma novidade no meio; um experimento; uma porta de entrada para o outro lado de lá; uma experiência única para elas e para mim.

Bruna Bumachar