O primeiro registro de japoneses no Brasil foi dos tripulantes do navio Wakamiya Maru. A embarcação naufragou na costa japonesa, em 1803, e seus quatro tripulantes foram salvos por um navio de guerra russo, que aportaria em Santa Catarina, para conserto, em sua rota de volta. Ficaram em Florianópolis de dezembro de 1803 a fevereiro de 1804, tempo em que fizeram importantes registros da vida da população local e da produção agrícola da época. Em 1907, o governo brasileiro publicou a Lei da Imigração e Colonização, permitindo que cada Estado definisse a forma mais conveniente de receber e instalar os imigrantes.

Em novembro do mesmo ano, Ryu Mizuno, considerado o pai da imigração, fechou acordo com o secretário da Agricultura de São Paulo, Carlos Arruda Botelho, para a introdução de 3 mil imigrantes japoneses num período de três anos, para trabalhar nas lavouras de café. Assim, no dia 28 de abril de 1908, o navio Kasato Maru deixa o Japão com os primeiros imigrantes rumo ao Brasil. Atraídos pelo sonho de uma vida melhor, os imigrantes aprenderam a conviver com uma cultura totalmente diferente da sua e tiveram que superar várias dificuldades, sobretudo o preconceito.

As motivações vieram de ambos os países. No Japão, a tensão social, consequência de uma densidade demográfica acentuada, precisava ser atenuada. Lá, o governo adotava medidas para incentivar a emigração. O Brasil, por sua vez, precisava de mão-de-obra para trabalhar nas fazendas de café, especialmente em São Paulo e no Paraná. Existem registros de que, em 1894, TadashiNemoto chegou a visitar o Brasil para inspecionar e trabalhar em prol da emigração japonesa.

Os 781 japoneses recém-chegados foram distribuídos em seis fazendas paulistas. Enfrentaram, porém, um duro período de adaptação. O grupo contratado pela Companhia Agrícola Fazenda Dumont, por exemplo, não permaneceu ali mais que dois meses. As outras fazendas também foram sendo gradativamente abandonadas. Em setembro de 1909, restavam apenas 191 imigrantes nas fazendas que os contrataram. No ano seguinte, a segunda leva de imigrantes já estava a caminho. E no dia 28 de junho de 1910, o navio Ryojun Maru aportava em Santos com mais 906 trabalhadores a bordo.  Aos poucos, porém, os conflitos foram diminuindo e a permanência nos locais de trabalho, mais duradoura.

Durante treze anos, o estado de São Paulo e os fazendeiros de café subsidiaram as passagens dos imigrantes, que deveriam cumprir um contrato de dois a três anos trabalhando nas lavouras. Os japoneses, entretanto, não estavam satisfeitos: vieram incentivados pelo sonho de que no Brasil enriqueceriam rápido e logo voltariam para sua terra, mas encontraram condições de trabalho inadequadas e de pouca salubridade. Notaram, então, que era necessário se unir para conquistar sua própria independência em terras estrangeiras. Começaram a criar parcerias e cooperativas, a fim de defender seus interesses. Além disso, adquiriram pequenas terras, onde desenvolveram técnicas de produção agrícola.

Aos poucos, cada vez menos as fazendas paulistas eram vistas como minas de ouro. Daí o fato da imigração começar a se aproximar do Rio de Janeiro: a baixada fluminense se desenvolvia e o governo do estado acreditava que os japoneses poderiam ajudar na contenção da proliferação de doenças, na criação de indústrias que substituiriam as fazendas de café, em declínio no estado, e no aumento da produção de alimentos.

Rapidamente, o Japão firmou acordo com o presidente do Estado, que disponibilizaria sem custos a Fazenda Santo Ântonio, em São Francisco de Paula – atualmente conhecida como Trajano de Moraes, no município de Macaé. E assim foi criada a primeira colônia japonesa no estado do Rio de Janeiro.

Campo de Guerra

São Paulo ainda continuou por algum tempo como o estado preferido dos imigrantes japoneses. Mas, em 1933, estourou uma crise de superprodução na agricultura. Nessa época, Hikaru Saito, japonês que hoje reside no Rio de Janeiro, nem poderia imaginar que seu destino seria vir para o Brasil. Nascido em Tóquio, ficou por lá até a Segunda Guerra Mundial quando a cidade se encheu de fogo e toda sua família, mãe e irmão, fugiram para a província Gunma, onde sua avó morava. O pai de Saito havia morrido no conflito.

