HOLANDESES DE SANGUE E LEITE

Há pouco mais de um século, imigrantes vindos da Holanda começaram a chegar à região de Ponta Grossa, no Paraná. Não foram os primeiros holandeses que vieram para o brasil. no século dezessete eles inclusive ocuparam por algum tempo a Bahia e Pernambuco.

Como imigrantes, os holandeses começaram a voltar em meados do século dezenove e criaram colônias em vários estados. A colônia paranaense foi uma das que se destacaram pela contribuição dada à nossa agropecuária.

Em Carambeí, cidade de 20 mil habitantes, um parque industrial agropecuário bem ativo e como marca registrada, graciosos moinhos, que funcionam como estandartes holandeses enfeitando os também graciosos e produtivos campos gerais do Paraná.

Mas 100 anos atrás, a única promessa de civilização eram os trilhos da estrada de ferro. A companhia colonizadora anunciava na Europa a venda de lotes nessa área. Foi assim que no começo do século XX, os holandeses voltaram a ter interesse pelo Brasil.

No sudoeste da Holanda, a 100 quilômetros de Amsterdã, a cidadezinha de s-Gravendeel é um lugar tranquilo, e não é difícil encontrar parentes da família De Gueus, que agora vive na cidade de Carambeí, no Brasil.

No Centro Histórico de Carambeí, no bonito e variado acervo sobre a colonização, uma sala é dedicada aos De Gueus, na figura do seu Artian e de dona Helena, casal que, pode-se dizer, foi matriz de uma população.

Dick De Gueus, hoje com 70 anos, é um estudioso da genealogia da família e fundador da Casa da Memória de Carambeí. No entender de Dick De Gueus, três pilares deram sustentação à formação da colônia. Primeiro, a religião. Até hoje, a igreja evangélica reformada é uma das referências do município.

Outro pilar que sustentou a fixação das famílias em Carambeí foi a educação. Um dos cômodos do museu representa uma salinha de aula antiga, do tempo em que não havia caderno, o aluno aprendia escrevendo em uma lousinha.

O terceiro pilar foi a união dos imigrantes no trabalho, no cooperativismo.

O motor que garantiu o sucesso da implantação da primeira colônia holandesa no Brasil foi, sem dúvida, o gado leiteiro. Na Holanda existe um lugar que é considerado como o centro de origem desse gado: a região chamada Frísia, que fica bem ao norte do país.

A família de Siebe Reistman está na Frísia desde 1850. Já são cinco gerações. A vaca que ele cria é a frísia original, vermelha e branca. Faz parte de um interessante programa holandês, pois a raça esteve ameaçada de extinção. É um banco genético só que espalhado por pequenas propriedades. De apenas 40 que restavam, hoje já existem 350 cabeças. Siebe tem 66 cabeças e conta que cria por paixão, assim como fez o pai, o avô, o bisavô e o trisavô. Ele recebe um incentivo financeiro por isso.

Comparando com a vaca holandesa moderna, as características da frísia original, explica Siebe, são bom rendimento de carne e leite, mas não tanto quanto a moderna. O leite tem mais gordura e, de um modo geral, o animal é mais dócil e mais resistente às doenças.

Localizada no norte do Paraná, a Fazenda Frankanna é uma das campeãs nacionais em eficiência de produção. A média de produção está entre as mais altas do mundo: cerca de 42 litros por dia.

A sala de ordenha é equipada com o que tem de mais moderno no Brasil hoje. A fazenda, porém, não trabalha com robôs. Por enquanto, no Brasil, não se paga o investimento nessa tecnologia, como explica um dos donos, Richard Djikstra.

“No futuro é muito provável que venhamos a usar esse tipo de equipamento. Há uma tendência no custo de mão de obra, que está se elevando ano após ano”, declara. Mais do que investir em equipamento, no entanto, o forte da fazenda está na genética do gado. Uma tradição que vem desde que a família comprou as primeiras glebas no Paraná.

No mesmo navio em que a família Djikstra viajou para o Brasil em 1947, veio um rebanho selecionado de 40 novilhas.

O gado fino que veio na bagagem dos Djikstras trouxe grandes contribuições pra a formação da pecuária leiteira do Brasil, conforme analisa o agrônomo William Tabchoury, gerente de uma das maiores companhias de genética bovina do mundo.

“Os holandeses são pioneiros na identificação, controle e registro de animais. Isso se iniciou na Holanda em 1874. A partir daí teve a possibilidade de se realizar melhoramento genético do rebanho, essa é a segunda contribuição. O Brasil hoje é o quinto maior produtor de leite do mundo e cerca de 80% a 90% do leite produzido tem alguma influência da raça holandesa”, explica o agrônomo.

(Globo Rural – 13/01/2013)



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