Estrangeiros deixam a terra natal também interessados em abrir aqui um negócio próprio.

No fim de 2011, o economista espanhol Sergio Furio decidiu trocar Nova York por São Paulo. Chegou ao Brasil em março com plano de abrir um negócio próprio voltado para facilitar a vida dos clientes bancários. Virou sua especialidade depois de 15 anos trabalhando em assessoria estratégica aos principais bancos de varejo na Europa e nos EUA. Sua trajetória teve início em Madri, onde trabalhou no banco de investimento Deutsche, mudando em 2008 para o Boston Consulting Group, em Nova York, onde ficou até o ano passado.

Não demorou dois meses para Furio lançar o bankFacil, uma página na internet cuja proposta é ajudar os brasileiros a melhorar suas escolhas relacionadas aos produtos bancários. “Os negócios vão indo muito bem, temos mais tráfego do que prevíamos”, diz o economista.

Casado com uma brasileira, também economista, que ele conheceu nos EUA, Furio conta que o motivo da escolha do País foi mais profissional do que pessoal. “O Brasil é um mercado com grande potencial na área de serviços bancários”, diz ele. “O consumidor brasileiro é carente de educação financeira e quer encontrar uma fonte objetiva que o ajude a tomar as decisões.”
Furio faz parte de um batalhão de estrangeiros que deixa a terra natal em busca de um emprego ou bons negócios no Brasil. Desde 2005, vem crescendo o número de pedidos de vistos de trabalho para estrangeiros no País. Com a crise nos EUA e na Europa, o Brasil se tornou atraente para os profissionais de lá.

Andrezza Santana, gerente de marketing da Monster Brasil, especializada em recrutamento e gerenciamento de carreiras online, diz que há mais de 420 mil estrangeiros cadastrados nos sites da empresa no mundo todo que querem trabalhar no Brasil. “A maioria é de americanos, espanhóis e italianos.”

Só nos últimos quatro anos, o italiano Marco Barbieri, de 31 anos, engenheiro industrial, morou em seis países antes de vir para o Brasil em abril. Consultor da A.T. Kearney, Barbieri já havia estado por aqui algumas vezes, em projetos pontuais.
Ele morou em Milão até 2008, quando se mudou para Madri, onde fez um MBA. Nesse curso, que durou um ano, o italiano fez um intercâmbio de seis meses na China. Ele queria ter a experiência de conhecer um país emergente, mas não gostou da cultura chinesa, “muito fechada aos estrangeiros”. Então voltou para a Itália, no escritório da A.T. Kearney de lá. Foi nessa época, em 2010, que veio ao Brasil pela primeira vez, para um projeto que durou sete semanas.

“A primeira impressão que tive de São Paulo foi totalmente diferente da experiência em Hong Kong, e eu me senti em casa”, diz o italiano, que não estudou português, mas fala bem o idioma.

Em janeiro de 2011, ele foi para o escritório de Nova York, onde ficou até abril de 2012, quando pediu para ser transferido para o Brasil. Ao chegar ao País, o enviaram para um projeto no México, onde permaneceu por seis meses. De volta a São Paulo, Barbieri espera ser promovido a gerente do escritório local.

Foi para aproveitar o aumento da “importação” de mão de obra que a advogada Marta Mitico abriu, em janeiro deste ano, a BR-Visa Immigration Solutions, que presta consultoria a empresas brasileiras que contratam mão de obra estrangeira ou multinacionais que enviam profissionais para o País. “Boa parte são companhias estrangeiras que estão chegando ao País e trazem mão de obra especializada do exterior”, diz Mitico.

O português Rui Felipe Rodrigues Gonçalves deixou para trás 18 anos de funcionalismo público na terra natal para ser diretor-geral da Espobras Construção e Incorporação. Formado em filosofia e advocacia, ele não se arrepende de ter trocado Lisboa por Brasília: “A situação lá está muito complicada. Em oito anos, eu não tive aumento de salário.”

Marcelo Rehder

(O Estado de S.Paulo – 12/11/2012)