No período que antecedeu a guerra, os estabelecimentos comerciais do Rio de Janeiro cresceram rapidamente. Era o momento do alvorecer da imigração japonesa no Rio, e os proprietários nipônicos viam seus negócios prosperar. Ficava claro que nessa época os maiores donos de grandes estabelecimentos comerciais, como a Casa Nippoku, não desejavam fixar-se para sempre em solo brasileiro, seu objetivo ainda era enriquecer e voltar para o país de origem. Não podíamos dizer o mesmo dos seus funcionários, já que muitos casavam com brasileiras e acabavam se naturalizando.

Em 1930, hotéis e pensões voltaram a abrir e a ganhar força na cidade, como a Pensão das Laranjeiras e Pensão Japonesa, conhecida também como Pensão Hirose, que era utilizada para reuniões da comunidade. Ambas ofereciam serviço de restaurante, com comidas típicas vindas do oriente. Além das hospedarias, os japoneses também exploraram outras formas de fazer negócio, como a venda de pedras preciosas e abertura de lojas onde ofereciam serviços de tinturaria a lavanderia.

Nota-se que nos primeiros 20 anos subsequentes ao atracamento do navio Kasato Maru no Brasil, os imigrantes que nele vieram tiveram uma vida próspera devido, principalmente, ao sucesso alcançado na agricultura. Durante a guerra, porém, o quadro geral da imigração japonesa sofreu mudanças. O número de imigrantes aumentou e os japoneses que aqui viviam não se consideravam mais apenas “japoneses residentes”: a partir daquele momento, o desejo da grande maioria, que antes era voltar ao Japão, passa a ser a criação de raízes em solo brasileiro. Há, nesse ponto, uma grande diferença entre os estados do Rio de Janeiro e de São Paulo. Lá, imigrantes ainda tinham a vontade de voltar para o Japão. Já no Rio, isso não acontecia mais.

Após a Segunda Guerra, houve um congelamento da imigração japonesa. Entre 1940 e 1950, apenas 1,5 mil japoneses imigraram para o território brasileiro. Somente quando a guerra terminou é que a imigração voltou a se intensificar. Foi nesse momento que Hikaru Saito também decidiu explorar as terras brasileiras. Diferente da grande maioria, ele não veio esperando grandes conquistas. Em 1957, ano em que terminou seu colegial, um amigo de seu pai que estava na Guerra voltou e trouxe uma proposta que mudaria a vida de Saito. “Ele trabalhava em uma fundação que enviava rapazes, que terminavam o segundo grau, para o exterior. A Fundação ensinava a língua e também tinha uma igreja para ensinar a religião do país”, contou. “E ele me chamou.”

Depois da autorização de sua mãe, o amigo de seu pai foi conversar com Saito, abriu um mapa do mundo e disse: “Saito, tem um navio que vai para o Brasil e foi fabricado no Japão, é um navio de guerra”. Ishikawajima havia sido um pedido do estaleiro brasileiro no Rio de Janeiro. O governo encomendara três navios de guerra. O primeiro, em 1956, um ano antes, já havia sido mandado para o Brasil. O último navio estava saindo em 1957. Aos 18 anos, Saito não pensou duas vezes.

Os japoneses que permaneceram aqui, então, deixaram de servir apenas como mão-de-obra barata e, por exigência de acordos bilaterais, passaram a ter acesso a diversos setores da sociedade. Em 1958, 50 anos após a chegada dos primeiros imigrantes, o número de japoneses e descendentes no país somava mais de 400 mil pessoas. A partir da década de 60, aumentou o número de famílias japonesas que administravam seus próprios negócios. Os homens trabalhavam como feirantes, quitandeiros e tintureiros. As mulheres, como costureiras e em salões-de-beleza.

Na década de 70, já não era tão estranha a convivência entre as culturas japonesa e brasileira, e o número de casamentos entre etnias diferentes aumentou no país. Nessa época, o Japão se recuperou da crise econômica e passou ocupar um papel de destaque no cenário mundial. Hoje, 105 após o início da imigração japonesa, o Brasil abriga a maior população japonesa do mundo fora do Japão.

