O sol do meio-dia bate nas joias e bijuterias do tabuleiro montado na calçada mais movimentada do mais nervoso bairro do Recife. O brilho do metal e das pedras chama menos atenção, na Boa Vista, que o vendedor. Ada Gueeye não precisa avisar. É estrangeiro. Deixou o Senegal há três anos rumo ao Brasil, atraído, como outros colegas africanos, pela prosperidade econômica nacional. Decidiu se mudar quando o pai faleceu, deixando em Dakar, capital do Senegal, um casal de irmãos, duas esposas — a poligamia é aceita no país —, dois filhos e uma vida na miséria. “Precisava ajudar minha mãe, mas ela não gostou de eu ter escolhido viver aqui”. Tinha medo das guerras nos morros, do tráfico de drogas, pensava que o filho morreria de fome e pedia que ele optasse pela Europa.
Ada, 35 anos, escolheu o país que aprendeu a admirar ainda na infância, pela televisão. “Sou fã do futebol brasileiro desde menino”. Primeiro instalou-se em São Paulo, e mandou vir a segunda esposa, Bentu, 22 anos. Aqui, tiveram o filho caçula, Numde, hoje com 1 ano e meio. Há seis meses a família desembarcou no Recife em busca das oportunidades que não encontrou na capital paulista.
R.S*, 27 anos, partiu do Senegal quando se separou do marido e desfez as malas no Recife há 11 meses, depois de dois anos em São Paulo. “Eu queria crescer na vida”, conta. Como Ada, também vende bijuterias. O que fatura custeia as despesas pessoais e ajuda a sustentar a filha, de 10 anos, que vive com a avó na África e não vê a mãe desde 2011. “Quero que ela estude e vá para uma universidade na Europa”, conta R.S.
Há dois meses, o irmão dela, A.S.*, 28 anos, seguiu o exemplo e se instalou no Recife. Começou a comercializar seus produtos na Feirinha de Boa Viagem, mas incomodou a concorrência. “Um dos vendedores locais começou a falar que tinha mais direito de vender lá porque era brasileiro”. A.S. retrucou: “Mas aqui até os cachorros são brasileiros”. Os dois saíram no braço. Desde então, A.S. atua apenas na Boa Vista, onde, segundo ele, o convívio com os outros comerciantes é mais tranquilo.
Entre os senegaleses que vivem e trabalham no bairro, a regra é respeito. Como comercializam o mesmo tipo de mercadoria, tentam não atrapalhar os colegas e instalam seus pontos de venda longe um do outro. A distância, no entanto, é apenas física.“Irmãos de terra são como irmãos de sangue”, costumam repetir. Os lojistas da região, por sua vez, acabam tornando-se amigos e ajudando os estrangeiros a se adaptar: tiram dúvidas na hora de passar troco, ensinam o idioma, dão dicas de lugares para comer. “Os africanos são educados, carismáticos, mas reservados. Ficam sempre concentrados no trabalho”, diz o fiscal de loja Alexssandro da Silva, que trabalha na área.
País de maioria islâmica (90% da população), onde a língua oficial é o francês (e o dialeto predominante é wolof), o Senegal fica na parte ocidental da África. Como o Brasil, também foi colonizado por portugueses, mas sofreu influência maior da França, o que, segundo Ênio Castelar, cônsul do Senegal no Recife, explica a postura formal tanto no vestir quanto na maneira de tratar as pessoas. É o único país da África com representação consular em Pernambuco. “Existe uma identidade cultural muito forte entre a África e o Brasil, e isso aproxima os africanos do país. Eles se adaptam muito bem aqui e estão em busca de trabalho. Somos para a África o irmão mais velho que ficou rico”, diz Castelar.
Para o cônsul, a presença dos senegaleses aqui simboliza o restabelecimento de um vínculo antigo entre o Recife e Dakar.
Ele destaca que a distância entre as duas cidades é a menor entre a América Latina e o continente africano — por isso, foi a primeira rota transatlântica realizada pelo Zeppelin. São 3.180 Km, o que equivaleria a três horas e meia de viagem de avião, se houvesse voos diretos: hoje é preciso fazer conexão em Fortaleza ou São Paulo.
Em novembro, foi firmado um convênio entre as gestões municipais do Recife e de Dakar, para a troca de experiências. “São duas cidades muito parecidas, tanto na cultura quanto na gastronomia, e que têm problemas em comum, como a questão da mobilidade e do transporte público”, diz o cônsul. País rural, com baixo nível de industrialização, o Senegal importa confecção de Fortaleza (CE). “A criação de uma rota direta, que interligue as cidades do Recife e Dakar, pode contribuir para a economia de Pernambuco, já que o estado possui o segundo maior polo têxtil da América Latina”, defende. O interesse do governo senegalês em se aproximar do Brasil é tanto que, segundo Castelar, o país está tentando transformar o português em língua oficial.
