A ORÍGEM DAS OFICINAS ‘BOLIVIANAS’ EM SP

As oficinas de costura que empregam bolivianas são consequência de uma mudança conjuntural na estrutura econômica no Brasil. Após a abertura comercial do país, o setor industrial, apesar de ser bastante moderno e com produtividade significativa, sofria com a pressão neoliberal de redução excessiva dos custos para competir com os países asiáticos.

Desde os idos anos 50, o Brasil é visto como destino pelos bolivianos. Seja por estudo, ou por trabalho, essa imigração representa a busca pela ascensão social e qualidade de vida.

Essa necessidade de mudança acontece porque a Bolívia ocupa o 113° lugar no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), sendo o pior colocado da América Latina, dificultando que a sua população tenha oportunidades de melhores empregos e renda.

A partir dos anos 80, o perfil desse imigrante boliviano foi sendo traçado. São jovens de ambos os sexos, solteiros, que são atraídos pelos empregos oferecidos por brasileiros, coreanos e até mesmo outros bolivianos nas oficinas de costura de São Paulo.

Muitas vezes, esses trabalhadores são atraidos com a promessa de que, chegando ao Brasil, terão moradia, alimentação e salário que pode chegar aos 400 dólares por mês.   Com a ajuda dos recrutadores, chegam através das cidades fronteiriças, como Corumbá (Mato Grosso do Sul), Cáceres (Mato Grosso) e Guarajá-Mirim (Amazonas, por vias fluviais) e logo começam a acumular dívidas.

Chegando a São Paulo são cobrados desde o uso da máquina de costura, até despesas com luz e água, além do aluguel, mesmo que muitos deles morem no mesmo local onde trabalham.

O aumento da visibilidade dessas oficinas de costura de bolivianos aconteceu como consequência de uma mudança conjuntural na estrutura econômica no Brasil. Após a abertura comercial no país, o setor industrial, apesar de um pouco mais moderno e com maior produtividade, sofria com a pressão para reduzir os custos.

Essa redução era necessária para que os produtos nacionais pudessem competir com os importados, principalmente os asiáticos, que tinham preços bem inferiores.   Nessa busca pela redução de custos, as indústrias têxteis passaram a terceirizar a produção, contratando oficinas de costura, em sua maioria clandestinas, de pequeno e médio porte.

Para alcançar valores menores e atender aos curtos prazos estipulados, essas oficinas precisam de muitos empregados, ou de empregados que cumprem longas jornadas diárias. Como contratar mais pessoas, ou pagar salários coerentes as horas trabalhadas não era possível, algumas dessas confeccões passaram a ver os imigrantes como uma forma de mão de obra barata, possivelmente vulnerável, e fácil de ser explorada.

Com essa crescente demanda de trabalhadores pouco qualificados, a presença dos bolivianos intensificou-se, criando um ciclo de exploração.   Chegando a São Paulo, eles são incorporados ao mercado e logo percebem que a possibilidade de ascensão através da costura não é real e o que lhes resta, é viver de acordo com parâmetros que o Código Penal define como “trabalho em condições análogas à escravidão”.

Porém, aqueles que querem crescer economicamente a qualquer custo, passariam a reproduzir o mesmo comportamento exploratório com os compatriotas que chegam, ou então a ajudar com o aliciamento, atuando como propaganda das oficinas, a fim de manter o fluxo de chegada de bolivianos. Os que um dia foram explorados, estariam colaborando com o explorador.

Quando analisadas, essas oficinas de costura podem ser comparadas as fábricas das cidades industriais da Europa e dos Estados Unidos do século XIX, recebendo o mesmo termo pejorativo: sweatshops.

Concluir que um local de trabalho possa ser definido por esse termo significa décadas de regressão. Sugere um lugar em condições inapropriadas, longas jornadas sem descanso, pouca higiene, salários miseráveis e imigrantes trabalhando.

Esse problema tem ao menos 20 anos, mas há poucos está sendo enfrentado pelo governo. O Ministério do Trabalho, em resposta à essa prática, criou o “Grupo de Enfrentamento da Escravidão Urbana”. Seu objetivo é localizar as oficinas e fechá-las até que se regularizem e paguem os direitos trabalhistas dos seus empregados.

Contudo, esses trabalhadores são invisíveis, não têm valor para o seu empregador e podem facilmente serem substituídos. Não denunciam seus empregadores por temerem ainda mais a justiça, já que muitos estão ilegais no país e ainda por cima, muitos deles, não têm a percepção que estão sendo escravizados. Tudo isso dificulta para que as oficinas sejam encontradas e para que outros bolivianos deixem de vir para o Brasil.

Beatriz Sá



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