Vida Nikkei

Registros feitos pela Embaixada do Brasil em Tóquio, mostram que, aproximadamente, 190 mil imigrantes chegaram ao Brasil, do período que corresponde da chegada do Kasatu Maru até 1941. Infelizmente, o fluxo migratório cessou quase completamente no final da década de 1950. Mas o Brasil já contava quase 200 mil imigrantes japoneses estabelecidos em suas terras.

Existem hoje, no país, cerca de 1,5 milhão de nipo-brasileiros, espalhados por todo o território brasileiro e em pontos de concentração como Paraná, Mato Grosso do Sul, Pará e Rio de Janeiro. A grande maioria mora e trabalha em São Paulo. Liberdade é um
dos bairros de São Paulo de tradição japonesa, porém, hoje só mantém o comércio e restaurantes típicos.

Alguns japoneses chegaram a migrar até mesmo dentro do Brasil, procurando lugares que oferecessem melhores oportunidades de trabalho. Saito foi um desses imigrantes que chegaram ao Brasil e demoraram algum tempo para fixar-se definitivamente em algum estado brasileiro. Primeiro, Saito viveu no Rio de Janeiro por dois anos, depois São Paulo, onde ficou por mais três anos. A falta de dinheiro e oportunidades levou Saito a trabalhar na lavoura, no entanto, sua mãe veio do Japão para trazer dinheiro e matar as saudades de seu filho. “Ela disse que já que seu filho não voltava, ela veio buscar”, lembrou sorrindo.

Com os dois juntos novamente – sua mãe decidiu ficar no Brasil –, eles compraram uma propriedade e iniciaram uma pequena plantação. O negócio não durou muito tempo e os dois acabaram migrando para Minas Gerais. Na época, a construção de usinas estava em alta, e precisavam-se de japoneses como intérpretes, mas Saito ainda não falava português. “Estavam recrutando japoneses, e, por um acaso, o chefe me conheceu e me deixou um cartão falando que me queria lá, que eu não precisava falar português e tinha um trabalho para mim”, contou. “Um dia, arrumei dinheiro e fui ver o que era. Gostei do trabalho e acabei ficando dez anos”. Depois desse tempo, casou-se e teve seu primeiro filho. Decidiu mudar de emprego, não estava mais satisfeito com a vida em Minas e veio para o Rio de Janeiro, onde mora há 40 anos.

Nipo-brasilidade

A comunidade Nikkei – descendentes de japoneses nascidos fora do Japão ou japoneses que vivem regularmente no exterior – algumas vezes pode ser vista como uma extensão do Japão, enquanto outros a veem como um segmento da sociedade brasileira. Outros, ainda, acreditam que ela seja as duas coisas, ou nenhuma delas. Não podemos negar que a cultura japonesa no Brasil é bastante cultivada desde o inicio do fluxo migratório até os dias de hoje, e que isseis, nisseis, sansseis e yosseis ajudaram a formar uma cultura própria brasileira-nikkei, repleta de peculiaridades.

Para que fosse possível manter a cultura oriental, associações foram sendo criadas. Em 1921, surgiu no Rio a primeira associação japonesa, a “doushikai de japoneses no Rio”, que reunia praticantes de um determinado tipo de Karatê. Em geral, o esporte
sempre foi um bom motivo para juntar a comunidade: em 1940 foi realizado o primeiro evento, a undo-Kai, uma gincana esportiva. Também em 1921, eles criaram o time japonês de beisebol e, em 1922, o Clube de Tênis da Fraternidade Nipônica do Rio.

Apesar de já existirem comunidades, foi depois do pós-guerra que as associações nipônicas alargaram seus números no Rio de Janeiro. Em 1947, foi criado o REC, Rio Esporte Club, uma iniciativa tomada por Isamu Onu, Tomojiro Kagami e Hiroshi Ishii, que tinha o objetivo de formar atletas capacitados para jogar beisebol. A grande diferença do REC era que ele foi criado para os estudantes de outros estados, e não somente para imigrantes japoneses que trabalhassem ou estudassem no estado do Rio de Janeiro.

A partir dessas iniciativas, muitas outras associações nikkeis ganharam força e apoio para surgirem, e alguns exemplos são a Associação Cultural e Esportiva Nipo-Brasileira do Estado do Rio de Janeiro, o Clube de Angra dos Reis, o Itaguaí Bunka Clube,
a Associação Nikkei de Niterói e o Esporte Clube Agrícola de Papucaia, entre tantas outras que se espalham hoje por todo estado.