Entre os senegaleses que trabalham na Boa Vista, a maioria optou por se instalar em pensões ou pequenos apartamentos nos arredores. Na rua, agem como se fossem brasileiros. Em casa, os costumes do país de origem são rigorosamente preservados, incluindo a leitura diária do Alcorão. A. S também não abre mão da culinária africana e, quando recebe a visita da Aurora, até arrisca cozinhar uma omelete à moda senegalesa para a equipe. A receita é salva pela chegada da irmã, que sempre aparece para dar uma força nas tarefas domésticas. R.S. achava tudo moderno demais quando chegou aqui, mas foi se acostumando. “As pessoas se expõem muito na rua. Mas agora entendo que é uma questão cultural”.
A.S. divide um apartamento de dois quartos e cozinha americana com outros dois africanos, na Boa Vista. Ada preferiu morar na Zona Norte da cidade, em Campo Grande, próximo a um amigo, Baba, 27 anos, que vive no Brasil desde 1998. Há sete anos, Baba estava de passagem por Pernambuco quando conheceu a atual esposa e acabou fixando moradia. Tornou-se monogâmico e teve três filhos, que nunca conheceram o seu país e nem falam o idioma paterno. “Sinto falta da minha terra e da família, mas não posso mais ficar lá. Tenho uma vida toda montada aqui”, argumenta, com um leve sotaque estrangeiro, se comparado ao dos recém-chegados.
Ada também sente falta dos parentes que deixou por lá e está planejando uma troca neste ano: quer mandar Bentu, a segunda esposa, para o Senegal e trazer a primeira e seus dois filhos para o Brasil. “Ela reclama muito porque ainda não veio, mas é impossível manter as duas aqui. A despesa ia ser bem maior”. Ele divide o aluguel de R$ 800 com três amigos africanos e mantém uma babá para a filha pequena, que se comunica melhor com ela do que com os pais, que falam em dialeto entre eles. Ada tem esperança de conseguir trabalho fixo no Recife e se estabelecer na cidade, apagando as lembranças da infância difícil na África. “São marcas que os senegaleses mais velhos carregam. A geração nova tem uma vida melhor do que a nossa”.
Professor de Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Marcos Lima explica que o aumento do número de imigrantes no Brasil está relacionado à imagem que o país projetou no panorama internacional. “Durante os anos do governo Lula, o Brasil passou a ter uma política internacional mais proativa. Houve uma consolidação do Mercosul (Mercado Comum do Sul) e da Unasul (União das Nações Sul-Americanas). O país passou a fazer articulações intensas com a África por meio de iniciativas como o Fórum Ibas (India, Brasil e África do Sul). Tudo isso serviu para colocar o país num lugar de destaque que chama a atenção de quem está lá fora”.
A esse cenário atraente contrapõe-se a falta de perspectiva e mobilidade social para os jovens na África e a crise na Europa. “Começou a expulsão de africanos e arábes que estavam irregulares. O controle ficou mais rigoroso em relação a essa população. Portugal, Espanha e Itália são países com grandes dificuldades, 50% dos jovens com idade de trabalhar estão desempregados na Espanha. A Europa não tem muito a oforecer para quem está à procura de emprego”, diz Lima.
O Brasil se configura uma alternativa mais promissora, como confirmam as estatísticas. Em 2011, o Ministério do Trabalho e Emprego expediu 70 mil autorizações de trabalho para estrangeiros no país, 25,9% a mais do que no ano anterior — o balanço de 2012 ainda não foi fechado, mas a expectativa é de que chegue a 80 mil. Já o último censo demográfico, divulgado em 2010 pelo IBGE, registra um crescimento de 86,7% na quantidade de imigrantes com residência no país, com relação a 2000: hoje são 286.468.
Mudou Lô, 25 anos, chegou de Dakar há dois meses e conhece bem o cenário descrito pelo professor Marcos Lima. “A Europa não está boa para trabalhar, vendemos pouco lá. Só tem crise”, conta ele, que já trabalhou na Espanha e hoje está instalado, junto com um amigo, numa pousada na Boa Vista. Paga R$ 300 por mês, sem as refeições, e trabalha como ambulante.
Dados do Departamento de Estrangeiros da Secretaria Nacional da Justiça, do Ministério da Justiça, dão conta de 2.916 africanos regulares vivendo no país, dentre os quais estão 470 senegaleses. O órgão não tem informações regionais, nem estima quantos estão na clandestinidade. O trabalho de fiscalização fica por conta da Polícia Federal, que atua com base em denúncias.
O delegado Antônio de Pádua, do Departamento de Imigração da Polícia Federal em Pernambuco, afirma que o crescimento da comunidade africana no estado é um movimento recente: “É uma realidade que já existe em São Paulo e que começa a se desenhar por aqui”. Para ele, esse movimento só não é maior porque não há voos diretos entre o Recife e o continente africano — provavelmente, os imigrantes africanos estão vindo para cá de São Paulo ou Fortaleza por conexões domésticas.
“O Brasil sempre foi um país que acolheu bem os imigrantes. E a presença desses africanos aqui é algo positivo, desde que eles estejam dentro da legalidade. O mais importante é que são jovens que querem trabalhar e dar a sua contribuição ao país”, diz Marcos Lima. Se depender do boca a boca dos senegaleses, outros tantos devem cruzar a fronteira rumo a Pernambuco.