Recanto do Oriente

Obviamente não é só o Rio de Janeiro que abriu espaço para a criação das comunidades nikkieis, no Brasil inteiro é possível encontrá-las. No estado de São Paulo, a cerca de 600 quilômetros da capital, a Associação Comunidade Yuba é famosa pela sua autenticidade japonesa. Em princípio, parece uma simples fazenda, com uma imensa varanda colonial e velhos tratores estacionados ao
relento. Ao se aproximar, o cenário se confunde à vista do visitante. Yuba não é apenas uma propriedade rural, nem seus habitantes meros lavradores.

A comunidade cravada no interior do estado ainda preserva costumes milenares e cultiva, além da roça, uma rotina cultural sem paralelos. Não há refrigerante. O que se bebe é chá gelado. Na comunidade Yuba, não basta só cultivar a terra. O refeitório coletivo, repleto de ideogramas, vira uma animada sala de coral e piano. Inteiramente comunitária, a vida em Yuba lembra o sistema social idealizado por Thomas Morus na imaginária Ilha Utopia, com uma diferença: há 72 anos, um grupo de japoneses e descendentes luta para subverter as regras do sistema capitalista e manter coesa uma comunidade rural nos arredores de Mirandópolis. Nenhum de seus moradores goza de regalias ou privilégios, nem mesmo o presidente da associação.

Yuba já foi uma grande comunidade, com quase de 300 integrantes. Hoje, são somente 61, formados basicamente por adultos que não pensam em deixar a terra. A comunidade mantém atados os laços com a herança oriental introduzida por seu fundador, IsamuYuba. Os que ficaram sabem que são herdeiros da terra e daquele modo de vida. Pelo menos enquanto a comunidade existir.

Além da comunidade no interior de São Paulo, outra comunidade nipônica bastante influente é a Associação Nikkei do Rio de Janeiro, localizada no bairro do Cosme Velho. A associação foi fundada em 15 de julho de 1972, no Estado da Guanabara. O primeiro Cônsul Geral, Kizo Araki, preocupado com a falta de uma entidade representativa dos japoneses e descendentes, orientou figuras de destaque para o estabelecimento de um centro de intercâmbio.

Em março de 1972, foi realizada a primeira reunião oficial para a fundação da entidade. O nome foi escolhido por ser dirigida por descendentes de japoneses e destinada à colônia. O primeiro presidente da instituição foi Hitoshi Fujihara e, apesar das mudanças que ocorreram desde sua criação, a associação continua com seus objetivos e preceitos. Promove a cultura oriental, divulga os costumes e as tradições japonesas e é um ponto de referência reconhecido da comunidade Nikkei no Rio de Janeiro.

Um dos frequentadores da Associação é Saito. Ele conheceu a instituição através da vizinhança logo que chegou ao Rio, em 1973. Saito considera a associação
muito importante, já que, dessa forma, ele pode manter o contato com sua cultura de
origem. Logo que ele entrou para a comunidade, fazia diversas coisas e tinha muitas
funções. Hoje, além de membro da diretoria, se dedica ao tênis de mesa.

A identidade cultural é construída por muitos fatores, e a variante cultural é de extrema importância nesse sentido. Comunidade e cultura necessitam de uma relação mútua de dependência e troca. E o traço comum que leva pessoas a uma mesma comunidade não é somente sua etnia, consanguinidade ou nome de família. A cultura é um fator essencial no elo entre indivíduo e comunidade, pois é ela que legitima a sua pertinência naquele grupo. Para confirmar isso, basta observar brasileiros que possuem, por exemplo, maior domínio do idioma japonês, mais hábitos alimentares e maior adoção de valores tradicionalmente japoneses do que muitos nikkeis.

A abertura das comunidades é benéfica, pois aumentam as chances de sobrevivência e evolução junto ao resto da sociedade, além da promoção do intercâmbio cultural. A comunidade nikkei brasileira está situada em um novo território, formado por pessoas que vivem uma tradição mista, que se identifica ao mesmo tempo com o Brasil e com o Japão, recebendo influências de ambos os países. Seu papel vai muito além da preservação da cultura nipônica entre imigrantes e descendentes no Brasil, já que ela difunde em diferentes níveis essa cultura dentro da sociedade brasileira e também difunde a cultura brasileira no Japão através dos dekasseguis, que são os descendentes de imigrantes que retornam ao Japão.

Ideogramas midiáticos

Em termos de mídia japonesa no Brasil, destacam-se os programas da filosofia Seicho-No-Ie, cujos adeptos são japoneses ou descendentes que se reúnem periodicamente e são bem organizados. Com a sede nacional em São Paulo, e também uma em Copacabana, essa é uma das organizações mais engajadas na produção midiática. Eles são responsáveis por uma produção que vai de jornais e revistas a programas de televisão, distribuídos pelo país inteiro.

Com recursos audiovisuais bastante restritos, o programa de televisão consiste na difusão dos conceitos e ideais da religião, que prega a perfeita interação com Deus e com a Natureza. Além disso, também são transmitidas palestras com autoridades da própria Seicho-No-Ie.

São produzidos revistas e boletins diferentes, para tipos específicos de públicos. A revista Fonte de Luz é dirigida aos homens da Seicho-No-Ie e apresenta textos com conteúdo mais reflexivos, já que é dirigida a pais de família e possui propaganda. Já a revista Pomba Branca costuma fazer a cobertura dos eventos da organização, e tem também orações, uma sessão de gastronomia e publicidade. A distribuição é nacional, através das sedes da Seicho-No-Ie ou pelos correios.

A revista Mundo Ideal é uma das mais recentes, voltada para o público jovem da Seicho-No-Ie. Possui uma seção de correspondências, em que jovens de todo o país tiram dúvidas e opinam sobre as mais diversas questões. A revista também tem como objetivo difundir os
ensinamentos da Seicho-No-Ie e promover a reflexão entre os jovens.

Existem outros veículos disponíveis para os japoneses e para as comunidades nikkeis, como o Jornal Círculo de Harmonia, uma publicação de circulação nacional que reúne as informações do Seicho-No-Ie, como eventos e orações, além de trazer depoimentos
de leitores e o boletim da Associação Rio Nikkei. O boletim do Rio nikkei é mensal e foi criado em 1972. Com uma tiragem pequena, de aproximadamente 230 exemplares, em função do seu alcance restrito, ele é basicamente distribuído nas colônias japonesas existentes no Rio de Janeiro.

Como todos os demais jornais voltados para os descendentes, o boletim da Rio Nikkei é bilíngue, o que gera um atraso na distribuição, já que a versão em japonês precisa ser confeccionada em São Paulo, porque no Rio de Janeiro não há
gráficas que possam imprimir os caráteres japoneses.

O Jornal Nippo Brasil é um dos mais importantes e influentes dentro da comunidade oriental. É publicado pela Empresa Jornalística International Press Brasil, fundada em 1992. Com mais de dez anos de atividade, o Jornal tem um grande público Nikkei estabelecido. Sua primeira publicação foi o Jornal “Notícias do Japão”, um semanário voltado às famílias dos dekasseguis. Precursor nesse formato, foi e até hoje continua sendo a única mídia no Brasil a publicar assuntos da comunidade de 250 mil brasileiros no Japão, que remetem anualmente ao país cerca de 2 bilhões de dólares.

Em parceria com o jornal International Press, publicado no Japão e editado totalmente em português, o Jornal Notícias do Japão conseguiu rapidamente conquistar um público cada vez mais fiel. Também foi o pioneiro na mídia para os latino-americanos. Hoje, o seu primeiro exemplar encontra-se arquivado na Biblioteca de Tóquio.

Yoshio Muranaga foi o idealizador do projeto: viajando sempre ao Japão, ele notou a carência de informações, face aos vários problemas, ansiedades e saudades que passavam os brasileiros que residiam lá. Surgiu então o projeto dos dois jornais. Primeiro, o International Press, direcionado para os trabalhadores brasileiros no Japão e que publicava as notícias do Brasil. O outro, o Jornal Notícias do Japão, publicado no Brasil, tem informações de tudo o que acontece aqui, principalmente com a comunidade nipo-brasileira. Apesar da dificuldade, o investimento feito pelo empresário o tornou o rei da mídia na comunidade nipo-brasileira. O sucesso de ambos os projetos levou também à criação da IPCTV, a única com programação de TV diretamente do Brasil para o Japão.

Em 1999, o Jornal Notícias do Japão reestruturou seu produto e sua maca. Foi aí que nasceu o Jornal Nippo-Brasil. Novas colunas foram incorporadas, seções de cultura japonesa, culinária, saúde, Mangá (revista de quadrinhos japonesa), eventos e entrevistas,
entre outras novidades. Hoje, o Jornal Nippo-Brasil é distribuído largamente em forma de assinaturas e vendas em bancas. Está presente na capital paulista, no interior do estado de São de Paulo e em todas as grandes cidades do país.