Halminc Bassirou, 34 anos, está no Recife há pouco mais de 20 dias. Veio atraído pelos comentários positivos dos irmãos de terra instalados na cidade e conta que abandonou o doutorado em Medicina Tradicional no Senegal porque precisava ajudar a família — os salários pagos em Dakar são baixos, explica, mesmo para quem tem diploma de curso superior. Feliz com as novas perspectivas no Brasil, o africano revela que não faz plano de ir embora tão cedo. “Pernambuco recebe bem os estrangeiros. Aqui tem tranquilidade. Enquanto estiver assim, vou ficando”. Quando não estiver mais, que venha outro destino, como diz Ali, 28 anos, outro senegalês que escolheu o Recife como moradia e há três anos percorre a cidade com sua maleta de acessórios e bijuterias — ele mesmo usando várias joias, e sempre impecável, com um guarda-roupa cheio de estilo e sapato de couro bem engraxado. “Africanos estão em todos os lugares, espalhados pelo mundo. Foi sempre assim e assim vai continuar”.
com data marcada para voltar
Um outro grupo de africanos aportou no Recife: são jovens que participam do Programa de Estudantes-Convênio de Graduação (PEC-G), do Ministério da Educação em parceria com o Ministério das Relações Exteriores. Hoje, 230 alunos africanos estão matriculados em cinco instituições de ensino superior do estado: UFPE, UFRPE, UniNassau, Fafire e Unicap.
Renartez Kunzi, 20 anos, é natural de Kinshasa, na República Democrática do Congo, e chegou há três anos para estudar Engenharia da Computação na UFPE. Compõe o grupo de 67 estudantes africanos da instituição e divide o aluguel da casa onde mora, na Cidade Universitária, com dois colegas brasileiros. Já falava francês e não sentiu dificuldade para dominar o idioma local, mas estranhou o comportamento despojado da turma. “Dois alunos se beijaram dentro da sala enquanto o professor estava ensinando”, exemplifica. Apesar de gostar de viver no estado, pretende voltar ao seu país depois do curso concluído, daqui a três anos. “Não sei como será o futuro, mas quero voltar”.
O retorno ao país de origem é uma das determinações previstas no programa PEC-G, que foi criado em 1965 e tem como objetivo oferecer bolsas de estudos a jovens de países em desenvolvimento com os quais o Brasil mantém acordo educacional, cultural ou científico-tecnológico. Vinte países africanos fazem parte do programa. De acordo com Thales Castro, professor e assessor de assuntos internacionais da Unicap, a maior parte do estudantes que passou pela instituição vem de países lusófonos — Cabo Verde, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Angola. Hoje, apenas 20 africanos fazem graduação na universidade. O programa está temporariamente inativo, diz Thales, porque alguns alunos estavam atrasando as disciplinas. “As diretrizes são as mesmas para todos os estudantes da Unicap, mas espera-se que eles cumpram o fluxo de matérias normalmente”.
Numa festa em Olinda dedicada aos africanos, encontramos o guineense Braima Maldini Mané, 27 anos. Recém-formado em Ciências Sociais pela UFPE, ele promove eventos parecidos na universidade: todo mês, um país é homenageado com música, gastronomia e dança típicas (para saber mais, visite a Conexão África Party no Facebook). “Temos poucos momentos de lazer e essa é uma maneira de manter o vínculo com a nossa cultura”.
Mas nem tudo é festa para esse africano falante, que avalia criticamente o PEC-G. “O programa foi criado em 1965 e precisa de revisão”, afirma. Um dos pontos falhos, segundo Braima, é a integração dos jovens, que acabam se sentindo desorientados. “São os africanos que estão aqui que ajudam os novatos”. Para reinvindicar melhorias, os estudantes de cada país se organizaram em associações.
O advogado Altino Mulungu, pernambucano, descendente direto de africanos, reforçou a corrente há um ano ao criar o Escritório de Assistência à Cidadania Africana em Pernambuco (Eacape). O objetivo é auxiliar os estudantes vindos do continente africano com relação a questões jurídicas e de assistência médica. A entidade, que conta com uma equipe de voluntários, também atua no combate à intolerância racial e trabalha em parceria com os Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros das universidades. Para Mulungu, o Estado precisa oferecer mais condições para os africanos que estão aqui, principalmente os que vêm sem vínculo educacional, como os senegales que trabalham no centro da cidade.
Jorge Arruda, secretário executivo do Comitê Estadual de Promoção da Igualdade Racial (Cepir) e assessor especial do governo, concorda que a situação desses senegaleses carece da atenção do poder público: “Precisamos fazer um trabalho de qualificação e cidadania e garantir que esses africanos estejam amparados pelo Estado”. Ele conta que, por meio de um acordo de cooperação entre o governo do estado e a Unicap, quatro estudantes angolanos estagiam atualmente no gabinete do governador. E defende a aproximação entre os dois povos, historicamente ligados. “Da mesma maneira que o Brasil tem uma relação afetiva com a África, eles também têm com o nosso país. Quando chegam aqui, se reencontram com a sua história”.
Lenne Ferreira
(Aurora – 12/01/2013)