O Jornal Nippo-Brasil (ex-Notícias do Japão) é o único jornal que dedica espaço permanente a um dos mais importantes fenômenos migratórios vividos pelo nosso país, envolvendo cerca de 260 mil nipo-brasileiros que estão trabalhando no Japão (dekasseguis) e que são responsáveis pela remessa anual para o Brasil de aproximadamente 2,5 bilhões de dólares. O jornal também tem sua versão online. O site se estrutura a partir de uma série de links de notícias, onde encontramos contos sobre o Japão, manchetes das agências internacionais informando os últimos investimentos de empresas japonesas, notícias de esporte e de brasileiros no país. Há também um chat, enquetes, fóruns e um link de comunicação com a redação, onde pode-se pedir informações e sugerir pautas. É
dessa maneira que a cultura oriental se difunde no Brasil, através dos sites, informativos e jornais produzidos pela comunidade nipônica.

Peixe cru

É grande a diferença e a diversidade das culturas oriental e ocidental. Com certeza, os imigrantes japoneses levaram algum tempo para se adaptarem, afinal a comida, a religião, a língua e a forma de vida de ambas as sociedades são diferentes em muitos aspectos. Imaginem como seria morar no Japão, imaginem o tempo e a dificuldade que nós, brasileiros, não levaríamos para entender e falar o idioma em Tóquio, por exemplo. Mesmo com a dificuldade, muitos deles aprenderam.

Para Saito, o idioma foi definitivamente o mais difícil. Segundo ele, a temperatura, o clima e a comida são aspectos relativamente fáceis para se adaptar. Outro fator que Saito apontou como positivo são as pessoas: ele caracterizou o povo brasileiro como um povo grande. “O Brasil é grande, o brasileiro é grande. Tem espaço para todo mundo, aceitam tudo. Japonês é muito desconfiado, brasileiro é muito sincero e aberto”, comparou.

Sua mãe, mesmo morando por 50 anos no Brasil, não conseguiu aprender o complexo português. Ela gostava muito de ler, e sua irmã lhe mandava livros em japonês. De qualquer forma, mesmo sem falar português, viajou sozinha até Manaus, Belém e Santa Catarina. “Quando voltava e contava o que tinha gostado, dizia que conversava com as pessoas por linguagem corporal”, lembrou orgulhoso. Sua mãe faleceu aos 94 anos.

A comida jáponesa também é bem peculiar se comparada à brasileira. Porém, hoje, andando pelas ruas, encontramos inúmeros restaurantes japoneses. O povo brasileiro incorporou a novidade e se tornou fã desse tipo de culinária, onde o peixe é o principal ingrediente, que normalmente não é cozido. O sashimi, em termos mais simples, o “peixe cru”, é um dos pratos de maior sucesso. Porém, nem sempre foi assim: em 1939, foi inaugurado o primeiro restaurante japonês no Rio, no bairro de São Cristovão, mas o estabelecimento não durou muito tempo.

O Japão é um país que tem uma organização e uma cultura extremamente tradicionais. Manter essa cultura milenar para os imigrantes não é fácil. Além das comunidades e suas mídias, os japoneses mais antigos também tentam passar seus ensinamentos para os mais jovens. O grande obstáculo é a tremenda influência que eles sofrem da cultura ocidental. Saito, que constituiu família no Brasil, entende como é difícil fazer com que seus filhos e netos, distantes do Japão, lembrem que é de lá que vem sua cultura.

O filhos de Saito foram criados dentro das escolas brasileiras, mas mesmo assim ele buscou inserir no comportamento deles as tradições japonesas. Saito contou que tanto seu filho, quanto sua filha são muito pontuais, respeitosos, tradicionais e “certinhos”, como o próprio Saito caracterizou-os. Além dos filhos, Saito tem uma neta, que ainda é criança. Mesmo assim, já é possível ver como é muito mais complicado fazê-la entender a necessidade de cultivar as tradições japonesas. Saito considera sua netinha muito mais brasileira, mas não acha ruim essa mistura. Pelo contrário, para ele, a mistura nipo-brasileira só ajuda na integração Japão-Brasil.

Gabriela Pantaleão